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Quando o Azeite Fala: Aromas, Sabores e o Novo Caminho do Brasil no Cenário Oleícola

A degustação no copo de vidro tonalizado ganha destaque no país, enquanto o Conselho Oleícola Internacional intensifica visitas, masterclasses e negociações que projetam o futuro da olivicultura brasileira.


A prova do azeite de oliva virgem começa antes mesmo de a primeira gota tocar a língua. O pequeno copo de vidro tonalizado, escolhido justamente para evitar que o avaliador seja influenciado pela cor do azeite, já antecipa que há mais ciência ali do que muitos imaginam. Ao aquecer levemente o recipiente com a palma das mãos, os aromas começam a se liberar: notas de azeitona fresca, grama cortada, tomate, banana ou maçã. A temperatura ideal, em torno de 28 °C, ativa os compostos voláteis que revelam a verdadeira identidade do azeite.Este é o primeiro contato no processo de análise sensorial dos azeites de oliva virgens, método oficial utilizado por painéis de prova especializados e devidamente treinados em todo o mundo para classificar os azeites. Um equilíbrio entre frutado (verde ou maduro), amargor e picância indica qualidade em seus atributos positivos; já atributos negativos, resultantes de oxidação ou fermentação, como ranço, avinagrado ou borras, revelam problemas na colheita, no processamento ou no armazenamento. Em outras palavras, a degustação vai além do sabor: ela traduz a história do fruto, das técnicas de cultivo e da produção.

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Com o crescimento do consumo de azeite de oliva no país, hoje o segundo maior importador mundial, a curiosidade pelo universo da análise sensorial segue chamando atenção. Chefs, provadores, profissionais do varejo e consumidores interessados buscam entender como identificar atributos positivos, perceber nuances e reconhecer um azeite virgem de qualidade.

Essa evolução do paladar brasileiro está alinhada a um movimento estratégico que ganha força: o avanço das iniciativas do Conselho Oleícola Internacional no Brasil.

O Conselho Oleícola Internacional (COI) é uma organização intergovernamental com sede em Madri, Espanha, que reúne países produtores e consumidores de azeitonas e azeite de oliva para desenvolver a olivicultura, facilitar o comércio, estabelecer normas e promover o setor globalmente, sendo referência e fórum internacional de debate para o setor.

COI no Brasil em 2025: um ano de conexões

Nos últimos meses, uma comitiva do conselho percorreu Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, conectando produtores, pesquisadores e especialistas em uma agenda focada na qualificação do setor. Entre visitas técnicas, encontros com laboratórios reconhecidos pela organização, cursos de análise sensorial e masterclasses com o varejo e o setor de alimentação fora do lar, a missão reforçou o posicionamento do país no cenário global.

Entre os compromissos dos representantes do COI, esteve a visita a produtores vencedores do Prêmio de Qualidade do COI “Mario Solinas” no Hemisfério Sul, considerado o “Oscar” dos azeites de oliva virgens extra.
Créditos: Divulgação COI

Embora ainda não seja membro pleno, o Brasil se aproxima cada vez mais dessa desejada adesão, que pode se concretizar até 2027. Segundo Abderraouf Laajimi, Diretor Executivo Adjunto da organização, integrar o conselho é um passo crucial:

“A entrada do Brasil no COI é um passo fundamental para que os produtores e indústrias se alinharem aos principais padrões produtivos globais e de fato se situar entre os grandes players globais”, afirma.

A adesão traria benefícios imediatos, como:

  • Reconhecimento internacional da qualidade dos azeites nacionais;
  • Acesso ampliado a pesquisas científicas e suporte técnico, fundamentais para o desenvolvimento da olivicultura;
  • Intercâmbio global de conhecimento entre produtores e especialistas;
  • Campanhas de promoção ao consumo de azeites virgens extra de alta qualidade.

O COI também ampliou o debate sobre sustentabilidade. O olival, quando manejado adequadamente, atua como importante aliado para a captura e retenção de carbono, tema fundamental para o cultivo no Brasil e cada vez mais presente nas discussões ambientais internacionais.

Maria Juárez Fernández, chefe da Unidade de Assuntos Econômicos e Promoção do COI, e Abderraouf Laajimi, Diretor Executivo Adjunto do COI, estiveram em Maria da Fé com produtores e autoridades locais.
Créditos: Divulgação COI

Se, por um lado, o consumidor brasileiro se torna mais atento aos aromas e sabores do azeite, por outro, o setor avança em profissionalização, pesquisa e visibilidade internacional. A ponte entre esses dois mundos, o da experiência sensorial e o das políticas de qualidade, faz de 2025 um ano de conexões.

O que começa com um simples copo de vidro tonalizado vai muito além da degustação. É ali, no aroma que se eleva lentamente e no equilíbrio entre frutado, amargor e picância, que se revela não apenas a qualidade do azeite, mas também o promissor futuro da olivicultura brasileira.

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