JOVEM DE MEIA IDADE
Enólogo-chefe da Concha Y Toro fala sobre a nova fase do Marques de Casa Concha, o apelo ao público jovem e dá spoilers do futuro da vinícola

BATE-BOLA/ MARCELO PAPA
POR DIDÚ RUSSO
FOTOS DIVULGAÇÃO
Desde 1976, o Marques de Casa Concha carrega a tradição da Cabernet Sauvignon do Maipo, no Chile. Prestes a completar 50 anos, o rótulo inicia as comemorações com uma linha de seis vinhos completamente renovados – uma releitura contemporânea que busca dialogar com um público mais jovem e menos familiarizado com o universo do vinho.
Para entender melhor essa virada, conversei com Marcelo Papa, enólogo-chefe da vinícola Concha y Toro, que lidera esse reposicionamento da marca.


Didú Russo: É a primeira vez que os rótulos de Marques de Casa Concha são modificados?
Marcelo Papa: Não, já fizemos mudanças antes, mas nunca algo tão drástico como agora. Desta vez, o apelo é mais comercial.
D.R.: E o que mudou, basicamente?
M.P.: Estamos focando mais nos jovens e destacando melhor as castas de cada rótulo.
D.R.: Qual é a produção atual de Marques de Casa Concha?
M.P.: Aproximadamente 120 a 130 mil caixas de 12 garrafas por ano. E uma curiosidade: o Cabernet Sauvignon, que foi o primeiro rótulo, continua sendo o preferido. Mas a Carmenère vem crescendo, especialmente no Chile e, no caso do Brasil, já está até um pouco à frente nas vendas.
D.R.: A Carmenère, no passado, era um pouco rústica, não? Hoje está muito mais amável. Eu, particularmente, gosto bastante dessa casta, especialmente com legumes, como uma berinjela grelhada. Ela harmoniza perfeitamente, não acha?
M.P.: Totalmente de acordo. A Carmenère é mais fácil que o Cabernet Sauvignon. É um tinto concentrado, mas com um pouco mais de “sangue” que o Cabernet. No Chile, no Brasil e na Coreia, ela é a preferida.
D.R.: E quanto aos principais mercados compradores?
M.P.: Em primeiro lugar, o Chile. Depois, o Brasil. Em terceiro, mais ou menos empatados, estão Estados Unidos, Coreia e Reino Unido.
D.R.: Quais são as castas atuais da linha Marques de Casa Concha?
M.P.: Já trabalhamos com oito ou nove. Hoje estamos focados em Cabernet Sauvignon, Carmenère, Chardonnay, Merlot, Pinot Noir e Syrah.
D.R.: E ouvi dizer que há novidades…
M.P.: Sim. Agora temos também duas categorias um pouco acima: o Marques Gold e o Marques Blue. O Gold é um Cabernet Sauvignon de Maipo e Puente Alto; o Blue, um Carmenère. E ainda temos o Heritage.
D.R.: Qual a razão dessas novas linhas?
M.P.: O Marques de Casa Concha é um clássico contemporâneo, reconhecido pela sua qualidade. Pensamos que o consumidor que aprecia esse perfil gostaria de uma categoria superior, mas sem um grande salto de preço. Por isso, essas linhas custam cerca de 30% a mais.
D.R.: E o que muda entre elas?
M.P.: Principalmente a idade dos vinhedos, todos com cerca de 30 anos, e os rendimentos, que são menores.
D.R.: Vocês têm vinhos sem álcool ou com baixo teor alcoólico?
M.P.: Sim. Já lançamos uma linha do Casillero del Diablo chamada “Be Light”, que está disponível no Brasil. Temos Sauvignon Blanc, Rosé e agora também um tinto. São vinhos com menos calorias e, consequentemente, menor teor alcoólico, por volta de 8,5%. Além disso, temos um espumante zero álcool.
D.R.: Os espumantes funcionam melhor em versões sem álcool do que os vinhos tranquilos, não?
M.P.: Sim. As borbulhas têm um papel importante na percepção do produto pelo consumidor. Acreditamos que o caminho para os vinhos tranquilos seja o baixo álcool e, para os espumantes, o zero álcool.
D.R.: E vocês usam o termo “maceração” nos vinhos da linha Casillero del Diablo?
M.P.: Não. Apenas na linha Reservado, em que representa mais maciez.
D.R.: Dada a importância do mercado brasileiro para a Concha y Toro, vocês pensam em criar algo exclusivo para o Brasil?
M.P.: No momento, não, Didú. Mas é uma ideia interessante, talvez algo com um perfil mais tropical, quem sabe…
D.R.: Você está trabalhando em algum projeto novo que ainda não sabemos?
M.P.: Que boa pergunta… No momento, nosso foco está no Marques, claro, e também na linha Amelia. Estamos aprimorando ainda mais esses vinhos, com uvas de Casablanca, Leyda, Limarí, especialmente da Quebrada Seca. É nisso que queremos investir agora.
D.R.: E, para encerrar, Marcelo, quando você vai lançar um vinho seu?
M.P.: Um vinho meu?! (risos) Boa pergunta… Mas, não, por enquanto não penso nisso.
D.R.: Mas deveria! A Concha y Toro certamente deixaria você fazer isso…
M.P.: Quem sabe… Mas, por ora, não está nos meus planos.




