Sustentabilidade no centro dos grandes vinhos chilenos
Noelia Orts conduz a Emiliana, maior vinícola orgânica do planeta, e mostra como biodiversidade, precisão e terroir podem dividir a mesma taça
Durante anos, o universo dos vinhos orgânicos caminhou quase à margem do mercado principal. Havia respeito pela proposta ambiental, mas ainda existia a impressão de que faltava profundidade aos rótulos produzidos sob esse modelo. Enquanto regiões clássicas acumulavam prestígio e cifras milionárias, muitos produtores ligados à agricultura regenerativa permaneciam restritos a um público menor. A Emiliana surgiu justamente para inverter essa percepção.
Hoje, a vinícola chilena é reconhecida como a maior produtora orgânica do mundo e se tornou referência internacional ao unir práticas sustentáveis e vinhos de alta qualidade. Parte importante dessa história passa por Noelia Orts, enóloga espanhola que encontrou no Chile o espaço ideal para desenvolver uma visão de viticultura baseada em equilíbrio natural e mínima intervenção.
Diversidade na taça
Natural de Benidorm, no litoral espanhol, Noelia chegou ao Chile em 2009 motivada pelo interesse crescente na diversidade vitícola do país. O que seria inicialmente um período de estudos acabou se transformando em mudança definitiva. Após concluir o mestrado em viticultura na Universidade do Chile, ela ingressou na Emiliana em 2011 e assumiu a responsabilidade pelos vinhos premium da casa.

A própria trajetória da Emiliana ajuda a entender por que a vinícola ganhou relevância no cenário internacional. Ainda na década de 1990, muito antes de sustentabilidade se tornar pauta recorrente no setor, a empresa iniciou a conversão de seus vinhedos para agricultura orgânica e biodinâmica. Naquele momento, a decisão parecia quase improvável para os padrões da indústria sul-americana, fortemente voltada à produtividade e ao modelo convencional de cultivo.
Com o passar dos anos, a propriedade passou a funcionar como um ecossistema integrado. Animais circulam pelos vinhedos auxiliando no manejo natural, áreas de vegetação foram preservadas e o solo passou a ser tratado como elemento vivo e essencial para a identidade dos vinhos. Essa relação direta com a terra moldou o estilo da produção da Emiliana e também a maneira como Noelia conduz o trabalho enológico.

Rótulos simbólicos
Entre os rótulos mais representativos está o Gê, vinho que se tornou símbolo da filosofia da vinícola. Elaborado a partir de Syrah, Carmenere e Cabernet Sauvignon, ele amadurece durante 16 meses entre barricas e foudres franceses, revelando camadas de frutas maduras, notas florais, especiarias e chocolate. O reconhecimento internacional veio quando o rótulo foi eleito o melhor vinho do Chile por James Suckling, consolidando a Emiliana entre os nomes mais relevantes da viticultura sul-americana.
Outro exemplo importante é o Coyam, blend inspirado na conexão entre vinho e território chileno. O nome vem da língua mapuche e significa “carvalho”. O vinho reúne nove castas diferentes e entrega um perfil marcado por frutas negras maduras, ervas, especiarias e notas de tabaco e chocolate.
No Maipo, o 57 Rocas mostra uma interpretação mais elegante do Cabernet Sauvignon chileno. O vinho leva esse nome por causa dos grandes rochedos espalhados pela propriedade, elementos que influenciam diretamente a drenagem do solo e ajudam a definir o caráter do rótulo. O resultado é um tinto refinado, com notas de cerejas negras, menta, especiarias e chocolate amargo, além de passagem de 13 meses por barricas novas de carvalho francês.
Já no Limarí, o Maycas Chardonnay evidencia outro lado do trabalho da Emiliana. A combinação entre solos ricos em carbonato de cálcio, acidez marcada e uso equilibrado de madeira resulta em um branco de perfil mais tenso e mineral, distante dos estilos excessivamente maduros que dominaram muitos Chardonnays do Novo Mundo por décadas.
Mais do que produzir vinhos orgânicos, Noelia Orts ajudou a construir uma nova leitura sobre sustentabilidade dentro do setor. Seu trabalho parte da ideia de que grandes vinhos dependem de vinhedos saudáveis, biodiversidade e respeito ao ambiente natural. Em um cenário cada vez mais impactado pelas mudanças climáticas, essa abordagem deixou de ser apenas diferencial para se tornar uma discussão essencial no futuro da viticultura.
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