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Pedro Attayde e Matheus Zanchini se encontram no Ophelia

Jantar a quatro mãos mistura França, Itália e o lado mais indulgente da cozinha contemporânea carioca em uma noite feita para compartilhar pratos, garrafas e exageros bem calculados

Existe uma geração de cozinheiros que parou de pedir licença para misturar referências. Gente que cresceu admirando a cozinha clássica francesa, devorando massa italiana, frequentando botequins, estudando charcutaria e entendendo que, no fim das contas, o que realmente importa é a sensação que fica à mesa. O encontro entre Pedro Attayde e Matheus Zanchini parece nascer exatamente desse lugar. Menos preocupado com fronteiras gastronômicas e muito mais interessado em sabor, textura, gordura, caldo e prazer imediato.

No dia 14 de maio, o Ophelia recebe um jantar a quatro mãos que tem tudo para virar daqueles encontros em que a mesa começa organizada e termina tomada por pratos divididos, taças espalhadas e gente disputando a última colherada. França e Itália aparecem como ponto de partida, mas não como prisão estética. O espírito da noite parece mais próximo de um jantar entre cozinheiros amigos do que de um menu engessado.

Memória e técnica

O anfitrião Pedro Attayde construiu seu nome no Rio ao transformar a Cochon Rouge em referência quando o assunto é charcutaria artesanal. Antes de muita gente voltar a falar de terrines, pâtés, guanciale e embutidos feitos na própria cozinha, Attayde já trabalhava receitas que exigem tempo, cura, gordura e paciência. Sua cozinha sempre teve algo de profundamente europeu, mas sem aquela formalidade cansativa de restaurante que parece existir apenas para ser fotografado.

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Isso aparece logo de cara no Gougère recheado com creme de comté e guanciale da casa. Um clássico francês transformado quase em petisco de luxo. Massa leve, queijo intenso e gordura curada entrando em cena logo na primeira mordida. Depois vem um Pithivier de bochecha de porco com mousse de foie gras au poivre, prato que parece saído de uma Paris antiga, daquelas em que molho brilhante, massa folhada amanteigada e cocções longas dominavam o jantar.

Já Matheus Zanchini segue outro caminho, embora igualmente interessado em profundidade de sabor. À frente do Giancarlo, ele pertence a uma leva de cozinheiros que olham para a Itália além da caricatura da cantina. Sua cozinha trabalha memória afetiva, mas com bastante técnica por trás.

O Cigaretti Alla Merguez talvez seja o melhor exemplo disso. Linguiça bovina envolta em berinjela empanada e frita, finalizada com salsa de tomate e gremolata de hortelã. Um prato que atravessa Mediterrâneo, Norte da África e Itália sem parecer confuso em nenhum momento. Depois surge o Tortelloni & Pastrami, provavelmente a síntese perfeita do encontro entre os dois chefs. Massa fresca estufada, caldo espesso de língua, cebola tostada e pastrami da casa formando um prato denso, untuoso e absolutamente sem medo de intensidade.

Até as sobremesas seguem esse caminho mais generoso. Attayde aposta em madeleine com caramelo de laranja e sorvete de baunilha, enquanto Zanchini apresenta um Bomboloni au Figo recheado de chantilly de mascarpone e figos macerados no próprio licor. Doces que parecem feitos para acompanhar o momento em que o jantar desacelera, mas ninguém ainda quer ir embora.

Ophelia

Rua Barão da Torre, 538, Ipanema, Rio de Janeiro
Terça a sábado, das 12h à 0h; domingo, das 12h às 18h.
@ophelia.rest

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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