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O whisky encontra novos caminhos

Entre balcões autorais, clássicos revisitados e a força da coquetelaria, o destilado vive uma fase de expansão que aproxima tradição, gastronomia e cultura de bar

Existe algo curioso acontecendo com o whisky nos últimos anos. Durante décadas, ele carregou uma espécie de aura quase ritualística, associada a poltronas de couro, charutos, taças pesadas e longas conversas noturnas. O single malt, principalmente, parecia ocupar um território de reverência absoluta, como se qualquer tentativa de misturá-lo representasse um pequeno sacrilégio etílico. Só que o mundo dos bares mudou. O público mudou. E o whisky, curiosamente, ficou ainda mais interessante quando começou a circular com liberdade por novos territórios.

Celebrado globalmente no terceiro sábado de maio, o Dia Mundial do Whisky ajuda justamente a observar essa transformação. O destilado escocês que durante décadas viveu quase exclusivamente da tradição agora ganha novas leituras dentro da alta coquetelaria, da gastronomia contemporânea e até das experiências imersivas de bares temáticos. Não se trata de abandonar a herança clássica. Pelo contrário. O movimento atual parece muito mais ligado à ampliação de repertório do que à ruptura.

Segundo a IWSR, o mercado global de destilados premium segue impulsionado pela busca crescente por experiências, novas narrativas de consumo e exploração sensorial. Ao mesmo tempo, a categoria ready to drink, que inclui coquetéis prontos e bebidas híbridas, pode ultrapassar US$ 40 bilhões até 2027, mostrando como o consumidor contemporâneo passou a circular entre diferentes formatos sem o antigo apego às regras rígidas do passado.

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Reputação mundial

The Macallan / Divulgação

Nesse cenário, marcas históricas como The Macallan observam a coquetelaria não como ameaça, mas como expansão natural de possibilidades. Fundada em 1824 nas Highlands escocesas por Alexander Reid, a destilaria construiu reputação mundial apoiada em barricas excepcionais de carvalho sazoadas com jerez, maturação minuciosa e uma obsessão quase artesanal pela qualidade. Hoje, ao completar dois séculos de história, segue dialogando com novas gerações sem abrir mão da profundidade que transformou seus rótulos em referência global.

“Estamos vendo uma evolução natural na forma como as pessoas se relacionam com o whisky. A mixologia contemporânea não busca substituir a tradição, mas expandi-la, criando novas formas de apreciar sua complexidade”, afirma Gianpaolo Morselli, brand ambassador da marca no Brasil.

Esse novo momento aparece de maneira bastante evidente dentro dos bares brasileiros. Em São Paulo, o whisky começa a ocupar um espaço mais versátil, transitando entre receitas clássicas reinterpretadas, drinques autorais e experiências gastronômicas mais amplas. A cidade vive uma fase especialmente interessante para a cultura de balcão, impulsionada por bartenders que tratam técnica, hospitalidade e repertório líquido quase como extensão da cozinha.

Taverna Medieval / IRISH COFFEE / Foto: RaphaelcCriscruolo

Releituras e combinações

É exatamente esse espírito que aparece no Taverna Medieval, na Vila Mariana. A casa, conhecida pela atmosfera inspirada em tavernas europeias e pelo serviço performático, aproveita o Dia do Whisky para apresentar uma releitura do Irish Coffee, combinação que atravessa décadas sem perder charme. A versão da casa leva whisky irlandês, Nescafé Leggero, açúcar e espuma de creme de leite, reforçando o perfil acolhedor que costuma ganhar força nos meses frios.

O Irish Coffee, aliás, nasceu nos anos 1940 na Irlanda, criado para aquecer passageiros de voos transatlânticos que desembarcavam em Foynes, antiga base aérea próxima de Limerick. A mistura de café quente, whisky e creme rapidamente atravessou fronteiras e acabou se transformando num dos mais conhecidos drinks do mundo, especialmente durante o inverno europeu.

Des Cucina / Drink Side Car / Foto Gladstone Campos

Em Perdizes, o recém-renovado Des Cucina também embarca nessa fase de aproximação entre gastronomia e coquetelaria. O restaurante de cozinha italiana contemporânea acaba de inaugurar um novo balcão integrado aos ambientes reformulados da casa e aposta numa carta assinada pelo bartender Isvaldo em parceria com o mixologista Marcelo Serrano.

Entre os destaques aparece o Brulê Side Car, combinação de brandy, triple sec, limão e um delicado toque de crème brûlée que mostra como clássicos históricos seguem ganhando novas leituras sem perder elegância. O drink traduz bem uma tendência crescente da coquetelaria atual: receitas menos carregadas de açúcar, mais equilibradas e com inspiração evidente na confeitaria e na gastronomia.

Novos públicos

O whisky também encontrou espaço importante nos bares de perfil mais tradicional, onde clássicos seguem fortes, mas recebem pequenas inflexões contemporâneas. No movimentado balcão do Bar Desembargador, o bartender Clayton Azevedo sugere o Mark Twain para celebrar a data. A receita parte da estrutura do Fitzgerald, mas substitui o gin por Scotch whisky, criando um resultado mais estruturado, cítrico e adaptado ao clima de outono paulistano.

Essa aproximação entre whisky e coquetelaria contemporânea ajuda também a desmontar antigos preconceitos sobre consumo. Hoje, especialistas observam um público mais disposto a experimentar destilados de maneiras menos engessadas, inclusive em harmonizações gastronômicas. O movimento aparece tanto em bares autorais quanto em espaços de hospitalidade mais sofisticados.

No Caruso Lounge, essa relação ganha contornos ainda mais amplos. Thamy Laiz, que também atua como Cigar & Wine Sommelière, observa que o whisky vive um momento especialmente interessante justamente por sua capacidade de dialogar com diferentes universos sensoriais. Segundo ela, charutos, vinhos fortificados, chocolates amargos e cafés especiais passaram a criar novas pontes de harmonização com single malts e blends mais estruturados.

Entre as curiosidades que costuma compartilhar com clientes da casa está a influência do formato do copo na experiência aromática do whisky. Taças mais fechadas ajudam a concentrar notas voláteis e ampliam a percepção de nuances defumadas, amadeiradas e especiadas. Outra recomendação frequente envolve o gelo. Cubos maiores derretem mais lentamente e preservam melhor a estrutura do destilado, evitando diluição excessiva.

Força atual

Johnnie Walker / Foto: divulgação

Outro nome que costuma defender essa leitura mais gastronômica do whisky é Johnnie Walker, marca que há anos investe globalmente na aproximação entre bartenders, chefs e experiências imersivas. Não por acaso, boa parte dos grandes bares contemporâneos passou a enxergar blends e single malts menos como produtos intocáveis e mais como ingredientes capazes de oferecer profundidade aromática para receitas sofisticadas.

Existe ainda uma dimensão histórica fascinante por trás dessa expansão contemporânea. O whisky já atravessou períodos de proibição, crises econômicas, guerras e mudanças radicais de comportamento. Sobreviveu porque soube preservar identidade ao mesmo tempo em que absorvia novos hábitos de consumo. Talvez seja justamente isso que explique sua permanência cultural ao longo de tantos séculos.

Hoje, ao circular entre bares temáticos, restaurantes italianos contemporâneos, balcões clássicos paulistanos e lounges sofisticados, o whisky parece menos preocupado em ocupar um pedestal e mais interessado em continuar relevante. E talvez esteja justamente aí sua maior força atual.

Receita

Mark Twain, do Bar Desembargador

50 ml de Scotch whisky
25 ml de suco de limão siciliano
15 ml de xarope de açúcar
2 dashes de Angostura bitters

Adicione todos os ingredientes na coqueteleira com gelo. Bata bem até gelar. Coe para um copo baixo com gelo e finalize com zest de limão siciliano.

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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