Rum é rei; especialista, rainha
Karen Álvarez Seijas fala sobre o seu trabalho como rummelier, especialista no destilado de cana de açúcar mais consumido do que o pisco no Peru
Há sommelier para tudo: água, vinho, cerveja, cachaça. Vai depender do país e da demanda. Em São Paulo, Yasmin Yonashiro, do Jojo Ramen, se destaca como especialista em saquê, enquanto Luana Sabino, do Metzi, domina a arte do mezcal. No Peru, outra mulher vem se destacando à frente de uma bebida à base de cana: o rum. Karen Álvarez Seijas é rummelier e embaixadora da marca nicaraguense Flor de Caña na América do Sul. “Meu trabalho inclui comunicar e difundir a cultura do destilado, degustar e avaliar novos produtos, participar como jurada em concursos especializados e educar tanto os consumidores quanto os profissionais da indústria sobre essa categoria fascinante”, diz. Confira a entrevista completa com a peruana especialista em rum.
Há formação específica para ser rummelier?
Sim, há uma formação em rum e destilados de cana de açúcar, desenvolvida pela Associação Iberoamericana de Rummeliers junto com a Universidade Central da Venezuela, uma das instituições pioneiras na profissionalização dessa especialidade.
Como surgiu seu interesse por essa bebida e como ela moldou sua trajetória profissional?
Cresci em Trujillo, cidade considerada o berço da cana-de-açúcar no Peru. As primeiras plantas do país chegaram lá, trazidas por Diego de Mora, seu primeiro prefeito, do México, durante o período colonial. É uma região profundamente ligada à produção de rum.
O rum foi o primeiro destilado que experimentei quando comecei a beber, mas a cana fazia parte da minha infância: comprávamos para comer e beber o caldo. Quando comecei a trabalhar com turismo e coquetéis, foi essa bebida que naturalmente me cativou.
Comecei a viajar para destilarias e acompanhar competições de bartenders, experiências que me levaram a diferentes países produtores. A vida continuou me guiando por esse caminho até que me mudei para Lima e me candidatei a embaixadora da Flor de Caña no Peru. Três anos mais tarde, passei a representar a América do Sul.
Como é ser uma mulher especialista em rum?
Tive privilégios que permitiram eu me desenvolver profissionalmente. Porém, ser uma voz reconhecida no setor exigiu anos de trabalho, estudo e perseverança. O desafio provavelmente foi maior por eu ser mulher, especialmente numa categoria historicamente associada ao consumo masculino. Durante muito tempo, existiram preconceitos sobre o nosso papel, tanto na produção quanto no consumo dessa bebida. Felizmente, essa realidade está mudando. Hoje, há cada vez mais mulheres liderando projetos, pesquisando, produzindo, comunicando e apreciando rum, o que enriquece muito a categoria.
Na terra do pisco, o rum é rei. Por que isso acontece?
Embora o pisco seja nossa bebida nacional, fundamental à identidade peruana, durante anos foi reservado para ocasiões especiais, mais para consumo premium do que cotidiano. Esse espaço foi preenchido pelo rum, que conseguiu se posicionar como bebida de celebrações, encontros sociais e vida noturna.
Também, a promoção do pisco como símbolo nacional começou na década de 1990, quando a Denominação de Origem foi aprovada, e essa indústria enfrentou desafios na construção de uma estratégia unificada de desenvolvimento e comunicação.
Como tem sido a evolução do rum na coquetelaria?
No mundo dos coquetéis, o rum está vivenciando um dos períodos mais empolgantes de sua história. Durante décadas, ele foi muito associado a coquetéis tropicais, de praia, mas os bartenders têm utilizado em criações mais sofisticadas. Muito graças à enorme diversidade de estilos, matérias-primas e processos de produção. Misturar runs de 12, 15 ou 18 anos já foi mal visto, mas hoje é comum, devido à valorização dos produtos premium na mixologia.
Além disso, o aumento do interesse do consumidor pela origem, sustentabilidade e autenticidade do produto tem beneficiado o rum, uma categoria de destilado profundamente ligada à agricultura, à história e à identidade cultural da América Latina e do Caribe.
@karenaseijas



