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A alma portuguesa engarrafada

Carlos Cabral conta a ligação do país com os vinhos do Porto

O  vinho do Porto é a alma portuguesa em sua forma líquida.” Com esta frase que beira a poesia, Carlos Cabral, um dos maiores especialistas em vinho do Porto da atualidade, deu início a sua apresentação sobre os vinhos fortificados da Casa Ferreira, no Mesa Vinhos. Mesmo poético, Cabral não exagera. Os portugueses têm orgulho não apenas do seu vinho tão típico, como de uma personagem que ajudou a escrever a história desse vinho que ganha vida com a adição de aguardente vínica a seu líquido. Trata-se de dona Antónia Adelaide Ferreira (1811 – 1896), a dona Ferreirinha.

Por Suzana Barelli

Foto: Leandro Martins.
O expert Carlos Cabral. Foto: Leandro Martins.

A história da Casa Ferreira começa em 1751, quando o português António Bernardo Ferreira se torna um comerciante de vinho do Porto. “Ele conseguiu furar o monopólio inglês, que controlava todo o negócio de vinho do Porto na época”, diz Cabral. Dona Antónia, neta de Bernardo Ferreira, decide assumir o negócio da família ao ficar viúva aos 33 anos. E, nos 50 anos seguintes, ela construiu um verdadeiro império, ao plantar vinhas, comprar quintas, construir armazéns, investir no manejo das vinhas e no combate às doenças do vinhedo. Ao lado dos negócios, ela liderou um importante trabalho de apoio aos trabalhadores e suas famílias, ganhando o carinhoso apelido de dona Ferreirinha.

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O império de dona Antónia ficou na família até o ano de 1987, quando seus herdeiros venderam a empresa para o Grupo Sogrape, gigante hoje responsável por 30% do movimento do vinho em Portugal. Mas o nome Dona Antónia foi mantido e batiza, até hoje, alguns dos seus vinhos fortificados.

Seleção de Vinhos do Porto

A seleção de Cabral começou com o Dona Antónia Reserva Branco, Porto elaborado com pelo menos nove uvas, com destaque para a Donzelinho. “As uvas brancas eram plantadas misturadas com as tintas nos vinhedos”, diz Cabral. Nos anos 1980, os novos plantios começaram a separar as variedades brancas das tintas. Na taça, é um vinho de cor âmbar, com aromas que remetem ao cítrico, às frutas secas e às macadâmias.

Os três próximos Porto degustados são do estilo tawny. O Dona Antónia Reserva Tawny destaca-se pelas notas de frutas vermelhas muito maduras e as secas. Enquanto o Dona Antónia 10 Anos, o primeiro com indicação de idade, traz as notas de frutas vermelhas maduras, com notas de oxidação, de frutas secas e especiarias, com mais corpo e persistência. Completando a tríade, o Dona Antónia 20 Anos traz notas de frutas secas mais evidentes, mescladas com figos, especiarias, textura macia, final de boca elegante e duradouro.

O último vinho do painel foi o Ferreira Vintage 2016, agora no estilo ruby. Ainda muito jovem, este Porto se destacou pelos aromas de frutos vermelhos maduros, como ameixa, framboesa, mescladas com notas balsâmicas e de chocolate. Encorpado, complexo, revela por suas qualidades por quais razões o ano de 2016 foi declarado vintage em Portugal. O vintage é, talvez, o mais cobiçado dos Porto, dos quais a alma portuguesa tem muito orgulho.

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