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Opus One, o ícone que há quase meio século une Napa e Bordeaux

Nascido do encontro entre Robert Mondavi e Philippe de Rothschild, o tinto de Napa Valley transformou uma parceria improvável em um vinho com personalidade própria

Opus One nasceu de uma ideia que, no fim dos anos 1970, tinha algo de ousadia e algo de provocação. De um lado estava Robert Mondavi, empenhado em mostrar ao mundo que Napa Valley podia jogar na primeira divisão dos grandes vinhos. Do outro, Philippe de Rothschild, então à frente do Château Mouton Rothschild e herdeiro de uma tradição bordalesa que dispensava apresentações. Quando os dois decidiram fazer um vinho juntos, não estavam apenas juntando sobrenomes famosos. Colocavam na mesma mesa dois mundos que, naquele momento, ainda se olhavam de longe.

A primeira safra veio em 1979 e mostrou que a graça daquela parceria não estaria em fazer Napa imitar Bordeaux. A ambição era outra: aproveitar a maturação e a energia da Califórnia sem abrir mão da precisão, da estrutura e da capacidade de envelhecimento que faziam parte do repertório francês.

Laurent Delassus, Diretor de Marketing da Opus One / Foto: Horst Kissmann
Laurent Delassus, Diretor de Marketing da Opus One / Foto: Horst Kissmann

O endereço escolhido também não poderia ser qualquer um. Opus One fica em Oakville, no coração de Napa Valley, e trabalha com vinhedos próprios, incluindo parcelas ligadas ao histórico To Kalon Vineyard. A Cabernet Sauvignon conduz a conversa, mas nunca está sozinha. Cabernet Franc, Merlot, Petit Verdot e Malbec completam o corte em proporções que mudam conforme a safra. É uma diferença importante. Opus One não é simplesmente um Cabernet Sauvignon luxuoso de Napa, mas um blend construído parcela por parcela e lote por lote.

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Na adega, essa lógica fica ainda mais clara. As uvas são colhidas à mão, selecionadas e vinificadas em pequenos lotes, preservando diferenças entre parcelas e momentos de maturação. Em vez de tentar encaixar todas as safras na mesma fotografia, a equipe trabalha com o que o ano oferece. É daí que sai o corte final. Em 2022, por exemplo, a Cabernet Sauvignon representa 80% do vinho, acompanhada por Petit Verdot, Cabernet Franc, Merlot e uma pequena presença de Malbec. A receita muda, a assinatura permanece.

Opus One / Foto: Horst Kissmann
Opus One / Foto: Horst Kissmann

Laurent Delassus, Diretor de Marketing da Opus One, resume bem essa ideia: “Não tentamos fazer o mesmo Opus One todos os anos. Existe uma estrutura que procuramos respeitar, mas queremos preservar o frescor e a elegância.”

Talvez esteja justamente aí uma das chaves para entender o vinho. Napa entrega sol, maturação e generosidade quase naturalmente. O trabalho, portanto, não está em buscar potência a qualquer custo, mas em administrar tudo o que a região oferece. Colher no momento certo, preservar acidez, controlar extração e encontrar taninos que sustentem o vinho sem endurecê lo fazem parte dessa equação. A exuberância existe, mas não precisa entrar na sala antes de todo mundo.

O tempo também participa da receita. Depois da fermentação, o vinho amadurece em barricas novas de carvalho francês por cerca de um ano e meio. A madeira tem presença importante, os taninos se acomodam, as diferentes parcelas começam a conversar e aquela coleção de componentes individuais vai ganhando unidade. Depois do engarrafamento, Opus One ainda descansa antes de ser lançado.

Essa construção explica por que reduzi lo à ideia de um Napa Cabernet exuberante deixa muita coisa de fora. Há fruta madura e concentração, evidentemente, mas o vinho procura tensão, textura e longevidade. Quando jovem, mostra a energia da fruta e a estrutura dos taninos. Com os anos, aparecem camadas de grafite, tabaco, cacau, especiarias e notas terrosas. É quando aquela velha conversa entre Califórnia e Bordeaux reaparece no copo.

Linha Opus One / Foto: Horst Kissmann
Linha Opus One / Foto: Horst Kissmann

A prova de quatro vinhos, todos importados para o Brasil pela Mistral e com longa vida pela frente, mostra como duas safras próximas podem seguir caminhos diferentes sem perder a identidade da casa. No Overture 2021, primeiro Overture lançado com indicação de safra, o corte reúne 89% Cabernet Sauvignon, 4% Cabernet Franc, 4% Petit Verdot e 3% Merlot. É um vinho especialmente macio, com uma nota balsâmica intensa, além de ameixa, cereja dando lugar e uma gostosa nota terrosa. Na boca, os taninos elegantes e acidez bem integrada deixam o conjunto suculento e muito fácil de beber. R$ 3.135.

O Overture 2022 muda de registro. A Cabernet Sauvignon chega a 94%, acompanhada por Cabernet Franc, Merlot, Malbec e Petit Verdot. Cereja fresca, violetas, amêndoa tostada e anis formam um perfil mais perfumado, enquanto a boca combina frutas silvestres e uma acidez mais intensa. Tem um lado mais vivo que o 2021 – intenso em tudo – e termina redondo, com lembranças de chá preto. R$ 3.449.

O Opus One 2021 é o mais impressionante quando se pensa na relação entre concentração e leveza. Elegante  com taninos extremamente finos, notas florais, especiarias, grafite e ervas secas, além de cranberry, framboesa e romã. O corte leva 93% Cabernet Sauvignon, 4% Cabernet Franc, 2% Petit Verdot e pequenas parcelas de Merlot e Malbec. Tem profundidade, mas passa pela boca sem peso. R$ 6.209.

O Opus One 2022 mostra outra face. Aqui a Cabernet Sauvignon representa 80% do corte, seguida por Petit Verdot, Cabernet Franc, Merlot e Malbec. A safra traz um curioso contraste entre a maturidade da fruta e notas de oliva, rosas, charuto e grafite. Na boca, cacau e casca de laranja entram no meio da fruta, enquanto o final puxa para pedra molhada, baunilha e café. Os taninos finos seguram o conjunto e o frescor chama atenção para um vinho nascido em um ano de calor particularmente desafiador. R$ 6.893.

Provados lado a lado, 2021 e 2022 ajudam a entender melhor a frase de Delassus. Não existe esforço para fazer uma safra repetir a anterior. O que permanece é uma espécie de fio condutor: fruta madura sem doçura excessiva, taninos muito trabalhados, frescor e uma elegância que parece ser justamente a parte francesa dessa história. Overture oferece uma porta de entrada para esse universo, enquanto Opus One leva a mesma ideia a outro grau de profundidade e longevidade.

Mais de quatro décadas depois, talvez o maior mérito de Opus One seja não precisar mais escolher entre Califórnia e França. Bordeaux forneceu parte da gramática. Napa entrou com sotaque, clima e personalidade. O tempo fez o restante. Opus One nasceu do encontro de dois homens, mas amadureceu quando deixou de parecer a soma dos dois. Hoje, é simplesmente Opus One.

Por que Opus One?

O nome também conta parte dessa história. “Opus” vem do latim e ganhou uso especialmente no universo da música para designar a obra de um compositor. A escolha funcionava como uma boa metáfora para Mondavi e Rothschild: duas personalidades criando juntas uma única obra. Antes de chegar ao nome definitivo, o vinho chegou a ser chamado de NapaMedoc, numa referência bastante direta a Napa Valley e ao Médoc. Opus One, porém, tinha outra força. Em vez de apontar para um lugar específico, ajudava a criar uma identidade própria para aquele encontro entre Califórnia e Bordeaux.

@opusonewinery
@mistralvinhos

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