Reportagens

Restaurantes afinam cardápios para o ritmo acelerado dos festivais

Pratos pensados para comer em movimento e transformam a pausa entre duas atrações em mais uma experiência do evento

Durante muito tempo, comer em festival era quase uma operação de abastecimento. Resolvia se a fome rapidamente para voltar ao palco, à quadra, à pista ou à atração seguinte. Esse roteiro começa a mudar.

A gastronomia conquistou um espaço mais interessante dentro dos grandes eventos e, hoje, há quem estude o mapa de restaurantes com a mesma atenção dedicada aos horários dos shows.

Não basta, porém, transportar o restaurante para dentro de uma barraca e esperar que tudo funcione. Festival tem outra lógica.

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O prato precisa sair rápido, sobreviver bem ao serviço intenso, ser fácil de comer e, ainda assim, carregar alguma personalidade. É uma equação que mistura cozinha, operação e uma boa dose de estratégia.

Paul’s / Festival / Foto: divulgação
Paul’s / Festival / Foto: divulgação

Paul Cho conhece bem esse cenário. Chef e proprietário da Paul’s Boutique, ele já levou suas pizzas para festivais de música como Lollapalooza Brasil e Primavera Sound, além de eventos esportivos como SP Open e STU Skateboarding. Nessas ocasiões, percebe que parte do público já chega sabendo o que quer comer.

Há quem atravesse o evento atrás de uma marca específica, volte mais tarde para experimentar outro sabor ou indique a descoberta para os amigos. Parece um detalhe, mas revela uma mudança importante: a comida deixa de ocupar apenas o intervalo da programação e começa a fazer parte dela.

AMAZO / Festival / divulgação
AMAZO / Festival / divulgação

O fenômeno também acompanha uma transformação na curadoria dos próprios festivais. Hambúrguer, pizza e outros clássicos continuam funcionando muito bem, mas já não estão sozinhos. Restaurantes com cozinhas bastante distintas passaram a enxergar esses encontros como uma vitrine capaz de apresentar seus sabores para milhares de pessoas em poucas horas.

O chef Enrique Paredes, do Ama.zo Peruano, vive essa experiência em eventos como C6 Fest e Taste Festival. Para ele, uma seleção gastronômica mais cuidadosa permite que o público conheça restaurantes que talvez ainda não estejam em seu circuito habitual. Em vez de simplesmente matar a fome, o visitante pode usar o festival para descobrir uma cozinha, um chef ou um prato.

Há ainda uma vantagem importante nessa aproximação: o preço. Paredes chama atenção para pratos vendidos na faixa de R$ 35 a R$ 40, uma porta de entrada para restaurantes que, em seus endereços originais, trabalham com tíquete médio mais alto. O festival vira uma espécie de degustação informal da casa.

Para o restaurante, significa colocar sua comida diante de um público novo. Para quem está do outro lado do balcão, é a chance de experimentar sem necessariamente assumir o compromisso de uma refeição completa. Essa mudança traz também um desafio. A comida pode ter ambição de restaurante, mas precisa respeitar o relógio de quem está ali. Ninguém quer perder o começo de um show porque o prato demorou meia hora para sair. É justamente aí que formatos aparentemente simples mostram sua inteligência.

Da Mocca / Festival / Foto: divulgação
Da Mocca / Festival / Foto: divulgação

A Da Mooca Pizza Shop encontrou dinâmica semelhante em eventos tão diferentes quanto o Carnaval no Sambódromo, a São Paulo Fashion Week e competições esportivas. Derek Wagner, proprietário da casa, observa que sabores mais diretos costumam ganhar força nesses momentos. Não necessariamente porque o público queira comer algo sem graça, mas porque, diante de tantas decisões ao longo do dia, reconhecer rapidamente o que está no prato facilita a escolha. Praticidade, afinal, não precisa significar previsibilidade.

No Ama.zo Peruano, o ceviche de camarão aparece entre os campeões de pedidos nos eventos de verão. Fresco, leve e de consumo relativamente simples, funciona justamente porque responde ao ambiente em que é servido. É um prato com identidade, mas sem complicar a vida de quem pretende voltar rapidamente à programação.

Da Mocca / Festival / Foto: divulgação
Da Mocca / Festival / Foto: divulgação

A boa comida de festival começa a nascer dessa combinação. Não se trata de reproduzir integralmente a experiência de um restaurante, tampouco de reduzir a gastronomia a opções genéricas de consumo rápido. As casas que entendem melhor esse território escolhem pratos capazes de preservar sua assinatura enquanto se adaptam a filas, grandes volumes, espaços temporários e um público que está sempre a caminho de algum lugar.

o fim, talvez esteja aí a principal mudança. Entre dois shows, uma partida, um desfile ou uma apresentação, a pergunta deixou de ser apenas onde dá para comer. Cada vez mais, é o que vale a pena comer antes da próxima atração. E quando essa pergunta entra no planejamento do dia, a gastronomia já conquistou seu lugar no line up.

@amazoperuano
@damoocapizzashop
@paulsboutiquepizza

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