Mendoza não é só Malbec. E Diana Fornasero sabe disso
Enóloga da Viña Cobos fala sobre solos que mudam dentro do mesmo vinhedo, explica por que a madeira deixou de querer aparecer e aposta que Chardonnay e Cabernet Sauvignon serão as próximas estrelas argentinas
Mendoza já conquistou o mundo com o Malbec. Agora começa uma fase talvez mais divertida: mostrar que não existe uma Mendoza só. Para Diana Fornasero, enóloga da Viña Cobos, parte do que torna a região tão interessante está debaixo dos pés. Em poucos metros, o solo pode mudar, as pedras aparecem, a drenagem se transforma e a mesma uva entrega outro vinho. “Em um mesmo bloco de dois hectares podemos ter diferentes tipos de solo”, conta Diana. Parece detalhe de geólogo, mas chega diretamente à taça. Ela cita Luján de Cuyo, com terrenos geralmente mais homogêneos e profundos, e o Vale de Uco, onde os solos ficam mais pedregosos. No primeiro, o Malbec pode caminhar por violetas e frutas negras. No segundo, aparecem mais textura e aquela sensação de pedra molhada que Diana associa aos vinhos da região.
A altitude entra na história, mas não como simples disputa para descobrir quem planta mais alto. À medida que os vinhedos se aproximam da pré cordilheira, os terrenos tendem a ganhar pedras e depósitos calcários, enquanto a água escoa com maior facilidade. A videira precisa aprofundar suas raízes e os cachos convivem com outra intensidade de luz. As bagas podem desenvolver cascas mais grossas, com maior carga de antocianinas e taninos. O resultado aparece na estrutura, no frescor e na textura do vinho.

É justamente aí que Diana faz uma distinção importante. Estrutura não significa necessariamente potência. Se durante muito tempo os grandes Malbecs argentinos foram associados a concentração, fruta madura, álcool e bastante madeira, a régua mudou. Na Viña Cobos, ela prefere outra palavra: precisão. “A potência não é tudo o que define o vinho. O mais importante é a elegância de cada um de seus componentes e o equilíbrio”, diz. O objetivo é conseguir beber o lugar. Um Malbec do Vale de Uco deveria trazer algo daquele território, assim como um de Luján de Cuyo deveria contar outra história. Parece óbvio, mas é uma mudança e tanto para uma categoria que durante anos vendeu ao mundo, antes de tudo, o nome da variedade.
E o que transforma um ótimo Malbec em um daqueles que ficam na memória? Para Diana, é a capacidade de mudar enquanto se bebe. Ela cita o Cobos Malbec como exemplo: a primeira taça leva ao vinhedo; depois aparecem novas camadas, violetas, chocolate e outras nuances. “É um Malbec que depois você recorda e te leva àquele lugar e ao momento em que o provou.” A madeira também entrou em uma fase menos exibida. Diana não acredita que o carvalho esteja desaparecendo dos grandes vinhos. O que mudou foi sua função. Houve uma época em que baunilha, chocolate e tostado eram quase um sinal de status e precisavam ser percebidos imediatamente. Hoje, barrica boa é muitas vezes aquela que não pede atenção para si.

O Zingaretti Estate Vineyard Malbec 2021 ajuda a entender essa Mendoza. Elaborado exclusivamente com Malbec, amadurece por 15 meses em carvalho francês, com 50% de madeira nova. Traz ameixa, mirtilo, mentol, chá preto e violetas, com taninos macios e suculentos, mineralidade e final persistente. Tem 14,9% de álcool, potencial indicado de guarda de dez anos e custa R$ 999,90.
O sobrenome no rótulo também conta um pedaço da história de Mendoza. A família Zingaretti chegou da Itália no fim do século XIX e esteve entre os pioneiros da viticultura em Tupungato. Por volta de 1914, trouxe da França as estacas que ajudaram a formar o vinhedo, hoje com algumas plantas centenárias. A Viña Cobos começou a comprar suas uvas em 2008, lançou a primeira safra ligada ao vinhedo em 2012 e adquiriu a propriedade em 2017. Fez questão, porém, de conservar o nome Zingaretti, uma homenagem à família que ajudou a escrever a história daquele pedaço do Vale de Uco.
Entre os lugares que mais têm provocado a curiosidade de Diana está Los Árboles, em Tunuyán. No vinhedo Chañares acontece algo que resume bem sua conversa sobre Mendoza: uma parte fica em Los Árboles e outra entra em Los Chacayes. Cruza se o bloco e o solo muda. Para quem faz vinho tentando entender cada parcela, é praticamente um laboratório a céu aberto. Mais curioso ainda é observar como o manejo consegue amansar taninos que, pelas características daquele terreno, poderiam ser muito secantes, deixando os vinhos mais redondos e aveludados.
E esse trabalho começa muito antes de alguém pensar em abrir uma garrafa. Para Diana, o vinho começa na tesoura de poda. É naquele corte aparentemente banal que se determina quantos brotos ficarão, quantos cachos a planta carregará e como estarão distribuídos. Na Viña Cobos existe até uma medida bastante prosaica para organizar isso: aproximadamente um punho e meio entre os cachos. A distância ajuda na circulação de ar e facilita a vindima manual, já que os cachos ficam alinhados e acessíveis aos colhedores. São decisões pequenas que, somadas, acabam dentro da taça.

O calor tornou esse cuidado ainda mais importante. Uma das armas para preservar frescor não está na adega, mas nas folhas. Diana trabalha o manejo da copa para proteger os cachos do sol mais agressivo da tarde. A amplitude térmica entre dia e noite ajuda a conservar os ácidos, mas é preciso impedir que o excesso de calor faça a planta perder rapidamente esse patrimônio. A degustação das uvas ao longo da maturação ajuda a decidir a hora de colher.
Talvez a resposta mais curiosa de Diana apareça quando a conversa pula algumas décadas. Se pudesse plantar hoje pensando em 2050, ela não escolheria Malbec. Plantaria Cabernet Sauvignon e Chardonnay. “Creio que são as próximas variedades que vêm para a vitivinicultura mendocina e da Argentina”, afirma. Não significa que o Malbec esteja perto de perder o posto de grande embaixador do país. Pelo contrário, Diana acredita que ainda existe muito a explorar com ele. Mas Cabernet Sauvignon e Chardonnay podem mostrar ao mundo uma Argentina que durante anos ficou parcialmente escondida atrás de sua uva mais famosa.

O Vinculum Chardonnay 2024 dá uma pista do que ela quer dizer. Feito com 100% Chardonnay do Vale de Uco, amadurece dez meses em carvalho francês, com somente 19% de barricas novas. Tem aromas de abacaxi e pêssego maduro, notas de tosta e especiarias, bom volume e final longo. São 14% de álcool, potencial indicado de guarda de sete anos e preço de R$ 649,90. Também é importado pela Grand Cru. Há outra curiosidade no nome. Vinculum vem do latim e significa “ligar”. A escolha faz referência à relação da Viña Cobos com os produtores de uva e à troca de conhecimento construída entre eles. E acaba funcionando bem para resumir o raciocínio de Diana Fornasero.
Solo, altitude, planta, poda, sol, momento da colheita, barrica e tempo. Nenhuma dessas coisas, isoladamente, faz um grande vinho. A graça está justamente em fazer todas conversarem sem que uma grite mais alto. Mendoza já provou que sabe fazer Malbec. O próximo capítulo parece ser descobrir quantos vinhos diferentes consegue fazer com tudo o que existe ao redor dele.
Os vinhos da Viña Cobos chegam ao Brasil pela Grand Cru.
@dianafornasero
@vina.cobos



