Meza Bar anuncia fechamento com programação que celebra quase duas décadas de história
Os sócios Fernando Blower e Andressa Cabral encerram as atividades do gastrobar após falta de diálogo com proprietários do imóvel e insegurança jurídica

Rio de Janeiro, 2008. Não eram poucas as redes de bares que costumam apostar na seguinte fórmula certeira: chope ou cerveja + frituras como pastel de queijo e bolinho de bacalhau. Inaugurado naquele ano no Humaitá, quase em Botafogo, o Meza Bar foi concebido para se diferenciar desse modelo. “Criamos algo para o qual ainda não havia nome”, lembra Fernando Blower, sócio-fundador do endereço. “A ideia era montar um bar de drinques protagonizado pela cozinha”. Não demorou para a novidade ser classificada dessa forma: gastrobar, conceito que se difundiu Brasil afora.

Mas nesta terça (31/3), Blower e sua esposa e sócia, a chef Andressa Cabral, vão tornar público uma triste decisão: o Meza Bar finaliza as atividades no mês que vem. “Estamos encerrando a trajetória com um sentimento de dever cumprido”, diz o empresário, par de Andressa há 15 anos (ela só não participou, portanto, do comecinho do bar). A decisão, em grande medida, é fruto da falta de diálogo com os donos do imóvel, um casarão antigo com pé-direito altíssimo. O Meza Bar mantém-se no endereço, atualmente, por medida judicial — a pendenga jurídica arrasta-se desde 2011. “O imóvel necessita de uma nova reforma”, Blower explica. “Qual é o sentido de arcar com ela com essa insegurança jurídica por trás? Já mandei várias propostas para os donos, mas eles sequer respondem”.
A crise das bebidas alcoólicas adulteradas com metanol, no ano passado, também pesou na decisão — o Meza Bar sentiu o baque assim como a maioria dos bares e restaurantes que costumam vender bebidas destiladas em grandes quantidades. Na virada do ano, como se não bastasse, a tubulação do sistema de ar-condicionado foi roubada — feita de cobre, fica perto do telhado, por meio do qual os bandidos agiram. Prejuízo: R$ 50 mil. Para encurtar: a tubulação foi refeita… e roubada de novo. “Não ia refazer pela terceira vez”, diz o fundador. Em tempo: o Meza Bar está operando, atualmente, com climatizadores alugados.
Por fim, a decisão de colocar um ponto final também se deve à atual rotina dos proprietários, tomada por uma série de outras atribuições. Eles também são donos do Yayá Comidaria, no Leme, que pretendem replicar, e Blower é presidente do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), além de presidente executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR). “Por anos e anos, ficávamos direto no Meza, dando vida e alma para o bar”, conta o empresário. “Hoje isso não é mais possível”.
Despedida em grande estilo

Para o mês derradeiro, foi montada uma programação comemorativa. “Muitos negócios fecham do dia para a noite, como se alguém estivesse fugindo de alguém. Não é o caso”, diz Blower. “O Meza vai sair de cena se despedindo dos clientes e dos inúmeros casais que ajudou a formar e celebrando seus quase 18 anos de história”.
Profissionais que ajudaram a transformar o endereço em um clássico da Zona Sul serão os protagonistas das noites que ainda restam, como o bartender Laércio Zulu. Uma grande festa está marcada para o último dia, 26/04 e a programação completa será detalhada no instagram @mezabar.
Além de difundir o conceito de gastrobar, o Meza Bar teve papel relevante na propagação da coquetelaria no país — a título de curiosidade, o paulistano SubAstor, outra referência no assunto, abriu as portas no ano seguinte. Faltou falar da contribuição com a transformação de Humaitá e Botafogo em um dos polos mais descolados do Rio de Janeiro — o estabelecimento de Blower e Cabral chegou antes de inúmeros outros sucessos na vizinhança.
As obras no imóvel que antecederam a inauguração duraram nove meses. Durante esse período, Blower cansou de ser visto com descrença por amigos sempre que dava detalhes sobre o futuro negócio. “Bastava eu dizer que estava abrindo um bar de drinques por ali para me olharem com pena”, recorda. Daí a decisão de começar a dizer que seria “um bar de chope e de bolinho de bacalhau”. Manteve essa versão até a inauguração. Sucesso instantâneo, o Meza Bar passou a formar filas de duas horas já na primeira semana. “Foi assim durante anos”, recorda o fundador. Daí o apelido maldoso que o estabelecimento ganhou: “Sem Mesa Bar”.
Habituado a compartilhar ensinamentos com outros empreendedores do ramo, Blower frisa a importância dos proprietários dos imóveis e dos inquilinos estarem na mesma página. “Dentro do possível, é preciso alinhar as expectativas de um lado com o outro”, afirma. “Ninguém quer montar um bar ou um restaurante para durar só 6 meses. Por isso, antes de assinar o contrato, é importante saber quais são as expectativas e o perfil do dono do imóvel. Assim fica mais fácil prever como será o relacionamento no futuro e se, na hora do vencimento, haverá renovação ou não”.
O prazo mínimo aconselhável é de 5 anos, com ação renovatória prevista em contrato. “Para negócios mais estruturados, contratos de 10 anos podem ser uma boa alternativa, principalmente se for o caso de uma segunda unidade de uma marca forte”, recomenda o presidente do SindRio. “Não é todo proprietário que aceita, mas pode ser um bom negócio para os dois lados”. A aquisição do imóvel, acrescenta, é o caminho ideal, embora utópico para a maioria dos empreendedores. “Para empresas bem consolidadas, pode fazer todo sentido”, reflete. “Nesse caso, porém, o mais recomendado é lidar com o imóvel como se fosse um negócio à parte, mantendo, inclusive, a cobrança do aluguel. Se o bar ou o restaurante que for montado ali não der certo, é só criar outro”.
Meza Bar
Rua Capitão Salomão, 69, Humaitá, Rio de Janeiro.



