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Vermute sem fronteiras: São Paulo brinda a nova cena latino-americana

Sur Vermut chega ao Brasil pela primeira vez e reúne produtores de sete países para mostrar como vinhos, botânicos e sotaques locais estão reinventando um dos grandes clássicos do aperitivo

Há um novo sotaque sendo servido nos copos de vermute. Malbec e Torrontés argentinos, Tannat e Albariño uruguaios, ervas, flores, frutas, cascas e especiarias latino-americanas começam a redesenhar uma bebida que nasceu sob forte influência europeia, mas encontrou deste lado do Atlântico um território particularmente fértil para ganhar personalidade própria. É esse mapa líquido que São Paulo poderá provar no dia 20 de setembro, quando o Sur Vermut desembarca pela primeira vez no Brasil.

Depois de duas edições em Montevidéu, em 2024 e 2025, o encontro dedicado à cultura vermuteira latino-americana troca o Uruguai por São Paulo e ocupa o HiFi Community, na Vila Leopoldina. Serão marcas de Argentina, Bolívia, Brasil, México, Paraguai, Peru e Uruguai reunidas em uma tarde de degustação livre, workshops, música, gastronomia e muita conversa diretamente com quem está por trás das garrafas.

Renato Chiapetta da San Basile / Foto: divulgação

Mais do que colocar uma dúzia de produtores diante do público, o Sur Vermut chega em um momento especialmente interessante para a bebida. Se durante anos o vermute permaneceu conhecido principalmente como coadjuvante indispensável de clássicos como Negroni, Dry Martini e Manhattan, uma nova geração de produtores começa a reivindicar para ele o centro da mesa. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, bastante antiga: colocar gelo no copo, servir vermute e deixar o aperitivo fazer o resto.

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Essa cultura de beber antes da refeição, tão arraigada em países como Argentina, Uruguai, Espanha e Itália, é justamente uma das bandeiras do encontro. O objetivo é tirar o vermute exclusivamente da coqueteleira e lembrar que, quando bem elaborado, há vinho, botânicos, amargor, doçura, acidez e complexidade suficientes para que ele seja apreciado sozinho.

A chegada do evento ao Brasil também conversa diretamente com o momento da coquetelaria nacional. Bares mais atentos à procedência dos ingredientes, bartenders interessados em produtos locais e consumidores dispostos a explorar novos sabores criaram terreno para que o vermute deixasse de ser apenas aquela garrafa obrigatória na estação de trabalho do bartender. Aos poucos, começam a aparecer rótulos brasileiros com receitas próprias e identidade distante das grandes marcas industriais que durante décadas dominaram a categoria.

Sur Vermut / Foto: divulgação

Entre os participantes brasileiros estão Suspírito, Companhia dos Fermentados, Gargalo, La Finca, San Basile e Tero. A Argentina chega com La Fuerza; o Uruguai, com Flores; o México, com Stravatto e VDC; o Paraguai, com La Vermuteria PY; a Bolívia, com Yerbasanta; e o Peru, com Avelino. Juntos, ajudam a revelar uma cena que se espalha pelo continente sem necessariamente seguir uma única cartilha.

É aí que está boa parte da graça. A tradição europeia continua sendo uma referência incontornável, mas os produtores latino-americanos começam a brincar com o repertório que têm à mão. Entram na garrafa botânicos encontrados em seus próprios territórios e, cada vez mais, vinhos escolhidos não apenas como suporte para ervas e especiarias, mas como parte efetiva da receita.

No Uruguai, por exemplo, Tannat e Albariño podem emprestar acidez, estrutura e aromas ao conjunto. Na Argentina, Malbec e Torrontés levam para o vermute características de duas variedades intimamente associadas à vitivinicultura do país. O resultado é uma coleção de tintos, dry, biancos, rosés e quinados que mostra como uma mesma categoria pode assumir sotaques bastante diferentes ao atravessar fronteiras.

O Sur Vermut nasceu justamente dessa vontade de colocar os produtores para conversar. Criado em Montevidéu pela Vermut Flores, o encontro ganha sua edição paulistana em parceria com a San Basile Destilaria. Nas duas primeiras edições, a reunião ajudou a aproximar marcas, compartilhar experiências de produção, exportação e marketing e chamar a atenção para algo que vinha acontecendo de maneira relativamente dispersa pelo continente: há uma cena latino-americana de vermute em formação, e ela começa a se reconhecer como tal.

Sócios Vermut Flores: Salvador Banchero, Juan Andres Marichal e Alvaro Aniano / Foto: divulgação

Em São Paulo, essa conversa também chega às salas de aula. A programação terá dois workshops. Um reúne Seba Despis, da brasileira La Finca, e a sommelière e barista Mari Mesquita. O outro fica a cargo de Juan Stravatto, conhecido como El Guru del Vermut e sócio da mexicana Stravatto. A expectativa é atrair não apenas consumidores curiosos, mas bartenders, sommeliers, mixologistas, chefs, importadores e profissionais do mercado de bebidas.

Toda essa novidade, curiosamente, gira em torno de uma bebida muito antiga. A combinação entre vinho e plantas aromáticas atravessa séculos e costuma ter sua história ligada às preparações medicinais da Antiguidade. Hipócrates já utilizava vinho infusionado com ervas cerca de quatro séculos antes de Cristo. Mais tarde, bebidas aromatizadas ganharam força na região da Saboia e passaram pelas mãos dos boticários antes de conquistar definitivamente bares e mesas.

Turim, na Itália, e Chambéry, na França, tornaram-se dois de seus grandes centros históricos. Com o tempo, a bebida atravessou fronteiras e oceanos, acompanhou a imigração italiana e desembarcou na América do Sul. No século 20, tornou-se inseparável de alguns dos coquetéis mais famosos do mundo. No Brasil, encontrou ainda um casamento improvável e muito nosso com a cachaça no Rabo de Galo.

O novo capítulo começa justamente quando produtores latino-americanos resolvem olhar para essa longa tradição sem reverência excessiva. Em vez de simplesmente reproduzir receitas europeias, colocam seus vinhos e ingredientes dentro da garrafa e transformam território em sabor. O Sur Vermut chega a São Paulo como uma boa oportunidade para descobrir que, entre Turim e Buenos Aires, Montevidéu, Cidade do México, La Paz ou São Paulo, existe muito mais vermute do que imaginava a velha coquetelaria.

Sur Vermut São Paulo
20 de setembro de 2026, a partir das 12h30
HiFi Community
Rua Mergenthaler, 1177, Vila Leopoldina, São Paulo
Ingressos: R$ 50 pela Sympla

O ingresso inclui copo oficial do evento, degustação livre nas bancadas dos produtores e acesso aos workshops e oficinas. O HiFi Community terá ainda programação de DJs e menu especial de coquetéis, comidas e petiscos, vendidos à parte.

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