O futuro (menos etílico) dos bares: como enfrentar a queda no consumo de destilados
Mudança nos hábitos, tarifas globais e novos comportamentos exigem criatividade e reinvenção do setor

Após anos de estabilidade, o mercado de bebidas destiladas vive um momento de retração — e isso já começa a impactar diretamente bares e restaurantes no Brasil e no mundo. Segundo o Distilled Spirits Council, as vendas de destilados nos Estados Unidos caíram 1,1% em 2024, e o cenário para 2025 aponta para um ritmo ainda mais lento de recuperação, pressionado por mudanças culturais e instabilidades comerciais globais.
Além de fatores estruturais como a alta de custos e a ameaça de tarifas sobre importações, há uma transformação de comportamento em curso: o consumo de álcool está diminuindo, especialmente entre os jovens. O fenômeno do mindful drinking (beber com mais moderação e consciência) e o avanço de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, que reduzem o apetite e o desejo por álcool, vêm acelerando essa mudança.
No Brasil, embora o setor de bares tenha se recuperado parcialmente no pós-pandemia, empresários já relatam desafios para manter o faturamento com destilados. “Os clientes estão mais seletivos. Bebem menos, mas esperam mais qualidade e experiência em cada drinque”, resume um operador paulistano que ajustou o menu para incluir opções com menor teor alcoólico e mocktails autorais.
Esse movimento é global. Bares renomados em cidades como Nova York, Londres e São Paulo vêm investindo em cartas de coquetéis sem álcool, infusões naturais e combinações criativas com vinhos, kombuchas e ingredientes fermentados — uma forma de atender ao novo perfil de consumidor sem perder sofisticação ou rentabilidade.
Estratégias para enfrentar a transição
1. Redesenhar o cardápio com propósito
Oferecer alternativas como mocktails, coquetéis low ABV (baixo teor alcoólico) e drinques à base de vinho ajuda a manter a complexidade de sabores esperada pelo cliente, reduzindo o impacto da queda no consumo de destilados caros. Menus mais sustentáveis e autorais — com insumos frescos, locais e artesanais — também elevam o valor percebido.
2. Criar uma nova proposta de valor
A experiência dentro do bar precisa ir além da bebida. Música ao vivo, ambientações temáticas, jantares harmonizados e menus degustação ajudam a reforçar o apelo emocional da visita e podem elevar o ticket médio mesmo com menor consumo alcoólico.
3. Explorar o marketing do “bem-estar”
Comunicar que o bar se preocupa com saúde, qualidade dos ingredientes e equilíbrio pode ser uma vantagem competitiva. Muitos consumidores, sobretudo da geração Z, priorizam locais que dialogam com seus valores.
4. Atuar sobre custos e margens
Com a ameaça de tarifas e flutuações nos preços de importação (como os embates tarifários entre EUA, União Europeia e Ásia), bares precisam revisar fornecedores, negociar contratos e considerar destilados nacionais ou de menor custo como alternativa a rótulos importados.
5. Reposicionar marcas e narrativas
O cliente não quer só um drinque — quer uma história. Ter uma narrativa por trás da carta de bebidas, explicar a origem dos ingredientes e usar isso para treinar a equipe pode diferenciar seu bar da concorrência.
Menos álcool, mais estratégia
A queda no consumo de destilados não precisa significar queda no faturamento. Segundo dados da IWSR (International Wines and Spirits Record), embora o volume global de bebidas alcoólicas venha caindo, o gasto médio por consumidor aumentou, refletindo uma busca por bebidas mais premium ou experiências mais completas.
Assim, a palavra de ordem para os próximos anos é adaptação. Os bares que sobreviverem à transição não serão necessariamente os maiores, mas os mais ágeis, criativos e conectados às novas demandas do mercado.



