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Taqueria La Sabrosa em Pinheiros acumula prejuízos após apagão em São Paulo

Sem resposta da Enel, restaurante recorre a geradores, escadas e ajuda de vizinhos para manter as portas abertas e evitar perdas ainda maiores

Há quase uma semana sem energia elétrica, os sócios da Taqueria La Sabrosa, em Pinheiros, têm recorrido a escadas, geradores e à ajuda de vizinhos para manter o restaurante funcionando e evitar perdas ainda maiores. O apagão transformou tarefas simples em desafios diários e colocou em risco a sobrevivência de um pequeno negócio em pleno fim de ano.

Apesar de a concessionária Enel afirmar que o fornecimento de energia elétrica já foi normalizado na Grande São Paulo, moradores e comerciantes da capital seguem relatando falta de luz nesta terça-feira, 16, quase uma semana após o vendaval histórico que atingiu a região metropolitana na última quarta-feira, 10. Na prática, a rotina de quem permanece no escuro continua marcada por prejuízos financeiros, insegurança e sensação de abandono.

No caso da Taqueria La Sabrosa, localizada na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros, zona oeste da capital, o fornecimento de energia no restaurante foi interrompido por volta das 14h da quarta-feira do vendaval, em pleno horário de almoço. Assim como ocorreu em outras partes do bairro, a luz chegou a ser restabelecida na manhã seguinte, por volta das 11h30 de quinta-feira, 11. A comemoração, no entanto, durou apenas meia hora.

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Uma árvore situada em frente ao imóvel caiu e derrubou a fiação elétrica, deixando sem energia apenas a taqueria e o sobrado vizinho, onde funcionam outros dois pequenos negócios. “O resto da rua está com energia. Só a gente e o sobrado ao lado seguimos no escuro”, relata o sócio Hugo Delgado, de 57 anos.

Por pouco, Delgado não foi atingido pela queda da árvore, já que costuma trabalhar na calçada ao longo do dia. Após o incidente, a prefeitura retirou os galhos em poucas horas, e a operadora Claro restabeleceu rapidamente a rede de internet. “A Claro e a prefeitura reagiram super-rápido. A Enel, não”, afirma. “Levamos cinco dias ouvindo que o problema seria resolvido naquele mesmo dia, e nada acontece. Toda vez que ligamos, parece que é a primeira vez.”

Desde quinta-feira, os proprietários da La Sabrosa relatam uma sequência de contatos com a concessionária por diferentes canais — telefone, aplicativo, e-mail, ouvidoria e até mensagens diretas nas redes sociais. Em todos os atendimentos, receberam respostas automáticas com a mesma promessa: o fornecimento seria restabelecido até as 23h daquele dia. “Já ouvimos esse prazo por cinco dias seguidos, inclusive depois de uma liminar que dizia que o serviço já tinha sido normalizado. Nada foi cumprido”, diz Delgado. “Não existe previsão real. A gente está cansado e desesperado.”

Sem energia, tarefas básicas se transformaram em obstáculos diários. O portão automático do restaurante passou a ser aberto manualmente — um processo que leva até dez minutos e só pode ser feito pelo lado interno. Para entrar e sair do imóvel, os sócios passaram a usar uma escada para pular o muro da frente.

Para evitar fechar as portas, decidiram alugar um gerador no sábado, dia de maior movimento da semana. O custo foi de R$ 2.500 por cerca de dez horas de funcionamento, o equivalente a aproximadamente 28% do faturamento do dia. No domingo, não havia equipamentos disponíveis para locação. Já nesta semana, um novo aluguel elevou a despesa para cerca de R$ 5.000 em apenas dois dias.

“O aluguel mensal do imóvel é de R$ 9 mil. Fechar a casa também seria um prejuízo enorme”, explica Delgado. “Era importante manter o restaurante aberto pelos clientes, pelos funcionários e para não perder os alimentos.”

Ainda assim, as perdas se acumulam. Segundo os proprietários, o restaurante já deixou de faturar pelo menos R$ 30 mil desde o início do apagão. A esse valor somam-se cerca de R$ 7 mil em gastos extras e aproximadamente R$ 3 mil em produtos perdidos. “Somos um restaurante pequeno, e esses números são gigantes para a gente”, afirma.

O impacto é ainda mais grave por ocorrer em um período tradicionalmente delicado para o setor. Em dezembro, a La Sabrosa — como muitos restaurantes de Pinheiros — fecha entre o Natal e o Réveillon, o que já reduz em cerca de um terço o faturamento do mês. Além disso, o período inclui o pagamento do décimo terceiro salário e férias coletivas dos funcionários. “A gente passa seis meses trabalhando duro para formar caixa. Em uma semana, tudo foi embora. Vamos começar o mês com a conta negativa”, lamenta.

Diante da falta de resposta da concessionária, a sobrevivência do restaurante tem dependido da solidariedade da comunidade local. Os restaurantes vizinhos, Pita Kebab e o Trem Doido, cederam espaço em geladeiras para armazenar alimentos, enquanto comerciantes próximos ajudaram com tomadas para carregar celulares e maquininhas de cartão. No domingo, mesmo com luz natural e ambiente escurecido, alguns clientes fizeram questão de comparecer.

“A comunidade é muito solidária e querida, mas a situação é urgente”, diz Delgado. “Não sabemos quando a energia vai voltar.”

Enquanto a Enel sustenta que o serviço está normalizado na maior parte da capital, histórias como a da Taqueria La Sabrosa revelam que, para milhares de paulistanos, a semana ainda segue no escuro.

A redação procurou representantes e porta-vozes da Enel, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

TAQUERÍA LA SABROSA 

Rua Francisco Leitão 246, Pinheiros, SP, @taquerialasabrosa

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Luiza Pires

Jornalista que vive entre pautas, garfadas e viagens. Instagram: @luizarpires

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