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Quando o sushiman vai de um italiano e o pizzaiolo, de japonês

Os chefs Nao Hara e Sei Shiroma falam sobre suas experiências entre as massas, sushis e sashimis

Há evidências arqueológicas de que o macarrão surgiu na China cerca de 2.000 anos antes de Cristo. Isso, todo mundo sabe. O que pouco se fala é que o produto teria chegado ao Japão no século 8, bem antes do que na Itália. Será que macarrão e sashimi dão liga? Referências históricas de lado, chefs de restaurantes japoneses podem, sim, fazer bons pratos italianos – e vice-versa.

Aos 37 anos de carreira, o premiado Nao Hara, do japonês Masi, no Rio, se pôs a estudar um mundo novo. “Tivemos a oportunidade de um ponto no Jockey Club e os sócios optaram por um restaurante italiano”, conta. “Eu topei, desde que fosse um italiano sob o meu olhar, uma interpretação minha da cozinha italiana.” A partir daí, Nao Hara começou as pesquisas. “A diferença para um rámen está na umidade e no tempo de sova da massa. No caso dos rámens, sovamos muito para o glúten ficar ativo”, explica.

Do seu jeito

Além disso, é comum os chefs usarem a mesma mistura para vários tipos de massa. No Giappo (que significa japonês, em italiano), porém, Nao Hara usa quatro tipos de farinha. São duas italianas 00, sendo uma com alto e outra com baixo teor de proteína, uma farinha tipo 2 e uma semolina de grano duro, com diferentes misturas com água (com gás e sem gás), conforme a massa que ele deseja colocar no prato.

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Um dos destaques da casa é o Quadrucci Coloratta: massa colorida, em que um quadradinho é recheado de queijo e o quadradinho ao lado, de ragu de vitelo com manteiga de shiitake. Outro bom exemplo da maestria de Nao Hara com as massas é a Teia de Ravióli, de elasticidade leve e incomparável, porque é feita com a farinha 00 de baixa proteína, água com gás natural e muçarela em pó. Já o Agnolotti di Formaggi vai no caminho oposto, com farinha tradicional, gemas de ovos caipiras e sova intensa, para criar uma massa mais quebradiça e delicada.

Quadrucci Coloratta do Masi, no Rio de Janeiro. Crédito Tomás Rangel
Quadrucci Coloratta do Giappo, no Rio de Janeiro. Crédito Tomás Rangel

“Na época do Shin Miura, há coisa de uns 25 anos, eu servia uma massa fria com espaguete e lâminas de sashimi de salmão. Meus sócios já pediram para colocar essa receita no Giappo, mas tenho medo de acharem que o japonês aqui está querendo agredir a cultura italiana. Então vou entrar com ela no cardápio do Masi”, revela Nao Hara.

Volta às origens

Na mão contrária está o novaiorquino Sei Shiroma, filho de mãe chinesa e pai japonês. Criado no Suibi, o restaurante japonês que o pai tinha em Manhattan, ele começou sua carreira na gastronomia pelas pizzas, lançando, em 2013, a afamada Ferro e Farinha, a primeira carioca a entrar no Top 50 Pizzas (hoje ocupando a 21ª posição no ranking mundial). Dez anos depois, em um resgate das origens, abriu o Suibi e trouxe o pai para dar os toques finais no cardápio.

Chef Sei Shiroma. Crédito: Rodrigo Azevedo
Chef Sei Shiroma. Crédito: Rodrigo Azevedo

“Mergulhei em busca do meu lado japonês, fui recuperando sabores da minha infância, e ainda viajei para o Japão, para recalibrar meu paladar, mas não só isso. Afinal, a comida japonesa vai muito além do paladar, é toda uma cultura”, diz Sei Shiroma.

Entre as boas pedidas do menu do Suibi está o Surf and Turf Tartare, com sharis crocantes de tartar de atum, wagyu grelhado, gochujang, malá, aonori e grana padano. O Unagi Temaki, de enguia, evoca a tradição japonesa. E, da cozinha quente, o destaque vai para o Salmon Kamameshi, preparado na panela de ferro e finalizado na mesa, diante do comensal, com arroz, salmão, cogumelo e gema mole.  

Salmão Kamameshi, do Suibi. Crédito: Rodrigo Azevedo
Salmão Kamameshi, do Suibi. Crédito: Rodrigo Azevedo

Obcecado pela perfeição, Sei Shiroma é daqueles que acredita em aprender com quem faz. “Mais que isso, se você quer aprender a fazer massa tem que aprender a língua, o italiano”, opina ele, que pode conversar com qualquer um em português, inglês, chinês, japonês e italiano.

Em 2025, quando abriu a quinta filial da Ferro e Farinha, no Shopping Leblon, o chef aproveitou para introduzir as massas no cardápio, sempre privilegiando as receitas tradicionais. “Aqui o carbonara é com gema de ovo, pecorino e guanciale”, diz o chef, que atualmente se encontra em uma viagem de imersão na região da Bolonha. “Estou fazendo um curto de gelatos porque vou lançar minha própria marca”, adianta.

Ferro e Farinha Shopping Leblon 

Avenida Afrânio de Melo Franco, 290, 4º piso, Leblon, Rio de Janeiro; @ferroefarinha

Suibi

Rua Joana Angélica, 184, Ipanema, Rio de Janeiro, tel.: (21) 95900-3617; @suibi.restaurant     

Giappo

Jockey Club, Praça Santos Dumont, 31, Gávea, Rio de Janeiro, tel.: (21) 97349-6005; @giappo.rio

Masi

Hotel Nacional, Avenida Niemeyer, 769, São Conrado, Rio de Janeiro; @masi.rio 

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Ursula Alonso Manso

Comer, beber, viajar • Jornalista e glutona assumida - dessas que come para viver e vive para comer. Há 13 anos compartilhando garfadas com a equipe de Prazeres da Mesa. O Rio de Janeiro é sua praia.

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