Quem é Gonzalo Vidal, chef argentino que lapidou seu talento no Rio de Janeiro e abriu o Gonza
Novidade no Horto, apresentada como um restaurante argentino com alma carioca, tem recebido o dobro da clientela inicialmente prevista pelos donos

Por: Daniel Salles
Nascido há 39 anos em Santa Fé, município argentino a 470 quilômetros de Buenos Aires, Gonzalo Vidal sempre sonhou em mudar de país. Por muito tempo, cogitou morar na Espanha ou na França. “Cresci em uma cidade muito pequena”, diz o chef, que nunca se interessou em tentar a sorte na capital de seu país. Quando pisou no Rio de Janeiro pela primeira vez, de férias, 18 anos atrás, estava determinado a rumar para o país de Ferran Adrià em seguida. Encantou-se, porém, pela capital fluminense – e a ponto de voltar de mala e cuia no ano seguinte. “Não imaginava encontrar uma cidade tão grande e com tantas oportunidades”, recorda Vidal, que acaba de abrir o Gonza, sucesso instantâneo no Horto.
Quando veio para ficar, em meados de 2008, acabou tentando a sorte não na cidade carioca, mas em Búzios, onde desembarcou com o intuito de aprimorar o português. Lá, empregou-se no extinto Cigalon, restaurante francês que marcou época – e os dois meses que ele planejava passar no balneário viraram oito. Mais confiante com o nosso idioma, rumou em seguida para o Rio de Janeiro, onde distribuiu cerca de 70 currículos. “Meu sonho era trabalhar em um restaurante de hotel”, lembra ele, que acabou contratado pelo Quadrucci, no Leblon. No estabelecimento, que ganhou um ponto final na pandemia, ingressou como auxiliar de cozinha e saiu, 3,5 anos depois, como subchefe.
Depois dedicou-se exclusivamente à produção de embutidos, pelos quais tem adoração, até assumir o comando da cozinha de outro estabelecimento que não existe mais, o gastrobar Zot, em Copacabana. Não foram anos fáceis. “Naquela época, estava difícil para crescer profissionalmente, pois ninguém me conhecia no Rio de Janeiro”, recorda Vidal. “Eu ouvia um não atrás do outro”. Daí a decisão de voltar para Búzios, para trabalhar no restaurante Mistico. Em seguida, ele assumiu o comando da gastronomia do hotel-boutique Casas Brancas. O plano de Vidal, neste caso, era permanecer no emprego só durante um verão. No fim, foram oito anos, ao longo dos quais virou um dos chefs mais conhecidos e respeitados de Búzios. “O Casas Brancas me deu uma visibilidade muito boa”, admite Vidal. Sob o comando dele, o restaurante do hotel, o 74, virou um dos mais incensados da região.


Dois anos atrás, o argentino deu adeus ao Casas Brancas – decidido, enfim, a montar um negócio no Rio de Janeiro, sonho que cultivava há anos e anos. Ele já havia tirado um restaurante do papel, o Ohashi, em Santa Fé. Especializado em comida japonesa, o negócio existe até hoje – desde que Vidal saiu da Argentina, está nas mãos de familiares dele. O restaurante nasceu no terraço da casa de uma avó dele. “Contratei o motoboy da pizzaria em frente e fui deixar o cardápio debaixo da porta das casas vizinhas”, recorda.
Pois o negócio explodiu no delivery, o que levou Vidal a transferi-lo para a cafeteria de um tio, que funcionava só de dia – à noite, passou a servir sushi de segunda a segunda. Foi um professor da escola que o recrutou, na adolescência, para o mundo dos restaurantes. “Ele convenceu minha mãe a me deixar trabalhar no restaurante dele, o que era mais sensato do que me deixar à noite na rua, pois eu era um jovem meio problemático”, afirma Vidal. “Comecei como garçom, chegando mais cedo para
descascar batatas, e me encontrei nesse universo”.
A procura pelo ponto do Gonza levou um ano – entre os sócios do argentino na empreitada está Cello Camolese, dono da Casa Camolese e um dos fundadores da cerveja Devassa. “Tinha que ser um imóvel com cara de casa, com direito a pátio e, de preferência, em uma esquina”, lembra o cozinheiro. “Em Ipanema, Botafogo e no Leblon só encontramos, basicamente, pontos no térreo de prédios, o que fugia da proposta”. O casarão encontrado na Rua Pacheco Leão, no Horto, caiu como uma luva.
Com o Gonza, o bairro reforçou sua vocação gastronômica – na mesma rua, encontram-se a Casa Horto, o Elena e o Eleninha, três empreendimentos que fazem enorme sucesso. “O Horto se mostra uma região muito propícia para virar um novo polo gastronômico”, diz Fernando Blower, que preside o SindRio, o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro. “Majoritariamente residencial e horizontal, é um bairro como poucos. Não à toa, tem atraído empreendimentos que primam pela excelência e que visam surpreender a clientela com ambientes caprichados”.


Os antigos bodegones argentinos de beira de estrada serviram de inspiração para o Gonza. “Um bodegón é um estabelecimento com jeitão familiar que serve pratos que você come três, quatro vezes por semana”, explica Vidal. Com paredes pintadas de rosa, toldos vermelhos e muitas plantas, o restaurante, apresentado como um argentino com alma carioca, serve desde empanada de polvo (R$ 36) até sanduíche de pastrami de cupim (R$ 52) e tortilla de batata com espuma de molho aioli incrementado com alho assado (R$ 44). Com 70 lugares, costuma receber 450 pessoas no sábado, dia de maior movimento. “Estamos recebendo o dobro da clientela que havíamos previsto”, comemora o argentino.



