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Entrevista com Deunir Argenta, o presidente da Uvibra e da Vinícola Luiz Argenta

O empresário discorre sobre o atual momento do vinho brasileiro e sobre as ações com vistas a um futuro melhor

Um empresário bem-sucedido, Deunir Argenta, além de tocar outros negócios, comanda a Luiz Argenta Vinhos Finos, uma das principais vinícolas do Brasil. Instalada na linda região de Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, é uma casa moderna e voltada para a produção de vinhos de qualidade e inovadores. Neste momento, ele divide o tempo com a presidência da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), entidade responsável pela organização da produção, promoção e comercialização da cadeia produtiva do vinho brasileiro. Em uma conversa franca com Prazeres da Mesa, ele falou sobre o grande momento do vinho brasileiro, sobre os problemas do setor e as ações para enfrentá-los. E quanto à qualidade da bebida, ele é enfático: “Em termos de produto, basta fazer uma degustação às cegas e provar, na taça, a qualidade dos rótulos brasileiros”.

 

Prazeres da Mesa – Você concorda que o vinho brasileiro vive seu melhor momento?

Deunir Argenta – Com certeza. Estamos colhendo o que plantamos em toda a nossa história vitivinícola. Mas foi nesses últimos dez anos que vivemos uma verdadeira revolução no setor. Investimentos pesados em tecnologia, do vinhedo à cantina, foram decisivos para essa transformação, posicionando o vinho brasileiro em um outro patamar. Tanto é verdade que, no ano passado, os rótulos de vinhos finos conquistaram mais medalhas que os espumantes nacionais, já reconhecidos mundialmente, mudando a imagem do produto.

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Quais fatores podem ser apontados como determinantes para se chegar a esse patamar?

É importante destacar que não é por acaso que o vinho brasileiro vive seu melhor momento. E, sim, convenhamos, a pandemia ajudou, por diversos aspectos, entre eles, a mudança de hábitos da população, a melhor distribuição dos produtos e a acessibilidade à diversidade de estilos com o surgimento de novas regiões produtoras, o preço justo, a aceleração do e-commerce e os avanços no enoturismo. Mas, acima de tudo, com a evolução, o amadurecimento de toda a cadeia produtiva da uva e do vinho e, claro, com a percepção da qualidade por parte do consumidor, que brinda este importante momento em uma série de ações e conquistas abençoadas até pela mãe natureza, como tem sido a cada colheita. A ‘Safra das Safras’, em 2020, é um dos exemplos.

 

Como a Uvibra vê e planeja o futuro? O que precisa ser feito?

A Uvibra está sempre mirando o futuro, a fim de evitar que o setor enfrente situações de forma inesperada. A curto prazo vemos que, devido ao aumento do consumo de vinhos, teremos problemas em relação aos fornecedores, inclusive de nossa matéria- prima principal: as uvas viníferas. Por isso, estamos desenvolvendo estudos para que possamos ter um planejamento mais detalhado e preciso em torno desse aspecto. Estamos chegando a um limite que poderá nos trazer sérios problemas – o que não podemos deixar que aconteça. Um exemplo já vivido é o da falta de vasilhames. Todo o nosso trabalho é coletivo e tem por base estudos técnicos, pois trata-se de assuntos amplos que não têm solução em curto prazo.

 

Quando estamos em nosso melhor momento, enfrentamos a crise das garrafas. Como proteger o setor desse problema?

Este não é um problema novo. O setor vem sofrendo há anos esse tipo de situação. Agora, ela se agravou em razão do incremento no consumo. Nós, da Uvibra, estamos trabalhando incessantemente na articulação e na busca de investidores para uma nova fábrica de garrafas. Este não é um trabalho fácil, nem imediato, pois depende, inclusive, do apoio do governo do estado, que designou o secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Covatti Filho, para ajudar na viabilização de parceiros na empreitada. As vinícolas brasileiras se obrigam a importar garrafas da Argentina e do Chile, aumentando o custo final do produto em razão da alta do dólar, do frete devido às distâncias, além da demora na entrega.

 

Nos últimos anos, temos visto a chegada ao mercado de vinhos importados muito baratos. Muitos não cobrem nosso custo de produção e de impostos. Como combater isso? Não é sempre melhor criar mecanismos para combater esse produto sem qualidade do que, por exemplo, sugerir aumento de impostos?

O mundo do vinho, especialmente os produtores europeus, vive um momento de superestoque, tanto é verdade que, no ano passado, muitas vinícolas nem colheram suas uvas por falta de espaço para estocá-las. Para ajudar o setor, os governos europeus lançam ações de subsídios para o escoamento da produção, e o Brasil está na mira por oferecer espaço para esse mercado. Nessas condições, ficamos em desvantagem devido a nossa alta carga tributária e ao elevado custo Brasil. Em relação aos países do Mercosul, que fazem divisa com o Brasil, podemos perceber a facilidade de acesso, em grande parte por descaminho, tirando espaço que seria do vinho nacional. Esse problema vem sendo combatido com uma maior fiscalização. Hoje, temos recebido notícias periódicas sobre a apreensão de cargas que entram no Brasil pelo descaminho, o que mostra uma maior atenção e atuação face ao problema. Com a entrada ilegal, esses produtos chegam sem impostos e, mesmo sem qualidade, tiram espaço do nosso vinho, justamente por serem altamente competitivos.

Com o aumento do consumo de vinhos no Brasil, o conhecimento do consumidor também tem evoluído e, assim, favorecido uma melhor seleção com a escolha de rótulos com maior qualidade e uma excelente relação custo-benefício. Assim, o brasileiro vem descobrindo o vinho nacional e o aprovando. Temos atuado junto aos órgãos competentes no sentido de intensificar essa fiscalização, coibindo a entrada no Brasil, de forma ilegal, de vinhos estrangeiros.

 

Foto: Divulgação
Recentemente, um guia chileno afirmou que os vinhos tintos brasileiros não têm qualidade. Em sua opinião, essa afirmativa é fruto de desconhecimento ou é má-fé?

Existem guias e concursos que avaliam e premiam vinhos e espumantes no mundo todo. Grande parte deles vem de ações comerciais de promotores de eventos. A Uvibra entende que todo guia e concurso que atue em prol da promoção do vinho, seja ele de qualquer procedência, é salutar. Grandes líderes, celebridades com alta reputação e formadores de opinião consagrados, habitualmente, compartilham suas impressões sempre voltadas a construir. Ou seja, se a avaliação for negativa, o melhor é dividir com a marca, a fim de contribuir para sua evolução. Nem mesmo os grandes concursos internacionais, consolidados e consagrados com a chancela da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), a maior e mais respeitada instituição do mundo do vinho, fazem referências negativas. Além disso, são competições que reúnem grandes grupos de especialistas do mundo todo. Em nossa visão, não se trata de desconhecimento, até porque o mesmo guia já reverenciou dezenas de rótulos brasileiros, percebendo e reconhecendo nossa produção. Reforçamos que se trata de uma iniciativa privada, com seus interesses, que atua em um determinado universo, e que muda a cada nova safra.

 

Em que os nossos vinhos podem melhorar?

Sabemos elaborar grandes vinhos. Agora, precisamos aprender a vender, e esta é uma carência do Brasil não apenas no mercado de vinhos. Precisamos melhorar a nossa capacidade de venda e também de divulgação. Acreditamos que com a criação do Conselho de Planejamento e Gestão da Aplicação de Recursos Financeiros para Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis) esse trabalho vai ganhar velocidade, fortalecendo a divulgação do produto nacional. Mas isso não extingue o papel de cada entidade, de cada vinícola. É preciso que cada um faça a sua parte. Juntos, somos mais fortes. Em termos de produtos, basta organizar uma degustação às cegas e provar, na taça, a qualidade dos vinhos brasileiros. Evoluímos muito no manejo dos vinhedos e isso foi decisivo para essa transformação. Mas é preciso seguir avançando, fazendo testes, aprendendo com cada terroir. Também precisamos evoluir em termos de representatividade e isso nasce de uma união mais concisa, coletiva e colaborativa.

 

Como convencer o governo a diminuir os impostos?

Mostrando o quanto essa carga tributária impacta na vida do vitivinicultor e do consumidor. Estamos com diversas negociações em andamento, inclusive, em relação à revisão da carga tributária, da classificação do vinho em relação à União Europeia. São assuntos estratégicos que requerem muito foco, estudos técnicos e habilidade nas negociações.

 

O vinho brasileiro sofre mais por falta de marketing ou por preconceito?

Por falta de marketing. Precisamos trabalhar muito mais no convencimento do mercado consumidor, que já mostra sua percepção em relação à qualidade de nossos vinhos. Estamos no caminho certo, mas precisamos avançar. Quem conhece o vinho brasileiro reconhece o patamar em que ele se encontra. Vivemos períodos muito piores. Hoje, estamos vendo isso tudo mudar para melhor.

 

Falta também um pouco de união dos produtores brasileiros e de suas regiões. A Uvibra tem algum projeto para amenizar isso?

Acreditamos e apostamos em uma coesão nacional. A Uvibra é uma entidade aberta. Tanto é verdade que nos últimos anos vem trabalhando para atrair associados de todas as partes do país. As diferenças existem em termos de terroirs, particularidades de cada estado, mas os interesses do setor são coletivos e precisam ser colaborativos. De certa forma, o setor vem se fortalecendo com a estruturação das associações de produtores em diversas rotas enoturísticas. Precisamos evoluir em termos de país, a fim de sermos mais fortes em torno de pautas macro, sejam elas econômicas ou políticas.

 

Nossos vizinhos na América do Sul apostaram em uvas específicas para ganhar o mundo. Malbec, na Argentina; Tannat, no Uruguai; e Carménère, no Chile. Você acha que esse seria também um caminho para o vinho brasileiro?

O caminho do vinho brasileiro é o da diversidade. Somos um continente de terroirs. Assim, é impossível pensar em uma única variedade emblemática. Cada região tem suas particularidades, seu solo, seu clima. E é justamente isso que nos diferencia de qualquer outra região produtora do mundo. Hoje, são 23 regiões produtoras em dez estados brasileiros. Temos especificidades bem particulares: na Serra Gaúcha, uvas excepcionais para espumantes, e a tinta Merlot, que vem se destacando; na Campanha Gaúcha, a Tannat desponta, além de castas portuguesas; no Vale do São Francisco, duas safras por ano ante a irrigação do Velho Chico e sobressaindo cepas, como a Shiraz; tem ainda a colheita de inverno na Serra da Mantiqueira, e por aí vai, cada lugar descobrindo sua vocação e apostando em seus diferenciais. O mercado consumidor responde positivamente a essa situação, mostrando que aposta em novidades.

 

O mercado do vinho brasileiro reúne empresas grandes e muitas pequenas, familiares; como administrar e dar chances iguais para os dois lados?

Todas as empresas têm espaço no mercado. Cada uma com sua identidade, seu foco. A pandemia da Covid-19, a venda pelas redes sociais e a aceleração do e-commerce colocaram todos na mesma posição. Hoje, é possível comprar pelo WhatsApp, por e-mail, por telefone, por loja virtual ou por market place. O enoturismo é também uma forte ferramenta na democratização do setor. E a distribuição também está muito mais fácil, pois temos diversas opções. As conquistas que alcançamos com a Substituição Tributária em diversos estados também favoreceu muito nesse sentido.

 

O contrabando (como falado acima) continua sendo um grande problema. A Uvibra tem apresentado propostas sobre o assunto? Ou sugerido ações?

Estamos preocupados com o grande volume de vinho que entra no Brasil pelo descaminho. Nossa atuação junto aos órgãos competentes tem se mostrado muito mais efetiva na fiscalização e na apreensão dessas cargas, para que esse produto não retorne ao mercado.

 

Como fazer para o espumante ser mais consumido durante todo o ano?

O consumo do espumante brasileiro vinha em crescimento constante e gradual, uma vez que ele passou a ser visto como uma bebida não apenas de casamentos e de festas de final de ano. Entretanto, com a pandemia, em razão do momento não ser de comemoração, a escolha se voltou mais para os vinhos. Contudo, já se percebe que o consumo de espumantes voltou a subir. Apostamos muito nessa retomada do espumante, uma bebida que por sua versatilidade, harmoniza muito bem com diferentes pratos e momentos. E o espumante brasileiro combina com a descontração dos ambientes festivos.

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Ricardo Castilho

Ricardo Castilho é diretor editorial de Prazeres da Mesa

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