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Numanthia: “alma velha e espírito jovem”

Bodega criada em 1998 expressa o estado da arte do vinho espanhol a partir de vinhedos com até 200 anos

Por: Celso Masson (@celsomasson)

Há vinhos que são feitos para beber. Outros, contam histórias. Os rótulos da Bodega Numanthia fazem parte desse segundo grupo. Apesar de ser uma empresa jovem, nascida em 1998, na região espanhola de Toro, ela evoca um passado de dois milênios. No ano 134 a.C., a antiga cidade de Numância se tornou símbolo de resistência à dominação do Império Romano, garantindo a soberania de seu território por duas décadas, em uma versão ibérica da saga de Asterix e Obelix, ainda que sem o elixir mágico dos gauleses.

Criada por dois irmãos que já possuíam vinhedos em Rioja e Ribeira del Duero e que buscavam um terroir distinto para produzir vinhos de alta gama, a vinícola foi batizada em homenagem aos numancinos por uma razão: seu nome traduz também a essência de vinhas que venceram a praga da filoxera e as agruras de um clima extremo para entregar hoje alguns dos tintos mais intensos da Espanha.

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Termanthia servido na degustação em São Paulo: arquitetura que se abre devagar

Esse é apenas um capítulo introdutório da história que a Bodega Numanthia tem para contar. A cerca de 80 quilômetros de Zamora, no noroeste espanhol, a paisagem alterna solos arenosos, pedregosos e argilosos. Ali, a variedade Tempranillo Tinta de Toro revela um caráter inconfundível. Bagos pequenos e casca espessa concentram cor, taninos e frescor natural, mesmo sob um regime climático de extremos: invernos longos e rigorosos seguidos por verões de sol inclemente. A amplitude térmica garante acidez equilibrada, conferindo ao vinho a longevidade que faz sua fama. Por dar origem a uma bebida longeva desde tempos remotos, a Tinta de Toro foi pioneira a cruzar o Atlântico no início das grandes navegações. Reza a lenda que os vinhos dessa casta foram os primeiros do mundo a viajar para as Américas, transportados nos navios da frota de Cristóvão Colombo, ainda em 1492.

Hoje, a filosofia da Numanthia parte dessa matéria-prima rara: vinhedos de idade avançada — alguns com até 200 anos — cultivados sem irrigação e de forma sustentável. Desde o ano 2020, toda a produção é certificada como orgânica. Em cerca de 150 hectares divididos em 150 parcelas, cada safra é um exercício de paciência e precisão. O time enológico elabora perto de 60 vinificações distintas em busca do equilíbrio perfeito entre potência, frescor e finesse.

Para ilustrar como isso funciona na prática, a equipe da Moët Hennessy, atual proprietária da Bodega Numanthia, trouxe para o Brasil amostras de vinhos extraídos de três parcelas: La Jara, La Manga e Argujillo. Elas foram servidas separadamente e comentadas pelo diretor-geral da vinícola, Julio Rodriguez Buren, durante um almoço em São Paulo. “Notem como uma mesma uva, da mesma safra e com vinificação idêntica, produz vinhos de características diferentes”, afirmou Buren em português fluente. “La Jara é mais frutado, La Manga um pouco mais herbáceo e Argujillo, floral. Essas qualidades se somam no blend final”. Filho de pai argentino e mãe brasileira, Buren se formou em Economia na França e assumiu a direção da Bodega Numanthia em dezembro de 2023, após ter passado por diferentes países ao longo de sua carreira na Moët Hennessy, pertencente ao conglomerado de luxo LVMH.

Julio Rodriguez Buren, diretor-geral da Bodega Numanthia

As amostras que foram servidas por aqui ainda não haviam passado por madeira, que entra em cena de forma calculada nos vinhos da bodega. O Numanthia, blend de vinhas entre 70 e 80 anos, com 15% de álcool, estagia de 18 a 20 meses em barricas francesas novas, o que adiciona camadas de especiarias, cacau e notas tostadas sem ofuscar a fruta madura. Já o Termanthia, joia rara elaborada a partir de vinhas com idades que chegam a dois séculos, passa até dois anos em carvalho francês de grão fino, resultando em um vinho monumental, de taninos sedosos e vocação para a eternidade. Uma vez engarrafado, o Numanthia descansa por três anos na adega antes de ser lançado. “No caso do Termanthia, esse período é de cinco anos”, disse o diretor da vinícola.

100 PONTOS PARKER
O resultado do trabalho meticuloso na bodega vem chamando a atenção da crítica especializada desde 2004, quando Robert Parker concedeu 100 pontos ao Termanthia, reforçando sua posição como vinho de culto, destinado a apreciadores que querem emoção em cada taça. Mais acessível, o Numanthia 2019 obteve 96 pontos de James Suckling, enquanto Jancis Robinson definiu a marca como “game-changer” na denominação Toro. Dos três rótulos da vinícola que expressa o estado da arte do vinho espanhol, apenas o Termes, de entrada, não é vendido no Brasil.
Nas palavras do diretor-geral Julio Buren, a Bodega Numanthia possui “alma velha e espírito jovem”.

Cacho da uva Tempranillo Tinta de Toro, com bagos pequenos e casca espessa

Ele se refere aos vinhedos centenários que resistiram à filoxera e à visão de uma empresa com apenas 27 anos criada para suplantar padrões e que adota uma gestão típica de startup. “O papel da Numanthia é dar credibilidade enológica e autenticidade ao portfólio, ainda que seu peso financeiro seja pequeno frente às grandes marcas do conglomerado LVMH”, disse Buren em entrevista exclusiva à Prazeres da Mesa. Ele claramente se orgulha de liderar uma equipe dinâmica, comprometida em preservar a herança da uva Tinta de Toro e entregar vinhos que “dão vida a experiências inesquecíveis”. O que é fato.

Provar um Numanthia permite mergulhar em aromas de frutas negras maduras, grafite, especiarias doces e um toque balsâmico que remete ao campo espanhol. Na boca, a estrutura é firme, mas não severa: taninos polidos sustentam a fruta suculenta, prolongando o prazer por longos segundos. Já o Termanthia é outra dimensão: camadas sucessivas de fruta, mineralidade, flores secas, chocolate amargo. Uma arquitetura que se abre devagar, como um convite à contemplação. Os preços no Brasil para o consumidor final são, em média, R$ 500 para o Numanthia (2019) e R$ 1.500 para o Termanthia (2016).

 

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