Notícias

Morre Carlo Petrini, fundador do Slow Food

O jornalista ajudou a sedimentar, em um mundo que via a industrialização da comida se estabelecer, a ideia de que comer é um ato político

Carlo Petrini, fundador do movimento italiano Slow Food e jornalista gastronômico, morreu na quinta-feira (21) aos 76 anos na cidade de Bra, na Itália. Ele presidiu a entidade até 2022 e revelou nos últimos anos um diagnóstico de câncer de próstata.

Petrini criou o movimento após liderar, em 1986, uma manifestação contra a inauguração de uma unidade do McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma. Durante o ato, os participantes distribuíram pratos de penne aos turistas e moradores que circulavam pelo local, em defesa da culinária tradicional italiana e dos hábitos alimentares regionais.

A iniciativa ajudou a consolidar uma filosofia que mais tarde se espalharia pelo mundo: valorizar ingredientes produzidos localmente, respeitar os ciclos naturais e aproximar produtores e consumidores por meio de uma cozinha conectada ao território — conceito hoje conhecido como “farm to table”, do campo à mesa. Na década de 1990, o Slow Food se propagou entre chefs de cozinha e produtores, em oposição à padronização dos gostos e à perda da cultura gastronômica.

Continua após o anúncio

“Petrini deu vida a um movimento global enraizado nos valores de comida boa, limpa e justa para todos, conectando comunidades, agricultores, artesãos da gastronomia, cozinheiros, ativistas e jovens em todo o mundo”, disse a organização em comunicado.

Semeador de utopias

“Bom, limpo e justo: esta é a nova revolução”, propagou. O Slow Food hoje possui duas mil comunidades em vários países, incluindo o Brasil, onde mantém uma lista chamada de Arca do Gosto, um catálogo que reúne informações sobre ingredientes ameaçados de extinção como araçá-mirim, uxi e maracujá-da-caatinga.

Carlo Petrini esteve no país por diversas vezes e tinha forte relação com cozinheiros, pesquisadores e comunidades brasileiras. Em sua última visita, em 2018, fez uma viagem ao Acre, passando por Rio Branco, para lançar o livro A Arca do Gosto no Brasil e realizou palestras sobre biodiversidade, alimentação sustentável e mudanças climáticas. Um ano antes, ele esteve no palco do Mesa Tendências, em São Paulo, evento promovido pela Prazeres da Mesa.

O jornalista também foi responsável pela criação da Università degli Studi di Scienze Gastronomiche, em Pollenzo, considerada a primeira universidade do mundo dedicada às ciências gastronômicas. Além disso, idealizou a Terra Madre, iniciativa internacional que reúne agricultores, pescadores, cozinheiros e produtores de alimentos de mais de 150 países, fortalecendo a preservação das tradições alimentares e da biodiversidade.

Mostrar mais

Paula Calçade

Jornalista movida por destinos e temperos, experimenta o mundo sem moderação. @paulacalcade

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo