Em novo tour, Moët & Chandon propõe gelo e hortelã na taça do champanhe
Conheça roteiro enoturístico da maison que Napoleão Bonaparte frequentava e o rótulo que ele jamais provaria
Há lugares em que a bebida parece ocupar todos os espaços. É o caso de Épernay, na região de Champagne, na França. Nesta cidade, o vinho não está apenas nas taças: está nas fachadas das grandes maisons, nas placas de trânsito, nas garrafas em maturação e na paisagem que os visitantes veem quando chegam à cidade.
Em 2015, a UNESCO reconheceu como Patrimônio Mundial a paisagem cultural formada pelas encostas, casas e caves de Champagne, incluindo a Avenue de Champagne, em Épernay, por sua relação com a produção e a comercialização do vinho. Foi nesse cenário que visitei a Moët & Chandon, uma das maisons mais tradicionais.
Em uma viagem de cerca de 1h30 de trem saindo da Gare de l'Est, em Paris, a ambientação começa, observando de longe, pelas propriedades rurais que compõem o terroir da região. Ao chegar em Épernay não é difícil localizar a longa e belíssima Avenue de Champagne, a avenida principal que reúne alguns dos nomes mais conhecidos do mundo dos vinhos de Champagne.
Sob seus casarões, existe uma verdadeira cidade subterrânea. São cerca de 110 quilômetros de caves sob a avenida. Na Moët & Chandon, são aproximadamente 28 quilômetros de galerias. A sensação é curiosa: enquanto Épernay segue sua vida na superfície, milhares de garrafas descansam debaixo dela, em corredores escuros, úmidos e silenciosos.

Patrimônio mundial
Ao descer para as caves, a temperatura cai, o barulho da cidade desaparece e o cenário muda: corredores de pedra, fileiras de garrafas, luz baixa e dourada. Ali, o termômetro se mantém estável entre 10 °C e 12 °C o ano inteiro, condição essencial para o amadurecimento lento das garrafas.
É neste momento da visita que você percebe que o Champagne é uma bebida feita de espera. A garrafa passa meses, às vezes anos, amadurecendo antes de chegar às mãos de quem vai abri-la. Pelas regras da denominação, um Champagne não safrado deve permanecer pelo menos 15 meses em cave, enquanto os safrados precisam de, no mínimo, três anos. Na prática, esse período costuma ser ainda maior. Durante esse período, acontece uma transformação que não conseguimos acompanhar a olho nu. As leveduras trabalham, o vinho evolui e o gás carbônico produzido fica retido na garrafa.
As três principais uvas da região são Chardonnay, Pinot Noir e Meunier. Duas delas são tintas. Isso pode surpreender quem pensa que a cor branca de um Champagne significa necessariamente que ele foi produzido apenas com uvas brancas. Pinot Noir e Meunier possuem cascas escuras, mas seu suco é claro. Quando o contato com as cascas é controlado, podem participar da elaboração de vinhos brancos. Chardonnay representa cerca de 31% dos vinhedos da região, Pinot Noir, 38%, e Meunier, 31%, segundo o Comité Champagne.

Assemblage é a palavra que define, em francês, a arte de montar o champanhe a partir de diferentes vinhos-base. Há decisões sobre variedade, proporções e características sensoriais. O objetivo não é simplesmente juntar vinhos, mas encontrar um equilíbrio que dê identidade à composição. Depois de conhecer as caves, vem a hora do show: a degustação no jardim, uma experiência lançada para o verão de 2026. O cenário, normalmente fechado ao público e reservado para ocasiões especiais, torna o momento ainda mais exclusivo. Andar por aquele gramado traz a sensação de poder à tona, como se você fosse membro da realeza.

E então vem um momento que provavelmente divide opiniões: provar Champagne com gelo. Para quem aprendeu que Champagne deve ser servido gelado, mas nunca com gelo dentro da taça, a proposta parece uma provocação. O rótulo servido foi o Moët & Chandon Ice Impérial por Pharrell Williams edição limitada, apresentado pela maison como um champanhe criado especialmente para ser degustado com gelo.
A ideia surgiu de um hábito observado em beach clubs de Saint-Tropez, onde, durante os dias mais quentes, alguns rótulos tradicionais eram servidos com cubos de gelo, apesar de terem sido elaborados para serem consumidos sem ele. A partir dessa experiência, a empresa desenvolveu uma composição pensada para incorporar a água do gelo à bebida sem comprometer seu equilíbrio. Conforme os cubos derretem, o champanhe se dilui gradualmente e mantém o perfil de sabor planejado.
A composição também ajuda a explicar a proposta. O Ice Impérial é um Champagne Demi-Sec, com 45 gramas de açúcar por litro, e seu assemblage é formado principalmente por Pinot Noir, seguido de Meunier e Chardonnay. Conforme os cubos derretem, a experiência se transforma aos poucos, revelando um perfil mais fresco e frutado.
Além disso, o visitante pode escolher entre diferentes guarnições, como gengibre, hortelã ou limão. No primeiro gole, ainda sem gelo, a doçura aparece de forma mais intensa. Ao adicionar os cubos e, no meu caso, a hortelã, a bebida ganhou frescor e uma companhia deliciosa para o dia de sol.
O champanhe foi harmonizado com uma tropézienne, doce tradicional francês da Riviera Francesa, feito com massa de brioche fofinha aromatizada com água de flor de laranjeira, recheio cremoso e açúcar pérola por cima.

A Moët & Chandon nasceu em 1743, fundada por Claude Moët, e sua trajetória está profundamente ligada à história da própria região e à construção do Champagne como símbolo internacional. Jean-Rémy Moët, neto do fundador e responsável pela expansão internacional da maison, teve uma conhecida relação com Napoleão Bonaparte. Segundo a própria Moët & Chandon, Napoleão visitou diversas vezes seus domínios em Épernay e concedeu a Jean-Rémy Moët a Legião de Honra, a mais alta condecoração honorífica da França. Foi criada por Bonaparte em 1802 para reconhecer pessoas por serviços ou méritos relevantes prestados à França.
O maior luxo de uma viagem gastronômica talvez seja justamente esse: voltar para casa entendendo um pouco mais sobre o que está por trás daquilo que chegou à sua mesa.

Visita às caves Moët & Chandon em Épernay, França
Tours guiados apenas com reserva prévia, seguidos de degustação. O percurso pelas caves é feito a pé. Cada experiência recebe até 19 pessoas.
Endereço: 20 avenue de Champagne, 51200 Épernay.
Horário de funcionamento: das 9h30 às 17h.
Reservas e informações: https://www.moet.com/fr-fr
Contato: [email protected] ou +33 (0)3 26 51 20 20
Por: Luíza Cardoso
@luizacardosocosta



