O que falta para o Rio de Janeiro ser considerado uma capital da gastronomia?
Primeira edição do Fórum de Líderes na Gastronomia (FOLGA), promovido pelo SindRio, pretende encontrar respostas para a pergunta

Por Daniel Salles
A advogada Mariana Rezende empreende no setor de bares e restaurantes desde 2009. Naquele ano, em parceria com a mãe, Valéria Rezende, que faleceu em 2018, montou a primeira unidade do Bar da Frente. Fica na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, e ocupa o imóvel que antes era do Aconchego Carioca, da chef Kátia Barbosa. Esta, ao transferir seu tradicional restaurante para uma construção mais espaçosa, na mesma rua, convenceu Mariana e Valéria a assumirem o antigo ponto. Tá explicado o nome do bar criado pelas duas, conhecidas de longa data da chef — Valéria chegou a gerenciar um dos endereços de Barbosa. “Fomos praticamente coagidas a montar o Bar da Frente”, brinca Mariana. “Herdamos um ponto com muita história: foi onde a Kátia criou seu aclamado bolinho de feijoada”.
Em março, o Bar da Frente ganhou uma filial em Copacabana — fica na Rua Almirante Gonçalves, a poucos passos da Avenida Atlântica. Na nova unidade, Mariana começou a atender um volume expressivo de turistas, que raramente dão as caras na matriz. Com isso, passou a refletir sobre a imagem que essa turma tem a respeito da gastronomia do Rio de Janeiro. “Quem viaja para Buenos Aires, Lima ou São Paulo, tidas como capitais gastronômicas, costuma desembarcar já com uma lista de bares e restaurantes a serem visitados”, sustenta Mariana. “No Rio de Janeiro não é assim. A maioria das pessoas chega só pensando nos atrativos naturais da cidade e muitas vezes acaba, por causa disso, nas mãos de bares e restaurantes ‘pega-turista’, que depõem contra a boa gastronomia carioca”.



Se o Rio de Janeiro ganhasse o status de capital da gastronomia, acredita a empresária, empreendimentos comprometidos com o bom atendimento e em oferecer comida e bebida de qualidade estariam mais nos holofotes. Os endereços que não dão muita bola para a qualidade, por outro lado, e que só estão de olho no bolso dos turistas, teriam cada vez menos força, de acordo com a visão da dona do Bar da Frente. “Com um status desse, o ‘sarrafo’ subiria para todo mundo”, acredita ela. “O setor, de modo geral, se veria obrigado a apostar cada vez mais em qualidade porque a expectativa dos visitantes em relação aos bares e restaurantes cariocas seria outra. Talento para cozinhar e boa receptividade não faltam na cidade. O que falta, de modo geral, é cuidado com o padrão de atendimento e com o que é servido”.
O que falta para o Rio de Janeiro ser considerado uma capital da gastronomia? Um dos paineis da primeira edição do Fórum de Líderes na Gastronomia (FOLGA), no dia 10 de junho, pretende encontrar respostas para a pergunta. O assunto será debatido por Mariana Rezende; Antonio Saraiva Filho, que comanda a churrascaria Palace; e Cassiano Vitorino, gerente de comunicação do hotel Copacabana Palace. A mediação ficará a cargo de Ronaldo Porto, head de marketing do Visit Rio.
Promovido pelo sindicato de bares e restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), o FOLGA substitui o SindNews, cuja 5ª edição ocorreu em setembro do ano passado no EXC Rio, no Jockey Club Brasileiro. Na Marina da Glória, o novo evento do SindRio tem a expectativa de reunir mais de 600 gestores do setor de bares e restaurantes (quase o dobro do público do SindNews). Serão dois palcos. O maior, reservado para palestras e painéis, terá plateia com capacidade para 350 pessoas. O menor, destinado a bate papos sobre o dia a dia da gestã, reunirá cerca de 40 visitantes. A primeira edição do FOLGA vai começar às 9h e terminar às 19h30. Para associados do SindRio, o evento é gratuito. Para não associados, o ingresso custa R$ 389 (faça sua inscrição e confira a programação completa em sindrio.com.br).
A entrada em cena do Fórum de Líderes na Gastronomia, em substituição ao SindNews, espelha as expectativas do SindRio em relação ao crescimento do setor de bares e restaurantes na cidade. “Apostamos que o segmento ganhará cada vez mais força no Rio de Janeiro”, diz Fernando Blower, que preside o SindRio. “Boa gastronomia a cidade já tem e estamos certos de que os gestores desse ramo estão interessados em se desenvolver muito mais, o que fará com que os resultados de seus negócios melhorem”.



Além de instruir, o evento tem o propósito de descontrair. Não à toa, o slogan do FOLGA é esse: uma pausa na rotina e um play no crescimento. “A rotina dos gestores de bares e restaurantes é muito intensa”, lembra Blower. “Nos dias de folga, geralmente, eles conseguem se dedicar à própria família e olhe lá. Achar tempo nas horas vagas para networking ou para a aquisição de conhecimento é muito difícil. Com o Fórum de Líderes na Gastronomia, queremos reforçar a importância disso tudo”.
O fato de que o Latin America’s 50 Best Restaurants escolheu o Rio de Janeiro como palco de sua festa de premiação nos últimos dois anos indica que muitos chefs renomados, além de jornalistas especializados nesse universo, têm a gastronomia da cidade em altíssima conta. A retomada do guia Michelin RJ-SP, no ano passado, sinaliza a mesma coisa.
“A gastronomia ajuda a trazer mais turistas e a potencializar a qualidade do turismo no Rio de Janeiro”, afirma Antonio Saraiva Filho, neto de um dos fundadores da churrascaria Palace e à frente do estabelecimento desde 2011. “A cidade ainda está longe de ser tão procurada pelos estrangeiros como Paris ou Nova York e isso se deve, principalmente, a falhas de comunicação. Em matéria de alta gastronomia, o Rio de Janeiro está muito bem servido e nossos botequins, que espelham o estilo de vida carioca, são uma atração à parte. Mas pouca gente sabe disso mundo afora”.



