Os segredos do espumante laranja
Conheça os bastidores da criação do Chandon Garden Spritz
Por Celso Masson, de Mendoza, Argentina
@celsomasson
Há quase um século, quando a França definiu o território e as regras para a produção de Champagne, involuntariamente criou um mundo de possibilidades. A maior prova disso é a trajetória da marca Chandon, hoje com unidades em seis países de quatro continentes. A Appellation d'Origine Contrôlée de Champagne, lançada em 1927 e reconhecida em 1936, estabeleceu normas para o cultivo de uvas e para a elaboração de espumantes que culminariam no slogan “Só é Champagne se for da Champagne”. A ideia era proteger o terroir e seus viticultores. Porém, essa foi a senha para que visionários como Robert-Jean de Vogüé entendessem que a capacidade de engarrafar rótulos na região seria insuficiente para saciar o desejo global de beber vinhos borbulhantes.

Foi assim que a Chandon chegou à Argentina, no final da década de 1950, fincando sua bandeira no então desértico Alto Agrelo, região de Luján de Cuyo, em Mendoza, aos pés da Cordilheira dos Andes. Com o aval de Frederic Chandon, a primeira unidade da marca fora da França abriu as portas na Argentina, em 1959. “Essa história continuou com outra geração de pioneiros, em 1973, no Brasil e na Califórnia; uma terceira geração, em 1986, na Austrália; até a mais recente, em 2013 e 2014, na China e na Índia”, afirmou a diretora de cultura global Morgane Pont-Bruyns. “Hoje a Chandon é a maior marca mundial na produção de espumantes premium, com mais de 1400 hectares de vinhedos próprios e uma comunidade de 800 pessoas que trabalham para marca”.

Exportar o conhecimento acumulado ao longo de séculos na produção desse estilo de espumante, porém, foi apenas o primeiro passo. Uma vez longe de seu berço e totalmente livre das imposições que regem a AOC, a bebida seguiu as tendências de consumo de diferentes mercados e está mais viva do que nunca, em variações que permitem assemblages com infusões de frutas e ervas aromáticas, resultando em uma imensa gama de produtos derivados do champagne original.
Uma nova bebida
No Brasil, o mais recente fruto dessa longa linhagem chegou no início do ano com o rótulo Chandon Garden Spritz. Criado por Ana Paula Bartolucci, primeira mulher a assumir o cargo de enóloga-chefe da Chandon Argentina, é resultado de quatro anos de pesquisa e nada menos que 64 ensaios combinando diferentes infusões e assemblages até que alcançasse o equilíbrio ideal entre frescor, cremosidade e amargor. Entre os ingredientes utilizados está um licor obtido a partir da infusão de uma variedade de laranja chamada Valencia, além de cardamomo e genciana, uma erva de amargor bastante pronunciado. “A proporção desse licor no blend final é de apenas 1,7%”, afirmou a enóloga durante uma masterclass em meio aos vinhedos de Cepas del Plata, no Vale de Uco, a 1.500 metros de altitude.

A base de espumante é um corte das uvas Chardonnay, Pinot Noir e Sémillon, com adição de 2% de Malbec apenas para dar um toque pêssego à coloração. Entram ainda na fórmula botânicos como anis, canela, hibisco e baunilha, em frações mínimas. Para chegar ao blend final, Ana Paula trabalhou em colaboração com a comunidade internacional de 16 enólogos de sete nacionalidades que atuam nas unidades da Chandon. O método de produção é o Charmat longo com fermentação lenta, que preserva a pureza da fruta e confere textura cremosa e frescor. A acidez e o aroma cítrico são reforçados pela laranja Valencia, de cultivo 100% orgânico, proveniente em uma fazenda familiar certificada em Tucumán, no nordeste da Argentina. Segundo Ana Paula, as cascas são preparadas de diferentes formas: a pele é removida e desidratada, uma parte da frusta e cozida e o sumo é macerado em destilado vínico junto a especiarias de diferentes origens. Tudo isso resulta em notas caramelizadas, com nuances de chocolate e de frutas cristalizadas. “O Garden Spritz é um projeto muito especial porque reúne a essência da Chandon e da Argentina em uma única taça”, disse Ana Paula. “Trabalhamos com as laranjas como se fossem uvas, estudando cada detalhe para extrair todo o seu potencial aromático, e usamos especiarias de diferentes partes do mundo para trazer camadas de complexidade”.

Embora seja uma bebida que quebra diversos paradigmas em relação ao tradicional estilo de Champagne, o Garden Spritz foi elogiado pela alta direção do grupo Moëy-Hennessy na França. “Eles nos deram carta branca para o desenvolvimento desse produto de forma colaborativa entre as diversas unidades e, quando receberam a amostra final, após 64 ensaios, elogiaram o resultado”, afirmou o diretor da Chandon Argentina, Hervé Birnie-Scott.
“Eu comparo o espumante tradicional com a missa de domingo. Em todas as igrejas da França o padre convocava os fiéis tocando o sino. Quando menos gente passou a ir à igreja, o padre passou a tocar o sino com mais força. Mas isso não basta”, disse Hervé. “Sem inovação você se desconecta de seu público. Procuramos entender as tendências do mercado de espumantes e atender o que o consumidor busca na taça”. A empresa não revela dados sobre o volume de vendas, mas o reconhecimento internacional inclui uma medalha de prata no Champagnes and Sparkling Wines World Championships de Londres, em 2021.
É inegável que a onda do Aperol Spritz tenha impactado esse mercado. E prover apenas uma parte dessa receita seria como tentar tocar o sino mais alto. Com seu Garden Spritz, a Chandon parece ter encontrado uma solução completa. Na temporada de verão 2025/26, a bebida ganha ainda mais visibilidade dentro do portfólio da marca para se consolidar como um ícone no universo dos aperitivos prontos para servir, traduzindo um estilo de vida informal que valoriza a autenticidade e a inovação.
Um dos trunfos da bebida é não conter aromas ou corantes artificiais e ter 50% menos açúcar do que a média dos spritz tradicionais. Pronto para servir, pode ser finalizado apenas com gelo e uma fatia de laranja desidratada. Fica leve, refrescante e menos enjoativo que muitos drinques servidos com a mistura de espumantes com Aperol. “É um spritz único, feito para ser apreciado em diferentes momentos, do verão ao inverno, sempre com autenticidade”, resumiu a enóloga Ana Paula Bartolucci. Difícil discordar.



