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O homem que ajudou a construir o enoturismo chileno

Entre memórias e reflexões sobre o futuro, o enólogo José Miguel Viu revisita a trajetória que ajudou a transformar o vinho em uma experiência turística

Hoje, o Vale de Colchagua, no Chile, é reconhecido internacionalmente como um dos destinos enoturísticos mais importantes da América do Sul. No entanto, há pouco mais de três décadas, essa realidade simplesmente não existia. José Miguel Viu não apenas acompanhou o desenvolvimento do enoturismo chileno. Foi um dos protagonistas de sua construção desde os primeiros anos, quando abrir as portas de uma vinícola aos visitantes ainda parecia uma ideia distante.

Eu já havia percorrido parte do Vale de Colchagua. Vinha de uma experiência no Hotel Viña La Playa, quando continuei minha jornada até a Viu Manent, uma das vinícolas mais reconhecidas do Chile e uma das responsáveis por impulsionar o desenvolvimento do enoturismo no país.

Viu Manent

Ao chegar, paro por alguns instantes diante da entrada principal. O característico logotipo da Viu Manent dá as boas-vindas ao visitante ao lado de uma elegante loja de vinhos e de uma moderna sala de degustação. O movimento de visitantes é constante. Alguns percorrem a loja, outros se preparam para uma degustação e muitos simplesmente aproveitam a atmosfera do lugar. A cena traduz muito bem o que a Viu Manent representa hoje dentro do enoturismo chileno.

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Enquanto observo as instalações, surge José Miguel Viu. Cumprimentamo-nos cordialmente e caminhamos em direção ao restaurante. Durante o trajeto, ele me mostra alguns setores da propriedade e comenta detalhes da operação turística que recebe visitantes durante todo o ano. A caminhada é breve, mas suficiente para compreender a dimensão que o projeto alcançou.

Quando finalmente nos sentamos à mesa, a conversa já havia começado. O almoço estava apenas começando. O que viria a seguir seria uma viagem por mais de trinta anos de história, onde Califórnia, Colchagua, visitantes, carruagens e vinho acabariam se conectando em uma mesma narrativa.

Viu Manent / foto: divulgação

Uma ideia que nasceu na Califórnia

José Miguel, quando falamos de enoturismo parece que sempre existiu. Quando surgiu esse interesse?

Em 1992 fiz uma viagem com meu pai e com várias pessoas que, hoje, são grandes nomes da indústria do vinho chilena. Passamos quase um mês na Califórnia, entre Napa e Sonoma. Visitamos vinhedos, vinícolas, conversamos com enólogos, produtores e profissionais do setor. Aprendi muito sobre viticultura e enologia. Mas o que mais me impressionou não foi o vinho. Foi o enoturismo!

Todas as suas referências estavam ligadas ao universo vitivinícola chileno. O que encontrou na Califórnia, porém, era algo completamente diferente…

Nós éramos recebidos como visitantes profissionais. Entrávamos diretamente nas vinícolas, conversávamos com enólogos e gestores. Mas, ao mesmo tempo, observávamos tudo o que acontecia ao redor. As lojas, os centros de visitação, a infraestrutura, a forma como recebiam as pessoas. Aquilo era impressionante. No Chile nem sequer existia a palavra enoturismo. Voltei ao Chile completamente fascinado por aquela ideia!

Como foi o processo de reunir produtores do Vale de Colchagua para compartilhar aquilo que havia visto?

Tivemos muitas reuniões. A verdade é que várias delas foram pouco produtivas. Sonhávamos muito, conversávamos muito, mas demorávamos para transformar as ideias em ações concretas. Mas, com o tempo, a iniciativa ganhou forma. Conseguimos formar um programa de fomento apoiado pela Corfo, montamos uma equipe e começamos a trabalhar entre várias vinícolas. Éramos seis no início. Foi assim que nasceu a Rota do Vinho de Colchagua, um dos primeiros projetos organizados de enoturismo do Chile e uma iniciativa que ajudou a posicionar internacionalmente o vale.

E foi difícil convencer outras vinícolas a abrir suas portas?

Muito difícil. É preciso entender que as vinícolas eram espaços produtivos. Receber turistas era algo completamente estranho para a maioria das pessoas. Além disso, passar de uma atividade agrícola e industrial para uma atividade de serviços exigia uma mudança de mentalidade. As pessoas não estavam acostumadas. Quando aparecia um turista, muitos simplesmente desapareciam, porque não sabiam como lidar com aquela situação.

Viu Manent / foto: divulgação

Os primeiros visitantes

E como conseguiram dar esse primeiro passo?

Nós já tínhamos experiência recebendo clientes internacionais. Levávamos essas pessoas para conhecer os vinhedos, fazíamos degustações, almoços e visitas às vinícolas. Então começamos a pensar que poderíamos reproduzir algo semelhante para outro tipo de público. À medida que o projeto avançava, percebemos que o principal valor não estava apenas no vinho, mas em mostrar aquilo que fazia parte da vida cotidiana da propriedade. Era o mesmo que fazíamos quando recebíamos amigos ou clientes. Mostrávamos o campo, os vinhedos, compartilhávamos um almoço, acendíamos o forno a lenha, preparávamos empanadas, assados e cazuelas, pratos tradicionais muito presentes na vida rural chilena. Mostrávamos aquilo que realmente éramos.

Enquanto muitas vinícolas ainda buscavam entender o que poderia interessar aos visitantes, vocês descobriram que a autenticidade era justamente o maior diferencial…

Quando mostrávamos essa autenticidade chilena, as pessoas ficavam encantadas!

Hoje é difícil imaginar a vinícola sem as carruagens. Como surgiu essa história?

Foi algo totalmente espontâneo. Sempre gostei de carruagens, mas nunca tinha tido a oportunidade de estar próximo de uma. Um dia encontrei uma abandonada à beira da estrada. Estava completamente destruída. Comprei e, junto com o pedreiro que trabalhava na propriedade, começamos a recuperá-la. Não sei se restaurar é a palavra correta, mas conseguimos colocá-la novamente em funcionamento. E o que começou como uma curiosidade pessoal acabou se transformando em uma das experiências mais lembradas pelos visitantes da vinícola. Primeiro usamos com nossos clientes. Depois incorporamos às visitas.

Foi nesse período que compreenderam que o vinho poderia ser a porta de entrada para algo muito maior?

Quando começamos a pensar seriamente no enoturismo, o natural foi tentar reproduzir essa experiência para um público mais amplo. E nisso já estamos há mais de trinta anos.

Viu Manent / foto: divulgação

Um tijolo depois de outro

Olho pela janela. Os vinhedos cercam o restaurante enquanto visitantes caminham pela propriedade com absoluta naturalidade. Mas José Miguel insiste em algo que repete várias vezes durante nossa conversa: nada do que existe hoje aconteceu de uma única vez. “As pessoas veem o que existe hoje e imaginam que tudo aconteceu rapidamente. Mas a verdade é que fomos construindo aos poucos. Um tijolo, depois outro, depois outro.”

Ao contrário de muitos projetos que surgem a partir de grandes investimentos realizados em pouco tempo, a evolução da Viu Manent aconteceu de forma gradual. “Hoje temos o restaurante, o hotel, as lojas, o centro de visitantes, os eventos e diferentes experiências que foram sendo incorporadas ao longo do tempo”, explica. “Também existem os passeios pelos vinhedos, as degustações, as atividades equestres e diferentes formas de conhecer a propriedade.”

Enquanto o escuto, penso em tudo o que vivi durante minha estadia na vinícola. A hospedagem no Bivo Lodge, a gastronomia, os passeios pelos vinhedos, as degustações e as experiências disponíveis refletem exatamente essa construção gradual da qual José Miguel fala. “Mas acredito que aquilo que as pessoas reconhecem quando chegam aqui é que existe uma história. Percebe-se que as coisas não aconteceram de um dia para o outro”, reflete.

Ao longo de mais de três décadas, a Viu Manent deixou de ser apenas uma vinícola para se transformar em uma proposta integrada, em que vinho, território, tradição familiar e hospitalidade convivem de maneira harmoniosa. “Hoje somos uma proposta consolidada porque existe uma equipe consolidada, existe uma história e existe uma atmosfera especial.”

Olhando para o futuro

Depois de percorrer mais de três décadas de história, a conversa inevitavelmente chega ao presente.

José Miguel, em que momento você acredita que o enoturismo chileno se encontra hoje?

A indústria do vinho está vivendo um momento interessante. O consumo mundial de vinho passa por um período mais lento e isso está obrigando muitas vinícolas a se reinventarem. Ao longo dos últimos anos, produtores de diferentes partes do mundo passaram a enfrentar desafios semelhantes. Somos uma indústria extremamente competitiva. Sempre vão surgir novas propostas, novas experiências e novas formas de aproximar as pessoas do vinho.

Durante muitos anos, abrir as portas ao turismo não foi uma decisão simples para grande parte das vinícolas chilenas…

É preciso entender que viemos de uma atividade agrícola e industrial. Produzimos uvas, fazemos vinho e vendemos vinho. O turismo é outra coisa. Exige habilidades diferentes, disponibilidade para receber pessoas, trabalhar aos finais de semana e oferecer serviços. Hoje, no entanto, o cenário é diferente. Temos o vento soprando a favor. Mesmo as vinícolas que antes eram mais resistentes estão percebendo que o enoturismo não gera apenas receita adicional. Também ajuda a construir marca, diferenciar produtos e criar uma conexão direta com as pessoas.

O enoturismo pode se tornar tão importante quanto a produção de vinho?

Em alguns casos pode se tornar ainda mais importante. Quando uma pessoa visita uma vinícola, conhece sua história, entende a origem do produto e cria um vínculo que é muito difícil construir de outra maneira.

Depois de todos esses anos, o que mais lhe traz satisfação?

Gosto da ideia de mostrar às pessoas aquilo que fazemos aqui. Que elas conheçam não apenas os nossos vinhos, mas também o estilo de vida que envolve o mundo do vinho.

Conexão verdadeira

A conversa continua por mais alguns minutos. Do lado de fora, os visitantes seguem explorando a propriedade enquanto o serviço do almoço mantém seu ritmo habitual. Enquanto escuto José Miguel, percebo como o vinho mudou ao longo das últimas décadas. Hoje, já não se resume a uma garrafa ou a uma degustação. Trata-se de lugares, pessoas, histórias, gastronomia, hospitalidade e experiências capazes de permanecer na memória.

Talvez seja exatamente por isso que o enoturismo continue crescendo em todo o mundo. Porque conecta todos esses elementos em uma única experiência. E provavelmente essa seja uma das maiores contribuições daqueles que iniciaram esse caminho há mais de trinta anos: compreender que por trás de cada vinho existe uma história — e que compartilhá-la pode ser tão importante quanto produzir o próprio vinho.

@viumanentwinery

Por Christian Villalobos @DondeViajo @guiadelvino_org

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