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Sem pontuações

POR PATRICIO TAPIA (*)

O reinado das pontuações do vinho deveria chegar ao fim. E logo. Nada mais estranho do que atribuir números a algo tão pouco quantificável quanto o vinho. Em qual momento começamos a enlouquecer pelas pontuações nos vinhos? Quando foi que o sabor, a textura, inclusive a emoção que uma garrafa pode provocar começaram a ser mensuráveis numa escala de 100 pontos?

A influência das pontuações no mundo do vinho ho
je é uma dura e seca realidade, um mal necessário para muitos, inclusive para mim. Por outro lado, a pontuação é uma excelente forma de orientação para o consumidor. Um vinho de 85 pontos, se for barato, pode ser servido no almoço de um dia comum. Um de 95 pontos, mesmo que não seja caro, pode ser aberto numa ocasião especial.

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Simples e direto. Também é uma poderosa ferramenta de comercialização. As adegas vendem muito mais se seus
vinhos têm altas pontuações, especialmente se a pontuação vem de revistas ou de críticos influentes, ou seja, da Wine Spectator e do Robert Parker. São eles os que mandam sem oposição, podem esgotar uma partida de vinhos em minutos, se a pontuação for bem alta.

Mas a questão é que, quando falamos de vinhos, falamos de sensações, de subjetividade: eu gosto desse tinto, você não gosta. Também falamos de conceitos abstratos, de imagens acompanhando os sabores e as sensações. Aliás, também está em jogo uma tradição, um estilo, um lugar, a natureza, o terroir. Como é possível uma pontuação poder medir com exatidão esses parâmetros? Será que a matemática pode chegar a tal nível de complexidade? Acho que não. Diante da frieza da pontuação, um número junto ao nome do vinho, a grandeza dessa bebida mostra-se imponente, com peso cultural e altíssima cota de subjetividade.

Contudo, não é apenas isso o que não me convence nas pontuações. O que mais me provoca conflitos é o que essa pontuação procura, sua meta, os 100 pontos. O que significa que um vinho tenha 100 pontos? Um vinho perfeito? Não sei se isso é possível. Não sei, realmente, se a perfeição é uma realidade ou, na verdade, um ideal, um sonho. Não obstante, para a escala americana dos 100 pontos, a perfeição é um fato, e os 100 pontos a materializam num vinho.

Isso, por certo, nada tem de errado em si. O que me desagrada é essa busca da perfeição, a corrida desesperada pelo perfeito quando todos sabemos que a vida, a realidade, nunca é assim. Uma mulher perfeita, um amigo perfeito, uma vida perfeita, essas são coisas que não existem. Há algo mais entediante do que casar com a mulher perfeita? Aquela que nunca dá trabalho, aquela que – além de ser belíssima – é inteligente, divertida, amável, carinhosa, boa mãe, culta. Uma mulher que tem tudo. E quando algo tem tudo perde imediatamente sua humanidade. Nós, humanos, estamos longe da perfeição.

Os vinhos também. Como deve ser um vinho de 100 pontos? Não faço idéia. Não o imagino. A maioria dos vinhos de que gosto não chega nem perto da perfeição. De fato, gosto deles por seus defeitos: taninos algo duros, aroma a couro, a animal, acidez no lugar errado, mas adoravelmente refrescantes. Sou contra os 100 pontos, mas como disse no início, acho que são um mal necessário porque são uma grande ferramenta de orientação. Eu a utilizo o tempo todo como referência. Entretanto, gostaria de não fazê-lo. Talvez, num futuro próximo, deixe de utilizá-lo.

(*) Patricio Tapia é autor do Guia Descorchados, principal publicação sobre vinhos do Chile

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