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Michel Rolland morre aos 78 anos e deixa um legado que atravessou continentes e estilos

Consultor bordalês redefiniu o vinho moderno, influenciou gerações de enólogos e teve passagem marcante pelo Brasil

Segundo informações iniciais de fontes francesas, Michel Rolland morreu na noite de 19 para 20 de março, em Bordeaux, na França, aos 78 anos. A notícia encerra a trajetória de um dos personagens mais decisivos do vinho contemporâneo. Mais do que um enólogo, Rolland foi um articulador de estilos, um nome que ajudou a traduzir o vinho para um público global em um momento em que o mercado começava a se expandir além de suas fronteiras tradicionais.

Nascido em Pomerol, no coração de Bordeaux, ele cresceu entre vinhedos e tanques de fermentação na propriedade da família, o Château Le Bon Pasteur. Formou-se em enologia na Universidade de Bordeaux nos anos 1960, período em que a ciência do vinho começava a ganhar novas ferramentas e precisão. Foi nesse ambiente que desenvolveu uma visão que combinava técnica rigorosa com um entendimento muito claro de mercado.

A virada veio nos anos 1980, quando passou a atuar como consultor internacional. Em pouco tempo, seu nome estava associado a vinícolas em mais de 20 países. Argentina, Chile, Estados Unidos, Espanha, Itália e, claro, França. Rolland se tornou presença constante em projetos que buscavam não apenas qualidade, mas também reconhecimento global.

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Seu estilo ficou conhecido e discutido. Colheitas mais tardias, maior maturação fenólica, extração controlada, uso criterioso de madeira nova. O resultado eram vinhos mais densos, com fruta madura, taninos polidos e textura sedosa. Um perfil que dialogava diretamente com críticos influentes e consumidores de mercados emergentes. Surgia ali o que muitos passaram a chamar de “rollandização”.

A expressão nunca foi consenso. Para alguns, significava precisão e consistência. Para outros, um risco de homogeneização. Rolland sempre respondeu de forma pragmática. Dizia que o vinho precisava ser fiel ao lugar, mas também precisava ser bom de beber. Para ele, não havia contradição entre identidade e prazer.

Na América do Sul, sua atuação foi determinante. Na Argentina, participou da consolidação do Malbec como vinho de projeção internacional, especialmente em regiões de altitude como o Vale de Uco. Também esteve envolvido em projetos no Chile e acompanhou de perto a evolução de produtores que buscavam elevar o padrão técnico e posicionar seus rótulos no mercado externo.

No Brasil, sua presença foi mais pontual, mas não menos relevante. Rolland atuou como consultor em projetos que buscavam aprimorar a qualidade e a consistência dos vinhos nacionais, especialmente no Sul do país. Mais do que intervenções diretas, deixou influência no pensamento de uma geração de enólogos brasileiros que passou a olhar com mais atenção para maturação, equilíbrio e construção de estilo. Em um momento em que o vinho brasileiro buscava afirmação, sua leitura ajudou a tensionar o debate entre identidade local e vocação internacional.

Ao longo da carreira, acumulou parcerias com nomes importantes do vinho mundial e participou de rótulos que hoje ocupam posições de destaque em rankings e cartas de restaurantes. Sua atuação era, ao mesmo tempo, técnica e estratégica. Rolland não apenas ajustava vinhos. Ajustava direções.

Nos últimos anos, seguiu ativo, viajando, degustando e acompanhando safras, mesmo com um calendário menos intenso. Continuava sendo ouvido como referência, especialmente em discussões sobre estilo, mercado e o papel do enólogo em um mundo cada vez mais atento à origem e à sustentabilidade.

Sua morte marca o fim de uma era que ajudou a transformar o vinho em linguagem global. Uma era em que o enólogo deixou de ser apenas intérprete do terroir para também dialogar com o consumidor. Entre aplausos e críticas, Michel Rolland ocupou esse espaço como poucos.

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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