Menu do dia: surpresa de sensações

Por Isabel Raia
Foto: divulgação
Confesso que sempre menti quando tapavam meus olhos e perguntavam se eu estava enxergando. Fazia questão de ter uma fresta na venda ou entre os dedos de quem escurecia minha visão. Preciso saber tudo o que acontece ao meu redor, sempre. Mas, recentemente, decidi ceder e, por algumas horas apenas, permiti ser conduzida enquanto saboreava o Jantar Sensorial no Escuro.
Assim, sem trapaças, entrei na fila formada no salão principal do restaurante La Casserole, no Largo do Arouche, centro de São Paulo, e logo uma faixa preta foi amarrada ao redor da minha cabeça. “Espera, moça, ainda consigo ver aqui, por baixo do meu nariz”, disse cumprindo a promessa de sinceridade. Após os ajustes, fui orientada a segurar nos ombros do colega da frente, assim como nos tempos da escola, e fomos levados a um outro espaço.
Uma voz cochichou ao meu ouvido “esta é a sua cadeira” e ajudou a me acomodar. Fez isso com todos, enquanto barulhos do trânsito frenético da capital paulista eram reproduzidos no ambiente. A noite seria uma homenagem aos 462 anos da cidade de São Paulo, comemorados no último dia 25.

Fatos sobre a história da capital paulista eram narrados enquanto prestávamos atenção nos sons e nos movimentos do ar, provocados por quem caminhava no salão. Tateando, descobri duas taças a minha frente, a primeira era maior e estava cheia, devia ser de água, e a segunda, menor e ainda vazia, seria para o vinho.
Deveríamos comer com as mãos, até porque, além das vendas, o local era apenas iluminado por pequenas velas, o que tornava quase impossível o uso de talheres. Mas antes da entrada, uma massagem na cabeça. Perfeita!
Ouvi um líquido preenchendo um recipiente de vidro e deduzi, o vinho deve ter chegado. Bingo! E era um Chardonnay.
Logo depois, a mesma voz me avisou que a entrada havia sido servida. Tateei a mesa, o prato… e encontrei o que parecia ser a salada, regada por um molho. Mais um passeio pelo prato e, para minha surpresa, encontrei uma fritura. Senti sua forma, semelhante a uma gota, seria coxinha? Mordi e tive certeza, mas o recheio não era de frango. A cada passo, uma descoberta. Tinha a minha frente salada de agrião com melaço de cana e amendoim, acompanhada de coxinha de pato.
Para limpar as mãos, uma lavanda foi colocada ao meu lado esquerdo e o aroma do limão tomou conta do espaço. Mais umas falas sobre a cidade, estávamos rumo à avenida Paulista ao som de Augusta, Angélica e Consolação, de Tom Zé. Outra taça foi colocada, desta vez com um tinto.

O aroma da fritura não deixava negar, o prato principal estava à caminho. Antes de entrar haviam comentado sobre um conhecido que teve ravióli no prato principal e todos discutiam como seria comer macarrão com as mãos. No início, um molho quase me fez pensar que eu também estava diante de uma massa. Porém, o cheiro de fritura persistia até que encontrei algo que se parecia com um pastel,mas que logo se revela, eram as boas e velhas batatas souflée. Junto delas, pernil regado ao molho de laranja e farofa de casca de pão francês com cebola caramelizada e bacon. Uma releitura do tradicional paulistano sanduíche de pernil com fritas.
A música seguiu até a estação da Luz e passava por nós um vento junta da garoa fina, tão costumeira na cidade. A trilha sonora com batidas fortes nos fazia viajar pelos becos do centro paulista, quando um shot de cachaça chegou à mesa completando o cenário imaginário.
Sons de bandolim e violão percorriam o salão antes da sobremesa chegar. No prato, algo gelado e cremoso, lembrava sorvete, porém mais denso e que não derretia. A caixa de som anunciava “Pamonha, pamonha!” e fazia com que todos rissem. A degustação da sobremesa revelava a pegadinha, o prato era composto por doce de abóbora, bolo de coco fresco e milho – eis a referência ao quitute anunciado em altos falantes; um palitinho de chocolate e praliné de amêndoas que remetia a pé-de-moleque. O café veio na sequência. Coado e em copinho, ao invés de xícara, como nos botequins paulistas.
Um sino soou, era dada a largada para tirar as vendas. Todos riam impressionados com a disposição do espaço, até então desconhecido. “Nossa, achei que estava em uma mesa redonda!” “Pensei que a mesa estava na vertical.” “Achei que estávamos divididos em várias mesas”, eram alguns dos comentários.
A equipe do Ateliê no Escuro perguntava sobre as impressões e apresentava o chef, que revelava os pratos saboreados naquela noite.
Entre tantos comentários, um se repetia: “Quero mais”.



