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Isabella: o novo restaurante do Chiado, em Lisboa, com muito sabor e 280 vinhos em taça

Recém-aberto em Lisboa, o endereço comandado por Ricardo Leite aposta em produtos de estação, bons preços e uma garrafeira inteira disponível por taça

 No Chiado, há lugares em que a história pesa antes mesmo de a comida chegar à mesa. O Isabella agora ocupa um desses endereços. Instalado na Rua Anchieta, 11, em um edifício que pertence à família de Ricardo Flora há cerca de um século, o restaurante abriu em abril com a ambição de ser mais do que uma boa novidade em Lisboa.

Logo de cara, chama atenção a estrutura pombalina do imóvel. O termo está associado à reconstrução de Lisboa depois do terremoto de 1755, quando parte da cidade foi reorganizada pensando em uma arquitetura que contemplasse sistemas de construção antissísmica. No Isabella, essa memória aparece no próprio espaço, com gaiolas de madeira preservadas em detalhes, além das robustas portas, piso em pedra e alguns azulejos originais.

Seleção de pão de massa mãe de trigos nacionais (€ 9), com azeite virgem extra orgânico, manteiga noisette e manteiga de ovelha fumada / Foto: Valéria Bretas

O nome também vem de casa e tem história. Isabella era a avó do proprietário. A mulher e a filha de Ricardo Flora também se chamam Isabela. Antes mesmo do primeiro prato, portanto, o restaurante já carrega uma camada de memória familiar.

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A cozinha é comandada por Ricardo Leite, formado no Cordon Bleu, em Londres, e com passagem por casas como Viajante, Bica do Sapato, Loco e Alma Nómada. No Isabella, ele fala em um menu de estações. A lógica é simples: um produto que está muito bom hoje talvez não esteja no mesmo ponto daqui a alguns meses. Por isso, a carta acompanha a sazonalidade e busca trabalhar com pequenos produtores.

A garrafeira também é uma parte central do projeto. São quase 300 rótulos, com cerca de 60% de vinhos portugueses e 40% de opções globais. O diferencial é que todos podem ser pedidos em taça, algo pouco comum em restaurantes, onde normalmente só uma parte da carta fica disponível nesse formato.

E, apesar de ter um hotel ao lado, o Isabella quer funcionar de forma independente. A ideia, segundo o chef, é que o restaurante seja visto como um endereço para voltar, não apenas como apoio à hospedagem. Isso aparece numa proposta de boa relação custo-benefício, especialmente considerando a localização e o cuidado da execução dos pratos.

Crème brûlée de abóbora (€ 14), com beurre blanc de pevides, creme fresco, óleo de sementes tostadas e aneto / Foto: Valéria Bretas

A carta é organizada em etapas: Momento do pão, Despertar, Expressão, Convívio e Desfecho. O começo já mostra cuidado. A seleção de pão de massa mãe de trigos nacionais (€ 9) vem com azeite virgem extra orgânico, manteiga noisette com pó de cebola caramelizada e manteiga de ovelha fumada. O pão é muito saboroso, mas o que fica na cabeça é o toque defumado da manteiga, que dá profundidade sem pesar.

As entradas são leves. Dá para pedir duas tranquilamente, sem a sensação de saturar antes do prato principal. A tartelete (€ 16), com tártaro de novilho, alho negro e gema fumada, é muito saborosa. Já o brioche (€ 14), com molho de levedura de cerveja, cogumelos selvagens da temporada, vinho da Madeira e azedinha, combina a maciez da massa com um molho mais ácido, que equilibra bem o prato.

Lombo de novilho maturado (€ 35), servido com topinambur, pickle de cebola, alcaparras, molho bordalês e pimenta verde / Foto: Valéria Bretas

Mas o melhor momento das entradas foi o crème brûlée de abóbora (€ 14), com beurre blanc de pevides de abóbora, creme fresco, óleo de sementes tostadas e aneto. A abóbora é aproveitada em totalidade e aparece num prato entre o doce e o salgado, quase como um pudim agridoce. Para quem cresceu no Brasil acostumada à abóbora japonesa, nem sempre é fácil encontrar em Portugal uma abóbora que entregue a mesma doçura e textura. Talvez por isso esse prato tenha chamado tanto a atenção. É impecável.

No prato principal, o lombo de novilho maturado (€ 35) confirma a força da cozinha de produto. Servido com topinambur, pickle de cebola, alcaparras, molho bordalês e pimenta verde, chega no ponto certo, com qualidade e sabor. Mesmo com boas opções do mar na carta, o novilho se destaca. O chef contou que a carne vem de uma quinta no Norte, escolha que ele faz questão de manter mesmo com a operação em Lisboa.

As sobremesas seguem o mesmo caminho de técnica, mas sem perder afeto. O arroz-doce quente (€ 8) abraça. Tem aquela doçura familiar que leva a memória para a comida de mãe, mas sem deixar de ser sobremesa de restaurante. É simples na ideia, bem resolvido na execução.

Arroz-doce (€ 8), sobremesa que combina memória afetiva e técnica no Isabella, no Chiado / Foto: aléria Bretas

O fato é que o Isabella ainda é novo, mas já demonstra uma cozinha muito saborosa. Em Portugal, onde a comida costuma ser forte e cheia de personalidade, talvez o desafio de um restaurante contemporâneo esteja menos em inventar demais e mais em levar sabor. Ainda é cedo para dizer que lugar o Isabella vai ocupar na cena de Lisboa. Ainda é cedo para dizer que lugar o Isabella vai ocupar na cena de Lisboa. Mas a comida é saborosa e dá muita vontade de voltar. Que tenha vida longa no Chiado!

Por Valéria Bretas (@valeriabretas)

Isabella
Rua Anchieta, 11, Chiado, Lisboa
@isabellabyflora

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