La Place de Bordeaux recebe hoje Almaviva 2024, uma safra precisa
Pioneiro entre os grandes vinhos de fora de Bordeaux a entrar na histórica rede de négociants, Almaviva lança mundialmente hoje sua safra 2024
Bordeaux e Chile voltam a se encontrar nesta quarta, 9 de setembro. Almaviva 2024 chega hoje ao mercado internacional pela La Place de Bordeaux, no calendário de lançamentos que movimenta o mundo do vinho durante o mês de setembro.
A relação, porém, vai muito além de colocar uma nova safra à venda. Almaviva ocupa um lugar especial nessa história. Quando vinhos de fora da região ainda eram estranhos à tradicional engrenagem comercial bordalesa, o chileno já estava por ali, ajudando a ampliar as fronteiras de um sistema que hoje distribui alguns dos rótulos mais desejados do planeta.
Para entender esse caminho é preciso voltar a 1997, quando Baron Philippe de Rothschild, proprietária do Château Mouton Rothschild, e Concha y Toro decidiram juntar dois mundos em uma mesma garrafa. De um lado estava a experiência francesa; do outro, Puente Alto, no Vale do Maipo, e sua reconhecida vocação para Cabernet Sauvignon. Assim nasceu Almaviva.
A inspiração bordalesa estava clara desde o princípio, mas copiar Bordeaux nunca foi a ideia. O projeto foi construído para encontrar uma identidade própria no Chile, encontro que aparece até no rótulo, onde um nome de origem europeia divide espaço com um símbolo inspirado na cultura mapuche.

Posicionamento determinante
No ano seguinte à criação, Almaviva começou a percorrer um caminho então pouco usual para um vinho sul americano: La Place de Bordeaux.
Apesar do nome, La Place não é uma feira, muito menos um endereço onde compradores se reúnem para negociar garrafas. É uma rede comercial formada ao longo de séculos e sustentada por três personagens principais. O produtor faz o vinho, o courtier estabelece a ponte comercial e organiza as negociações, e os négociants compram suas alocações para distribuí-las entre importadores, comerciantes e compradores em diferentes partes do mundo.
A força desse modelo está justamente na capilaridade. Em vez de uma vinícola construir, país por país, toda a estrutura necessária para colocar um vinho de produção limitada diante dos principais compradores internacionais, La Place oferece uma rede que já conhece esses caminhos.
Durante séculos, essa máquina esteve a serviço essencialmente dos châteaux bordaleses. A entrada de Almaviva ajudou a mudar o jogo. O que parecia uma exceção no final dos anos 1990 acabou se tornando uma das grandes movimentações do calendário mundial do fine wine. Hoje, setembro em Bordeaux também significa novas safras vindas do Chile, Itália, Argentina, Estados Unidos, Espanha, Austrália, África do Sul e outras origens.
É curioso pensar que um vinho nascido aos pés dos Andes viaje comercialmente até Bordeaux para, de lá, ganhar novamente o mundo. No caso de Almaviva, contudo, esse percurso parece quase natural. A conexão francesa está em sua origem e La Place tornou se parte de sua história.
O próprio projeto mantém essa dinâmica: depois do período de evolução na vinícola, as garrafas entram na rede dos négociants bordaleses, que se encarregam de fazê las chegar aos diferentes mercados internacionais.

Se a história ajuda a explicar o lançamento de hoje, o Almaviva 2024 tem assunto suficiente para assumir o protagonismo. A safra começa a ser desenhada por algo que havia se tornado raro no Chile: água em abundância. Depois de um longo período de seca, a influência do El Niño fez Puente Alto registrar 592 milímetros de precipitação no ciclo 2024, diante dos 140 milímetros registrados no período entre 2019 e 2023.
Mais importante que o número foi a distribuição. Cerca de 460 milímetros chegaram durante o inverno e o início da primavera, reabastecendo os solos. Outros 130 milímetros caíram em maio, quando as uvas já estavam fora do vinhedo.
A natureza continuou embaralhando as cartas. A primavera veio mais fria do que o habitual. Depois, janeiro, fevereiro e março ficaram entre 1,5 e 2 graus acima das médias históricas. O desenvolvimento das videiras atrasou, o envero aconteceu de duas a três semanas mais tarde e, quando abril e maio trouxeram novamente temperaturas mais baixas, a reta final da maturação ganhou tempo.
Em Puente Alto, as primeiras uvas só começaram a ser colhidas em 25 de março, duas semanas depois de 2023. A vindima se estendeu até 3 de maio. Esse vai e vem de temperaturas acabou sendo decisivo para preservar acidez e pureza de fruta.
É justamente nesse tipo de safra que o trabalho de Michel Friou ganha interesse. O francês chegou ao projeto em 2007 e tem em 2008 sua primeira safra integralmente sob sua responsabilidade. Desde então, aprofundou a leitura do vinhedo, refinando o acompanhamento das diferentes parcelas e os momentos de colheita.
A ideia não é colocar todos os anos dentro da mesma forma. Friou prefere deixar que cada temporada conte a própria história. “Temos anos frios e quentes, anos precoces e tardios”, já disse o enólogo ao falar sobre Almaviva. Para ele, essa oscilação faz parte do jogo: “É importante ter essas variações de safra em qualquer grande vinho”. A precisão no vinhedo completa o raciocínio. Com parcelas acompanhadas e colhidas de maneira mais detalhada, segundo Friou, “a pureza da fruta é mais consistente”.
Na véspera do lançamento pela La Place de Bordeaux, Horst Kissmann, editor de vinhos de Prazeres da Mesa, provou Almaviva 2024. E talvez a primeira surpresa esteja justamente na maneira como o vinho administra sua força. Há concentração, mas ela não pesa. Cassis e amora aparecem definidos, seguidos por cedro, especiarias e um toque terroso que vai surgindo aos poucos. Na boca, fruta madura e frescor parecem caminhar na mesma velocidade. Os taninos estão muito bem polidos, a textura é sedosa e uma tensão atravessa o vinho, dando ritmo ao conjunto. Há profundidade, volume e comprimento, mas nada parece excessivo. É um Almaviva que prefere precisão à exuberância.
A composição também conta parte dessa história. Cabernet Sauvignon lidera com 70%, seguido por expressivos 24% de Carménère, 4% de Cabernet Franc e 2% de Petit Verdot. O amadurecimento acontece durante 18 meses em carvalho francês, com 76% de barricas novas. A estrutura é marcada por taninos redondos e polidos, enquanto volume e tensão dividem espaço com frescor e maturidade.
Os 24% de Carménère merecem atenção. Cabernet Sauvignon pode ser a espinha dorsal e a conexão mais evidente com Bordeaux, mas é a presença generosa da variedade que se tornou emblemática no Chile que ajuda a mudar o sotaque da conversa. É ali que Almaviva deixa claro que a referência francesa é ponto de partida, não destino. Puente Alto não está apenas escrito na ficha técnica. Aparece na fruta, na textura e na personalidade do vinho.
Talvez seja essa combinação que torne o lançamento de hoje tão simbólico. Quase três décadas depois de ajudar a abrir a La Place de Bordeaux aos grandes vinhos produzidos além da Gironda, Almaviva continua fazendo o mesmo percurso. Nasce em Puente Alto, amadurece no Chile, chega comercialmente a Bordeaux e dali segue para diferentes partes do planeta. La Place oferece uma estrada construída ao longo de séculos. Almaviva 2024 chega para percorrê la com uma safra que tem história, identidade e, principalmente, muito a dizer dentro da taça.
Quatro safras, quatro retratos de Almaviva
Almaviva 2007
Uma safra de perfil mais musculoso e profundo. O corte reúne 64% Cabernet Sauvignon, 28% Carménère, 7% Cabernet Franc e 1% Petit Verdot, com 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Amora, cassis maduro e violeta aparecem ao lado de alcaçuz, café, pimenta preta, incenso e chocolate amargo. Na boca, mostra densidade, taninos maduros e sedosos e uma textura voluptuosa, seguida por final carnudo e mineral. É um vinho de grande estrutura e com vocação para longa guarda.
Almaviva 2013
Elegância e frescor dão o tom de uma das vindimas mais longas e tardias da história de Almaviva, realizada entre 2 de abril e 30 de maio. Cabernet Sauvignon domina o corte com 72%, seguido por 19% Carménère, 6% Cabernet Franc, 2% Petit Verdot e 1% Merlot, com passagem de 18 meses por barricas novas de carvalho francês. Cereja negra, cassis e violeta aparecem no nariz, acompanhados por alcaçuz e cacau. Na boca, é amplo e preciso, com boa acidez, taninos finos e sedosos e um caráter particularmente fresco e suculento.
Almaviva 2019
Uma safra de concentração sem perder o passo do frescor. O ano foi bastante seco e quente, produzindo bagas menores, carregadas de cor e sabor. O vinho leva 68% Cabernet Sauvignon, 23% Carménère, 5% Cabernet Franc, 3% Petit Verdot e 1% Merlot, com 18 meses em barricas novas de carvalho francês. Framboesa, cassis, amora e morango silvestre encontram notas de alcaçuz, café, tinta e terra. É suculento e volumoso, com taninos redondos e macios, estrutura firme e acidez que mantém o conjunto vivo e equilibrado.
EPU 2023
Mais direto e acessível, EPU 2023 funciona como uma introdução ao universo de Almaviva. O corte traz 82% Cabernet Sauvignon, 12% Carménère, 3% Merlot e 3% Cabernet Franc e passa 12 meses em carvalho francês, com 10% de barricas novas. Cassis e frutas vermelhas conduzem os aromas, seguidos por baunilha, terra e ervas finas. Na boca, é suculento e macio, com taninos suaves, boa redondeza e final longo, marcado por alcaçuz e morango maduro.



