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O vale dos orgânicos

Entre as belíssimas serras de Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro, está a Vale das Palmeiras, pequena fazenda do ator Marcos Palmeira, que, além do sucesso na TV, é produtor rural e defensor da cultura sem agrotóxicos 

É em um ponto privilegiado na Serra Fluminense, com vista para os verdes deslumbrantes de Teresópolis, que Marcos Palmeira instalou sua pequena fazenda de orgânicos. Pouca gente sabe, mas, além do sucesso em novelas da Rede Globo, o ator é empresário e um exímio produtor rural. A fazenda Vale das Palmeiras nasceu de um sonho de Marcos, que passou a infância nas terras do avô, na Bahia, entre criações de gado e plantações de cacau.

“Sempre quis ter um sítio, apenas como hobby”, diz. “Mas quando meu avô morreu e não consegui trabalhar por lá, comprei no Rio de Janeiro, em 1997, uma propriedade que já vinha produzindo hortaliças para supermercados.”

Foi natural, portanto, que o ator desse continuidade à atividade junto aos agricultores. “Mas, em certo momento, percebi que eles não consumiam aquilo que eles mesmos produziam”, diz. “Somente aí é que entendi a questão do veneno, do agrotóxico, e atentei para a cultura orgânica.”

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Levou cerca de oito meses até que a produção passasse de algo convencional para uma agricultura de menor escala e mais responsável. “Caíram as fichas”, afirma. “Comecei a me relacionar com as questões ambientais e, finalmente, entendi a relação entre produção de qualidade, alimentação e saúde.”

Marcos Palmeira e Alvino Oliveira, queijeiro da propriedade | Foto: Ricardo D’Angelo

Em harmonia com a natureza

Hoje, a propriedade abriga uma pequena produção de hortaliças destinada a um restaurante da capital carioca e a clientes específicos. Carlos Alberto Martins é quem está à frente da produção do dia a dia e garante a qualidade desses insumos. Rúcula, coentro, alface, aipo, espinafre e uma variedade de panc são apenas alguns dos produtos cultivados na fazenda.

Produção de café da Vale das Palmeiras

Há dez anos trabalhando na Vale das Palmeiras, seu Beto, como é conhecido, diz que preza pela rotatividade de ingredientes de sua horta. “Também começamos a produzir cafés e temos mais de 100 pés da planta”, afirma. “Ainda estamos em fase de testes, mas em breve lançaremos um lote especial com grãos produzidos na fazenda.”

Na propriedade de 200 hectares também não ficam de fora as frutas, algumas delas cultivadas em sistema de agrofloresta, em que o solo é coberto por vegetação nativa. Desde que adquiriu a Vale das Palmeiras, Marcos tem implementado o modelo em suas atividades produtivas, inclusive como fonte de alimentação para os animais criados ali.

Com isso, mais do que produzir orgânicos, o ator busca preservar a biodiversidade ao redor. A Vale das Palmeiras é, inclusive, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN, com duas áreas de proteção. “Essas reservas, nas quais o proprietário assume o compromisso com a conservação da natureza, são uma garantia para a cidade de que algum espaço ali não será destruído”, afirma Marcos. “O legal é que já recebi vídeos de uma onça-parda passando por essas áreas. Por lá, ainda vivem lobo-guará, tamanduá e tatu. A ideia é de estarmos mesmo vivendo em conjunto com a natureza.”

Qualidade à mesa

No entanto, as atividades produtivas não se limitam apenas a frutas e hortaliças. “Hoje, o foco na Vale das Palmeiras é a pecuária leiteira orgânica”, afirma Marcos. A equipe da fazenda produz cerca de 400 litros de leite por dia, com a meta de chegar a 1.000 litros. Dessa produção, resultam deliciosos queijos orgânicos, como minas frescal, ricota, iogurtes, queijos minas padrão e parmesão. “E temos planos de incluir outros produtos, caso dos laticínios cottage, coalhada e uma linha sem lactose”, diz Alvino Oliveira, queijeiro da propriedade.

Há 15 anos no comando da queijaria, Alvino conta que a produção começou pequena, atendendo comércios da região, restaurantes e cestas em domicílio. “Mas, em 2005, quando conseguimos a licença, colocamos no mercado o minas frescal, nosso carro-chefe até hoje.” Por enquanto, os laticínios da Vale das Palmeiras podem ser encontrados em empórios da capital e de algumas outras cidades do Rio de Janeiro.

Mas como diferencial desses produtos, além do cuidado durante o preparo, está a criação dos animais. Joyce Duarte é zootecnista, gerente da fazenda e uma das responsáveis por garantir a alta qualidade do leite. “Para que isso seja possível, as vacas não recebem qualquer tipo de antibiótico, sendo tratadas apenas via homeopatia”, afirma a especialista. Segundo ela, para obter um insumo diferenciado, é preciso trabalhar melhor o rebanho em um sistema a longo prazo.

Pensando nisso, a Vale das Palmeiras mantém parceria com a Embrapa, com o projeto Balde Cheio. “O objetivo dessa ação é garantir a eficiência de produção leiteira orgânica”, diz Marcos. “Há capacitação de nossos profissionais da área em relação a técnicas, processos e questões ambientais.”

Orgânicos para todos

A atuação de Marcos como produtor e defensor dos orgânicos vai além dos limites da fazenda. Ele é ainda embaixador do Clube Orgânico, plataforma de assinatura de cestas de ingredientes orgânicos de pequenos agricultores. “A ideia é democratizar e fomentar essa produção no Brasil de forma justa e sustentável. Formar uma rede, de um clube realmente, em que o consumidor tenha acesso ao insumo direto com o produtor”, afirma. “O clube funciona como um veículo para encurtar esse caminho. E é também uma maneira de encararmos o orgânico como agronegócio, com rentabilidade.”

Segundo ele, isso só se concretizará quando houver um olhar de inovação para o campo. “Atualmente, o consumidor vai ao mercado e fica carente de produtos orgânicos, enquanto o agricultor não vende tudo aquilo que cultiva. Tem algo desconexo no meio do caminho. A conta não está fechando. Precisamos investir em gestão, porque o produtor rural é um empreendedor nato, ele só precisa de apoio.”

Criar uma rede de produtores é, para Marcos, uma maneira de mudar o conceito de agronegócio conhecido hoje. Dessa maneira, além de hortaliças e laticínios, a marca Vale das Palmeiras engloba diversidade de produtos elaborados em conjunto com outros fornecedores.

O chocolate, por exemplo, é produzido a partir de amêndoas finas da fazenda de sua família, no sul da Bahia. “Fiz uma parceria com a Claudia Schultz, da Chokolah, de São Paulo, para lançarmos juntos esse chocolate”, diz. “Temos ainda produção de mel e de café. Acredito muito na ideia de fomentar a produção orgânica em todas as escalas. Esse é o foco principal da Vale das Palmeiras.”

* Matéria originalmente publicada na edição 197 de Prazeres da Mesa

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Beatriz Albertoni

A paulistana divide-se entre duas paixões: jornalismo e gastronomia. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, a repórter está na redação de Prazeres da Mesa desde 2015. Adora conhecer histórias, viajar e apreciar um bom show de rock, além de nunca recusar bolo acompanhado de cafezinho.

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