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Os pilares do Omakase

Mesmo em alta nas redes sociais e em restaurantes caros, muitos desconhecem o valor e a história desse serviço

O termo Omakase お任せ virou moda. Entrou nas redes sociais, nos vídeos curtos, nos restaurantes de luxo, nas listas de espera e nas conversas de quem quer mostrar que “viveu uma experiência”. No Brasil, muita gente passou a associar Omakase diretamente com status, sofisticação, exclusividade e alto valor financeiro. Casas especializadas surgem em diversas cidades e, muitas vezes, a fila de espera se torna quase tão importante quanto a própria refeição. Há clientes que se gabam por conseguir uma reserva três meses antes para degustar pratos que nem sabem o que será servido. Mas talvez aí comece a maior ironia do Omakase moderno: as pessoas conhecem o preço, mas não conhecem o peso desse serviço.

1. Confiança

O princípio do Omakase no Japão nasceu da relação entre o comensal e o cozinheiro. Não surgiu como espetáculo, muito menos como desfile de ingredientes caros. Nasceu da confiança. A própria palavra vem do verbo japonês “makaseru 任せる”, que significa confiar, deixar nas mãos de alguém, entregar a responsabilidade. Quando um cliente diz “Omakase”, ele está dizendo silenciosamente: “Confio em você.” E isso muda absolutamente tudo.

Eu mesmo, em restaurantes que frequento bastante, nem olho mais o cardápio — que hoje virou aquele festival de QR Code que odeio profundamente. Então simplesmente digo ao Itamae 板前: “Vai soltando algumas coisas do meu gosto. Hoje, estou com fome.” Ou seja: “Deixei por sua conta.” E a partir desse momento começa um verdadeiro tormento silencioso para a equipe. Primeiro precisam lembrar do que sou alérgico. Depois vem a parte mais difícil: lembrar do que gosto, do que odeio, da quantidade que me agrada, se naquele dia quero algo mais leve ou mais pesado, quando vou querer arroz, se prefiro peixe mais gorduroso ou mais magro, se vou beber sake, se gosto de sobremesa ou não.

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2. Leitura humana

Parece fácil montar um menu Omakase. Muita gente acha que basta colocar ingredientes caros, ouriço, caviar, Bluefin, wagyu e pronto: está criado o “luxo japonês”. Muito pelo contrário. Eu mesmo não consigo comer TORÔ, a parte mais gordurosa do atum. Acho pesado demais. Prefiro AKAMI 赤身, a parte magra do peixe, que para mim possui muito mais sabor e personalidade. Inclusive prefiro muitos atuns nacionais do que Bluefins importados. Ou seja, eu mesmo seria um problema para muitos Itamaes. E é exatamente aí que mora a essência do Omakase. O verdadeiro conceito desse serviço não está no ingrediente mais caro da casa. Está na leitura humana.

Por isso, a maioria dos Omakases tradicionais acontece no balcão. O balcão não existe apenas porque “fica bonito”. Ele foi criado para aproximar cliente e cozinheiro. Ali todos ficam sob o olhar do Itamae principal, que precisa conduzir a experiência inteira como um verdadeiro maestro de orquestra. Ele percebe se o casal quer silêncio, se o cliente sozinho precisa de mais atenção, quem quer conversar, quem quer apenas contemplar, quem já bebeu demais, quem está tímido, desconfortável ou apenas querendo impressionar alguém. E os clientes mais inconvenientes precisam ser contidos com elegância, sem destruir a atmosfera do balcão. Porque um grande Omakase não serve apenas comida. Ele conduz emoções.

3. Tempo

Com técnica, postura e profundo conhecimento do Washoku 和食 — porque se alguém oferece Omakase e não sabe nem o que é Washoku, talvez seja melhor mudar de profissão — o Itamae precisa trabalhar pilares invisíveis que sustentam toda a experiência. SHINRAI 信頼 é a confiança propriamente dita. O cliente abre mão do controle e entrega ao cozinheiro a responsabilidade de surpreendê-lo dentro do seu próprio gosto. MA 間 é o espaço, o intervalo, o ritmo. Cada cliente possui um tempo diferente. Alguns gostam de contemplar o prato, sentir o aroma, tirar foto, conversar sobre o ingrediente. Outros preferem apenas comer e seguir o fluxo. Hoje parece existir uma obsessão por velocidade em muitos balcões, como se o cliente precisasse se adaptar ao ritmo da casa. Mas um verdadeiro Omakase funciona ao contrário: o cozinheiro precisa ler o tempo do cliente. Porque experiência não é corrida.

4. KÛKAN 空間

É a atmosfera. O ambiente também cozinha. A iluminação, o cheiro, o silêncio, a distância entre os clientes, a organização do balcão e o comportamento da equipe comunicam o DNA da casa. Existem restaurantes que exageram tanto na decoração japonesa que parecem parques temáticos. Outros trabalham no extremo oposto: balcão limpo, madeira, utensílios mínimos e apenas o prato recebendo destaque.

5. OMOTENASHI おもてなし

Costuma ser traduzido como “hospitalidade”, mas é muito mais profundo do que isso. É antecipar o bem-estar do cliente antes mesmo que ele perceba sua necessidade. Diminuir o ritmo porque alguém está cansando. Perceber desconforto sem fazer a pessoa passar vergonha. Tudo isso sem esperar reconhecimento em troca.

6. ISHI 意志

Significa a intenção. Todo Omakase possui uma narrativa silenciosa. Nada deveria entrar aleatoriamente no balcão. O Itamae constrói um caminho sensorial, escolhe a ordem dos peixes, a progressão da gordura, a temperatura dos pratos, o momento do arroz, do caldo, do sake e até do encerramento. O cliente percorre essa estrada sem perceber.

7. CHINMOKU 沈黙

É o silêncio. E talvez esse seja um dos conceitos mais difíceis do mundo moderno. Hoje ninguém suporta silêncio. Tudo precisa virar vídeo, comentário, gravação e performance e não tem o menor problema. Agora perguntou se o cliente ao lado deseja participar? O silêncio também faz parte da experiência. Porque é nele que o corpo percebe textura, aroma, temperatura e presença. É assim que o ele escuta o corte da faca, o arroz sendo moldado e o leve toque da louça no balcão.

Levando todos esses pilares em consideração, o Itamae traduz tudo em cada detalhe do serviço: na escolha da louça, no empratamento, na quantidade servida, na temperatura do shari e, principalmente, na história que carrega cada ingrediente. Por isso, um verdadeiro Omakase nunca foi apenas comida. É confiança, leitura humana, tradição, responsabilidade, silêncio e presença. E talvez seja exatamente por isso que tanta gente se emociona num grande balcão sem nem conseguir explicar o motivo. Porque durante algumas horas alguém decidiu cuidar de você por meio da própria arte.

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Alexandre Tatsuya Iida

É Embaixador do Sake e Embaixador da Boa Vontade para a Difusão da Culinária Japonesa nomeado pelo Governo do Japão.

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