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O Carnaval Latino dos chefs

Barranquilla é uma cidade conhecida por ser um dos polos culturais da Colômbia e por sediar o segundo maior carnaval da América Latina, atrás apenas do Rio de Janeiro. E é justamente com esse clima que a cidade também promoveu a terceira edição do “Carnaval Latino” — evento gastronômico idealizado por dois chefs que não apenas representam a cozinha colombiana contemporânea mas todo o afeto que vem por trás das panelas: Álvaro Clavijo, de Bogotá, e Manuel “Mane” Mendoza, de Barranquilla.

Com formato informal e foco na diversidade da culinária latino-americana, o evento reuniu, em apenas um dia, 16 chefs de diferentes países em uma grande celebração. O encontro é fechado para convidados, mas sua repercussão tem ultrapassado fronteiras.

A edição de 2025 foi diferente das outras e de outros festivais gastronômicos do gênero, onde chefs prepara menus degustação com tempo controlado e estrutura formal. O Carnaval Latino assumiu uma abordagem mais afetiva: em vez de mesas e serviços cronometrados, eram barracas ao ar livre, onde duplas de chefs — sempre unindo dois países distintos — cozinham lado a lado e interagem diretamente com o público. Tudo isso vendo o sol se pôr, de frente para o mar.

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Ao longo da tarde e até a madrugada, os convidados circularam livremente, provando os pratos quantas vezes quiserem, conversando com os cozinheiros, escutando música alta ao vivo como em um verdadeiro carnaval, dançando, sorrindo.

Estiveram representados: Brasil, Peru, México, Equador, Argentina, Chile, Bolívia, Panamá, República Dominicana e Costa Rica, com a presença de nomes reconhecidos internacionalmente. Do Brasil, destacaram-se duas representantes com forte presença na cena contemporânea: Janaina Torres e
Tássia Magalhães.

Janaina preparou uma canjiquinha ao tucupi negro, prato com base na culinária afetiva brasileira, em parceria com o chef anfitrião Álvaro Clavijo. Já Tássia dividiu a bancada com Henry Quesada, da Costa Rica, e juntos apresentaram uma versão de niguiri com acento italiano, mesclando técnica japonesa,
ingredientes tropicais e referências mediterrâneas.

Álvaro Clavijo: do El Chato à cozinha compartilhada

Álvaro Clavijo, um dos anfitriões do evento, é hoje uma das figuras centrais da gastronomia colombiana. Seu restaurante El Chato, em Bogotá, ocupa a 3ª posição na lista “50 Best Restaurants” da América Latina, sendo reconhecido não apenas pela qualidade técnica, mas por sua profunda conexão com os ingredientes, os pequenos produtores do país e toda a comunidade gastronômica.

No El Chato, Clavijo trabalha com elementos como o chuchu (guatila) e a formiga “hormiga culona”, como parte essencial da cultura alimentar colombiana. Frutas como zapote e chontaduro também ganham destaque.

Ao mesmo tempo, Clavijo também mantém um segundo restaurante em Bogotá, o Selma, com proposta mais informal e atmosfera descontraída, porém não menos surpreendente. Pratos espetaculares como arroz frito com porco, couve-flor glaceada com pimentão defumado e tostada com tartar de carne fazem parte do cardápio, acompanhado por coquetéis criativos e trilha sonora selecionada pelo próprio chef.

Manuel Mendoza: Barranquilla como ponto de partida

Do outro lado da organização do “Carnaval Latino” está Manuel Mendoza, chef do restaurante Manuel, que se prepara para celebrar quatro anos de atividade em Barranquilla. Mendoza cresceu em meio às panelas, influenciado diretamente pela mãe — uma referência afetiva e culinária que segue presente
em seu trabalho atual.

No restaurante, instalado em uma casa ampla no bairro tradicional da cidade, Mendoza mescla o Caribe colombiano com influências libanesas, herança da comunidade sírio-libanesa que marca a cultura da região. O menu degustação de oito etapas propõe uma leitura dessa mistura: frutos do mar, grãos,
especiarias, frutas tropicais e notas aromáticas do Oriente Médio aparecem com equilíbrio.

Mendoza tem sido um agente importante na valorização da cozinha caribenha com linguagem contemporânea. No Carnaval Latino, ele reforça seu compromisso com a cidade e com a ideia de uma gastronomia que sirva de ponte entre diferentes territórios e culturas. Ao lado de chefs de toda a América
Latina, atua também como articulador de hospitalidade — recebendo, mediando e participando dos bastidores do evento.

O Carnaval Latino não tem palco principal. Nenhum chef apresenta seu restaurante ou seu menu de forma isolada. A lógica do evento é construída sobre a colaboração: duplas inesperadas, pratos pensados de forma conjunta sem competição. O formato favorece a improvisação e o intercâmbio. Os participantes mantêm contato durante o ano, compartilham insumos, testam ingredientes que recebem, indicam fornecedores uns aos outros e organizam futuras parcerias.

Em tempos em que eventos gastronômicos muitas vezes priorizam imagem e performance, o que acontece em Barranquilla segue por outro caminho. Ali, a cozinha ainda é feita com fogo, facas, frutos locais e mãos que compartilham. E talvez seja exatamente isso que torne o Carnaval Latino uma das experiências mais relevantes do continente atualmente.

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