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Erva-mate além da cuia

Planta típica da Mata Atlântica, a erva-mate ganha novos significados em Ilópolis, cidade gaúcha na qual poder público e produtores se unem para disseminar esse insumo rico em sabor, saúde e tradição

A erva-mate seca e moída, quando imersa em água quente, resulta na bebida-símbolo do gaúcho: o chimarrão. Repleta de história, a planta típica da América do Sul é cientificamente conhecida como Ilex paraguariensis e representa não só os costumes alimentares de um povo, como também sua identidade.

Pedro Rovadoschi, prefeito de Ilópolis
Pedro Rovadoschi, prefeito de Ilópolis

No Rio Grande do Sul, a cidade de Ilópolis é pioneira na produção de erva-mate. A própria etimologia da palavra (em que “Ilo” significa erva e “polis”, cidade) demonstra a importância desse produto para a região. “Em nosso município, existem mais de 700 propriedades. Em 95% delas, a principal cultura é a erva-mate”, afirma Edmar Pedro Rovadoschi, prefeito de Ilópolis. “São cerca de 6.000 hectares de produção e 82.000 toneladas de erva-mate cultivadas ao ano. É um setor que emprega muitas pessoas, já que o manejo é artesanal, sem maquinário.”

Dessa forma, o poder público do município, assim como instituições, indústrias e produtores, tem se empenhado em divulgar essa tão importante planta. A Turismate, por exemplo, é uma festa dedicada à erva-mate e que, desde 2013, acontece a cada dois anos em Ilópolis. “Sempre tentamos levar a cultura da erva-mate para onde estivermos”, afirma Edmar.

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Grande potencial

Jurandir José Marques, secretário municipal de agricultura de Ilópolis
Jurandir José Marques, secretário municipal de agricultura de Ilópolis

Jurandir José Marques, secretário municipal de agricultura de Ilópolis, também defende a mesma ideia. “Cada vez mais, vemos o potencial da erva-mate. O Brasil e o mundo estão começando a perceber isso”, diz. No entanto, ele afirma que é preciso que toda a cadeia de produção entenda e aprimore os processos. “Estamos implementando uma política de rastreabilidade e boas práticas de produção. As famílias têm sido capacitadas em tecnologia e adquirido ainda mais conhecimento sobre a planta e o produto.” Certificação florestal e melhora das condições de solo também entram no plano da secretaria.

Reafirmando essa importância, recentemente, o município adquiriu recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia para construir um centro de pesquisa, que será implementado nas propriedades do Parque do Ibama e voltado exclusivamente para a erva-mate.

Ouro verde

No que envolve a gastronomia, o uso da erva-mate faz bonito também fora da cuia. Não só no chimarrão ou no tereré – bebida gelada à base da erva, bastante apreciada em outros países sul-americanos – essa matéria-prima pode integrar uma diversidade de receitas.

Incentivar o uso da erva-mate na cozinha é um dos objetivos de Carla Saueressig, gaúcha, sommelière e grande especialista em chás e infusões. “Os benefícios da erva-mate são inúmeros. Mas essa questão ainda é pouco explorada”, diz. “Mulheres que tomam mate têm boa estrutura óssea em comparação com aquelas que não o consomem. Na Argentina, por exemplo, vende-se erva-mate até mesmo em farmácia.”

Benefícios

Segundo dados do Instituto Brasileiro da Erva-mate (Ibramate), esta erva oferece à saúde mais de 190 princípios ativos. Sendo alguns deles:

  • Estimular a atividade física e mental;
  • Tonificar o sistema nervoso;
  • Ser diurético;
  • Facilitar a digestão;
  • Prevenir gripes e alergias;
  • Proporcionar sensação de saciedade, bem-estar e vigor;
  • Estimular a circulação;
  • Melhorar a memória;
  • E eliminar estados depressivos.

Cerca de dez anos atrás, quando só se encontrava a erva-mate seca e moída, Carla foi em busca da planta pura, em folha, para criar blends especiais de chá. Encontrou a ervateira Putinguense, no Vale do Alto Taquari, em Ilópolis, que passou a lhe oferecer a matéria-prima para os experimentos. Foi nessa região que, mais tarde, Carla conheceu Ariana Maia, geógrafa de formação, estudiosa da erva-mate e proprietária da Matequero, linha de produtos da Inovamate, que também explora a erva em forma de chá.

Juntas, além de construírem uma bonita amizade, lançaram, no primeiro semestre de 2019, a Caravana da Erva-mate. O projeto reúne interessados no assunto para uma experiência in loco na cidade de Ilópolis, conhecendo produtores, indústrias e artesãos. Dessa maneira, enquanto dissemina informação de qualidade, a ação busca valorizar a agrofloresta, os pequenos agricultores e a erva-mate nativa, elevando-a a uma categoria de produto especial.

Carla Saueressig e Ariana Maia
Carla Saueressig e Ariana Maia, de uma paixão em comum, criaram a Caravana da Erva-mate a fim de disseminar a cultura e os diversos usos da planta. Os participantes do projeto são bem recebidos por pequenos produtores de Ilópolis e agraciados com diversas receitas à base de erva-mate

Erva-mate como ingrediente

“A importância desse projeto não é apenas vender chá”, afirma Ariana. “A ideia é fazer com que a comunidade se sinta pertencente à cadeia e as pessoas entendam o papel delas nesse espaço. É oferecer não só chimarrão, mas, sim, oportunidade de vida.”

Pensando nisso, a dupla incentivou diversos produtores da região a criar receitas únicas e inusitadas utilizando a erva-mate. No Doces Carmem, por exemplo, o matchá integrou uma deliciosa geleia de laranja, enquanto no Pub Bäumchen, drinques ganharam a companhia do ingrediente. Já no Santo Antão, loja de produtos coloniais, Patricia Carlesso desenvolveu um queijo de erva-mate maturado em cachaça. “Em nossa propriedade, somos movidos a erva-mate. E ter uma atividade extra é importante, principalmente para valorizar o trabalho da mulher”, afirma.

Queijo com erva-mate
Queijo com erva-mate

Mate pelo Brasil

chá de erva-mateIncansável como poucos, Ariana Maia, junto ao marido, Clóvis Roman, trabalha diferentes formas de divulgar a preciosa erva-mate. Embora pequena, a Inovamate encabeça grandes projetos envolvendo a planta nativa.

A começar pelos produtos Matequero, uma linha de chás que mescla o mate verde e ingredientes representativos de cada região do Brasil. No blend intitulado “Nordeste”, por exemplo, a erva é misturada com coco, nibs de cacau e anis-estrelado; enquanto no “Sudeste”, são integrados à receita café, cranberry e alcaçuz. “A ideia é regionalizar o mate, mostrando que é possível saboreá-lo em qualquer lugar do país”, afirma Ariana.

Na fábrica, além da produção desses chás mistos, existe todo um processo de testes e pesquisas para garantir a saúde dos blends. Os insumos que se mesclam ao mate são escolhidos pela própria Ariana, que vai em busca de parcerias com pequenos produtores. “Por meio de muitos experimentos, também conseguimos manter boa quantidade de antioxidantes da erva-mate, que diminuíam quando misturada a outras plantas.”

Preocupados em preservar os benefícios oferecidos pela erva-mate, em relação à saúde, à cultura e aos aspectos socioeconômicos, Ariana e Clóvis também desenvolvem projetos junto a universidades, gerando novas pesquisas. “É uma forma de devolver informações ainda mais completas às comunidades”, diz.

A qualidade começa no campo

Em Ilópolis estão sediados os melhores ervais do país. Garantindo a qualidade desse produto, na cidade da erva-mate, o manuseio – do plantio até os processos industriais – tende a ser o mais natural possível. A começar pelo cultivo da erva-mate, feito em agrofloresta, em que a planta cresce sombreada pelas araucárias, árvores típicas do Sul brasileiro, de maneira sustentável e em harmonia com a natureza.

“Além disso, esse sistema de sombreamento deixa o produto muito mais doce”, afirma Micheli Guadagnin, que, junto da irmã, Neo Guadagnin, está à frente da Putinguense, a primeira ervateira do mundo a conquistar a Certificação Florestal FSC. “Nosso pai, Eduardo Guadagnin e fundador da Putinguense, foi quem correu atrás da certificação, pois ele já tinha essa consciência ambiental.”

Idealista do manejo natural e sustentável, Eduardo Guadagnin faleceu no final de 2018, deixando o legado a suas duas filhas. A empresa familiar segue os mesmos parâmetros de responsabilidade ambiental, produzindo erva-mate com alto padrão de qualidade. “Essa cultura é muito importante, pois serve de sustento, evitando o êxodo rural”, afirma Micheli.

O mesmo cuidado com a planta e o ambiente que ela habita pode ser percebido na propriedade de Paulo Blume. Ali, há outras culturas junto ao cultivo de erva-mate, e o trabalho com o solo é diferenciado. Ele não é compactado e existem diversas plantas forrageiras que, por suas raízes, oferecem à erva-mate nutrientes do subsolo, resultando em um processo biodinâmico. “A forma de podar a planta também é muito importante e exige prática”, diz Blume.

Na indústria

No município, os processos industriais, inclusive os de maior escala, também são executados com primor. Um dos bons exemplos é a ervateira Ximango, no ramo há mais de 30 anos. Embora seja importante manter a tradição, a empresa se empenha em implementar outras tecnologias, como na etapa chamada “sapeco”, que acontece nas fornalhas. Ali, a erva-mate recebe altas temperaturas junto a eucalipto, o que faz com que a planta não absorva benzoepireno (fumaça), prejudicial à saúde, melhorando, ainda, o sabor e o aroma.

Mas é o contato com os produtores que faz toda a diferença. Com a Ximango, trabalham em parceria cerca de 270 agricultores. “A empresa cobra deles melhores práticas para o desenvolvimento do produto, em relação a análises laboratoriais e de solo”, afirma Ariana. “Na fábrica, a planta é seca, moída e finalmente transformada em chimarrão. Mas a importância, de fato, está no campo e nas pessoas que cultivam a erva-mate.”

Ode à Caá

A Ilex paraguariensis é uma planta nativa da Mata Atlântica. No Brasil, nasce de forma natural na Região Sul do país, além de em territórios argentinos e paraguaios. Seu uso como alimento teve origem com os povos guaranis, que tinham a árvore de erva-mate, chamada Caá, como símbolo sagrado.

Consumida exclusivamente pelos caciques e pajés, a erva era coletada no mato, com instrumentos artesanais de pedra ou madeira, depois passava por etapas de sapeco, secagem, desbaste das folhas e soque, técnicas que se desenvolveram no decorrer dos anos.

No Parque do Ibama, em Ilópolis, é possível conhecer todos esses processos históricos do consumo e produção da erva-mate desde os primórdios da civilização até os dias atuais. É, inclusive, uma das paradas da Caravana da Erva-mate.

Ervateira Ximango

* A reportagem viajou a convite da Prefeitura de Ilópolis

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Beatriz Albertoni

A paulistana divide-se entre duas paixões: jornalismo e gastronomia. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, a repórter está na redação de Prazeres da Mesa desde 2015. Adora conhecer histórias, viajar e apreciar um bom show de rock, além de nunca recusar bolo acompanhado de cafezinho.

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