Jantando com o produtor
Série de eventos da Mercearia da Praça traz enólogos de Portugal para contar curiosidades e explicar sobre rótulos
Por Ursula Alonso Manso, do Rio De Janeiro
Um jantar na Mercearia da Praça, em Ipanema, é sempre promessa de boa comida e bons vinhos. Mas um jantar da série “Jantar com o Produtor”, promovida pela casa, é, também, regado a boa conversa. Como aconteceu na noite do último dia 11 de outubro, quando a Mercearia recebeu o enólogo João Santos, da Quinta do Ribeiro Santo, na região do Dão, em Portugal. Muito além de notas, aromas e outras terminologias acessíveis apenas aos iniciados em tintos, rosés e brancos, João contou histórias e revelou curiosidades, agradando em cheio o público que estava ali atrás de bons momentos. O próximo jantar da série já tem data marcada: 17 de outubro, com o enólogo Jorge Alves, da Quanta Terra, na região do Douro, em Portugal.
Os encontros acontecem na adega subterrânea da Mercearia, a maior do Rio de Janeiro, com mais de 1.300 rótulos (em sua grande maioria, portugueses) organizados em um belo mobiliário de madeira. São apenas 16 disputados lugares numa mesa comprida, onde o chef Caíque Nogueira, ex-Antiquarius, apresenta pratos desenvolvidos para harmonizar com os vinhos.
Fundador da Rio Sol, no Vale do São Francisco, em Pernambuco, o enólogo João selecionou seis vinhos da Quinta do Ribeiro Santo para a noite: Cimento Branco, Ribeiro Santo Encruzado, Cimento Tinto, Ribeiro Santo Reserva Tinto, Vinha da Neve Tinto, e Sono de Vindima. No cardápio, depois do antepasto com bolinho de bacalhau, foram servidos punheta de bacalhau, como entrada; bacalhau crocante e arroz de pato, entre os principais, e rocambole de laranja, encerrando a refeição.

“O uso de tanques de concreto para envelhecer vinhos chegou para atender mercados que já estavam fartos de bebidas carregadas no sabor de madeira, além de resgatar a história do Dão”, disse João. “Nosso Cimento Tinto é daqueles rótulos que você ama ou odeia, com tanino mais vivo, que contrasta bem com pratos de bacalhau carregados no azeite”, acrescentou, quebrando o mito de que peixes precisam ser servidos com vinhos brancos. “Em Portugal, bacalhau nem é peixe; é bacalhau”, afirmou, levando o público às gargalhadas. Harmonizando com o Cimento Tinto, o lombo de bacalhau veio crocante, empanado e frito, escoltado por batatas assadas, brócolis salteado, azeitonas pretas, tomate cereja e cebola confit.
Mas a vedete, hoje, do Dão é a uva Encruzado, tida como uma das melhores castas brancas do mundo. “Na boca, ela lembra um Chardonnay, mas é pouco aromática, por isso os vinhos vão envelhecer em barricas de madeira”, explicou João. O branco Ribeiro Santo Encruzado, que acompanhou a punheta de bacalhau, é o rótulo mais vendido da vinícola, representando cerca de 60% do porfólio. “Atualmente, o Dão vive do Encruzado, você entra em um restaurante e não pergunta qual o branco da casa, pergunta qual o rótulo de Encruzado que a casa tem.”
Falando em barricas, os dois vinhos escolhidos para harmonizar com o arroz de pato, recheado de miúdos da ave e de chouriço português, foram rótulos que descansam em barricas. “A maior parte das barricas da Quinta do Ribeiro Santo são de carvalho francês”, disse João, que, aqui, abriu um parêntese para contar sobre a criação do icônico Barca Velha, em uma época em que não havia ar-condicionado e a fermentação não podia passar dos 20ºC. “Portugal só tinha duas fábricas e gelo, eram caminhonetes da Casa Ferreirinha pra lá e pra cá, indo buscar o gelo para fazer o Barca Velha.”

No Ribeiro Santo Reserva Tinto, a vinícola usa as uvas Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz. No Vinha da Neve Tinto, a segunda opção servida com o arroz de pato, uvas Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinto Cão. O nome Vinha da Neve deriva da localização única das vinhas utilizadas na produção do vinho, a 700 metros de altitude. A cada safra, a Quinta do Ribeiro Santo produz, em média, apenas 2 mil garrafas do rótulo.
Como o Vinha da Neve, outra produção delicada da vinícola é o Sono de Vindima, que encerrou o jantar com o rocambole de laranja. Nele, entram novamente as uvas Encruzado, agora colhidas apenas em novembro, quando as videiras começam o ciclo do sono e perdem as folhas. “São cerca de quatro quilos de uva para fazer uma garrafinha pequena, de 500ml.” Um esforço que, com certeza, vale muito a pena ao paladar.
Serviço
Endereço: Rua Jangadeiros, 28, Praça General Osório, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ
Telefone: (21) 3986-1400 / 97565-0774
Instagram: @merceariadapracaipanema



