O mundo à parte dos vinhos do Velho Chico
Com 70 milhões de toneladas de uvas por ano, o Vale do São Francisco se consolida como a segunda maior região produtora de vinhos no Brasil – e sua qualidade começa a ser reconhecida
Celso Masson, de Petrolina (PE)
No início de setembro, a Miolo Wine Group enviou 200 mil garrafas de espumante para a Suécia. Foi a maior exportação já realizada dessa categoria de bebidas do Brasil para o país escandinavo. O rótulo, um brut denominado Cuvée N°7, é elaborado com uvas Chenin Blanc cultivadas na Vinícola Terranova, no Vale do São Francisco. “A escolha da compra foi feita a partir de uma degustação às cegas de diversos espumantes nacionais, de diferentes regiões”, afirmou o enólogo português Miguel Vicente de Almeida, responsável pela produção de vinhos, espumantes e sucos da unidade da Miolo em Casa Nova, na Bahia.

O Cuvée N°7 conquistou a equipe de avaliadores não apenas pela qualidade sensorial, com boa cremosidade e equilíbrio de açúcar, acidez e álcool, mas também por atender critérios de sustentabilidade e competitividade, como o peso reduzido da garrafa (que diminui as emissões de CO2 no transporte) e o preço competitivo. Esse é um critério importante para o rótulo estar disponível na rede Systembolaget, estatal que controla a venda de bebidas alcoólicas no país do norte europeu e possui 448 lojas.

A escolha de um espumante feito com uvas do Vale do São Francisco reforça a vocação do terroir do semiárido brasileiro para protagonizar a expansão internacional dessa bebida. É o caso também da Renacer, vinícola que a Miolo adquiriu recentemente na Argentina e que agora engarrafa o Moscatel da linha Punto Final com uvas colhidas na Terranova – a marca do grupo que passou por um rebranding para ser referência nacional em borbulhas.
Embora o cultivo de uvas para produção de espumantes se destaque, essa não é a única característica que define a vitivinicultura nordestina. “A região vive uma nova fase, com mais players e projetos em expansão”, afirmou o gaúcho Rodrigo Fabian, diretor-executivo do Instituto do Vinho do Vale do São Francisco (Vinhovasf). “Porém, nossa vitivinicultura tropical e inovadora ainda é pouco compreendida, até mesmo por quem atua no segmento”, disse Fabian, que há mais de uma década trocou o Rio Grande do Sul por Pernambuco. “Vim em uma viagem promovida pelo curso de enologia, gostei do calor daqui e fiquei”.

Uma das muitas vantagens que a vitivinicultura tropical oferece é repetir o ciclo de produção da videira, podendo atingir até 2,5 colheitas anuais. Isso explica que um vinhedo de Cabernet Sauvignon, considerado o segundo mais antigo do Brasil em atividade, tenha fornecido 100 safras em apenas quatro décadas. Um caso único de produtividade que resulta do manejo irrigado com água do Velho Chico.
Com esse diferencial, a região permite colher uvas todos os dias do ano. Isso impacta também na velocidade dos processos de experimentação e de pesquisa de campo. Testes de introdução de varietais que levariam de três a quatro anos em outras regiões podem mostrar resultados em apenas um ano no Vale do São Francisco. Segundo estimativas do instituto Vinhovasf, as vinícolas instaladas no entorno do rio, que se estendem por diversos municípios da Bahia e de Pernambuco, processam 70 milhões de toneladas de uvas. Além de vinhos, espumantes e frisantes, boa parte vira suco de uva.

MALBEC NORDESTINO
A alta produtividade dos vinhedos, contudo, não significa uvas inferiores. Na Grande Prova Vinhos do Brasil 2025, realizada no Rio de Janeiro pelo Grupo Baco, nada menos que quatro rótulos do Nordeste elaborados com a uva Malbec conquistaram 91 pontos, recebendo assim a cobiçada medalha de ouro. São eles: Dona Elisa 2024 (Vale das Colinas), Garziera Reserva Malbec 2023, Miolo Reseva Malbec 2023 e Rio Sol Malbec 2022. “Foi uma grata surpresa. Nem sabíamos que os nossos vizinhos haviam enviado amostras de Malbec para o concurso”, disse Fabian. Uma das explicações para o êxito dessa variedade no Sertão nordestino está no manejo: em Mendoza, a água vem do degelo da Cordilheira dos Andes; no Vale do São Francisco, ela é bombeada do rio. Há ainda uma similaridade do semiárido com o clima desértico da região Argentina onde a Malbec ganhou notoriedade. Embora aos pés dos Andes a temperatura caia brutalmente à noite, os dois locais recebem alta incidência solar durante o dia, o que favorece a maturação fenólica das uvas.

O sol inclemente do Sertão, contudo, deixa sua marca. Os vinhos brancos feitos com uvas dali ganham tons alaranjados precocemente. “Estamos pesquisando técnicas de proteção solar das uvas para evitar esse fenômeno e permitir que os brancos se tornem mais longevos”, disse o enólogo da Terranova. Felizmente, isso não afeta as uvas tintas. Enquanto o sol faz muito bem à Malbec, a Syrah se beneficia de outra prática agrícola possível na região: a colheita de inverno. É no Vale do São Franciso que a Miolo obtém, em fins de agosto, as uvas para elaborar o Testardi — único dos Sete Lendários da vinícola produzido fora do Rio Grande do Sul. Um vinho de alta gama, muito estruturado e com armas que rementem ao mandacaru, planta símbolo do Sertão.
FUSÃO E EXPANSÃO
Além da exportação recorde e do reconhecimento da qualidade, o ano de 2025 traz um marco histórico para a regão: meio século de vitivinicultura contínua. A trajetória remonta a 1975, quando o gaúcho Jorge Garziera chegou ao Vale do São Francisco para uma consultoria na pioneira Fazenda Milano, que ficaria famosa pelos vinhos Botticelli, criada em 1986 e ainda hoje no mercado.
A história pessoal de Garziera se confunde com o impulso na produção de uvas e vinhos no Vale do São Francisco. Ele foi uma figura chave na emancipação do município de Lagoa Grande (PE), hoje capital do vinho no Sertão. Foi o primeiro prefeito da cidade e batalhou por incentivos para os produtores da região. “Nós conseguimos junto ao governo do estado de Pernambuco criar a Lei do Vinho, que nos desse o subsídio para os investimentos que foram feitos aqui”, disse Garziera. “Nós temos 95% do ICMS daqui como subsídio. Isso ajudou bastante.”

Duas décadas depois de formar a fazenda Garibaldina, onde reside até hoje, Garziera fundou a empresa Terroir do São Francisco, abrindo caminho para o enoturismo e a produção de sucos de uva. Em 2021, com a chegada de novos sócios, entre eles Rodrigo Fabian e Fernando Basso, foi a vez de criar o Grupo Verano Brasil — resultado da união da Terroir do São Francisco e da Vinícola Tropical. O grupo é atualmente responsável pela maior variedade de bebidas de uva no Nordeste. São mais de 300 hectares de vinhedos, 21 milhões de quilos de uvas processadas por ano e capacidade para produzir 14,3 milhões de litros entre vinhos, espumantes, frisantes, sucos e até chopp de vinho.

A marca mais próspera é a Rio Valley, que produz frisantes em lata e garrafa, incluindo zero álcool, voltados a festas populares como as de São João. Já a marca Garziera se concentra na produção de rótulos finos, alguns com selo de Indicação de Procedência do Vale do São Francisco (IP-VSF), caso do Cabernet Sauvignon, Malbec, Shiraz e Chardonnay, todos com passagem em carvalho francês e preços bastante competitivos, entre R$ 85 e R$ 110.
Em 2003, em uma decisão bastante planejada, o grupo português Global Wines – dono de vinícolas tradicionais como Cabriz, Casa de Santar e Quinta do Encontro – iniciou seus investimentos no Brasil. Na época, o consumo de vinho no país ainda era baixo e associado a datas comemorativas, mas a empresa acreditou que esse mercado iria crescer. Em vez de seguir o caminho natural de se instalar no Rio Grande do Sul, maior polo vitivinícola do Brasil, o grupo optou por se fixar no Vale do São Francisco, em Pernambuco.
A escolha se deveu às condições climáticas únicas da região: sol durante quase todo o ano, baixa incidência de intempéries e disponibilidade de água para irrigação. Isso permite que a colheita seja escalonada durante o ano inteiro — algo impossível em regiões de estações bem definidas, tanto Portugal quanto o Sul do Brasil. Nascia assim a Rio Sol, em sociedade com um dos maiores players do mercado de importação e distribuição de vinhos finos no país, a Expand. Com o tempo, a parceria se desfez, mas a Rio Sol permanece produzindo.

Hoje, a empresa soma cerca de 120 hectares de vinhedos, com mais de 20 variedades de uvas vinífera, entre elas Cabernet Sauvignon, Syrah, Touriga Nacional, Chenin Blanc e Arinto. Produz em média 2,5 milhões de garrafas por ano, sendo 60% espumantes – categoria mais consumida, especialmente no Nordeste. A vinícola prioriza o mercado interno, mas já exportou para países como China, EUA e Inglaterra.
Além de rótulos jovens e espumantes, a Rio Sol criou linhas com identidade regional, como a Bichos da Caatinga, que associa animais do sertão às uvas cultivadas. A empresa também investe em variedades pouco conhecidas no Brasil, como a Egiodola. Assim como a Malbec, ela se adaptou bem ao Vale do São Francisco — um território tão singular que seus melhores vinhos e espumantes passaram a ser protegidos pela única Indicação de Procedência de uma zona tropical no planeta. É mesmo um mundo à parte no universo do vinho.



