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Tarasa acerta o tom com um Torrontés que vale provar

Nas alturas do norte argentino, a uva mais aromática do país encontra equilíbrio e entrega mais do que perfume

Por muito tempo, provar um Torrontés era quase um exercício previsível. Aroma floral intenso, difícil de domar. Um vinho que chegava antes mesmo de encostar na boca e, não raro, ficava por ali. Pensar em pedir a segunda garrafa? Difícil.

Em Salta, no norte da Argentina, felizmente essa lógica tem suas exceções. Nos Valles Calchaquíes, a altitude muda tudo. Vinhedos acima dos 1.600 metros, ar seco, sol firme durante o dia e noites frias criam um tempo próprio. A uva amadurece devagar, preserva acidez e concentra com mais critério. Sai da exuberância fácil e encontra direção, com mais tensão e precisão.

Tarasa Winery / Foto: divulgação

É nesse ponto que a Torrontés começa a interessar de novo. Mas agora vem acompanhado de estrutura, com vinificações secas, sem maquiagem e sem depender de madeira. A boca limpa, o final estica e o vinho passa a sustentar conversa, não só o primeiro impacto.

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Tem também uma mudança de mentalidade. Menos açúcar residual, mais leitura de lugar. O foco deixa de ser impressionar rápido e passa a ser permanecer. E Salta ajuda. Uma das regiões mais antigas do vinho argentino, mas ainda pequena, quase reservada, construída por famílias e marcada por uma relação direta com o terroir.

Tarasa Winery / Foto: divulgação

Nesse movimento, começam a surgir olhares de fora que fazem sentido. Como o do catarinense Fernando Firmino, industrial que construiu carreira longe do vinho e acabou apostando justamente nessa casta branca de altitude. Sob sua batuta, nasce o Unicus 2025 (R$ 595), um rótulo bem ajustado. Um vinho que começa no nariz, com notas aromáticas de lichia, e que, pela acidez e estrutura bem calibradas, se resolve na boca e pede, finalmente, a segunda garrafa. Elegante com seus 12,9% de álcool.

Vale dizer que, por trás do projeto, há também uma história que atravessa séculos. A parceria com o enólogo Álvaro Dávalos Rubio traz para o jogo um olhar que não nasceu ontem. Ele é parte da sétima geração de uma das famílias mais antigas do vinho, com raízes que remontam ao fim do século 18. Aprendeu o ofício em casa, entre vinhedos e tradição, e carrega essa herança até hoje.

Tarasa Winery / Foto: divulgação

É esse tipo de encontro que dá densidade ao projeto. De um lado, a inquietação de quem chega de fora. Do outro, a memória de quem sempre esteve ali. No meio, o vinho encontra um ponto raro de equilíbrio entre repertório e frescor. E, enquanto o branco já aponta esse caminho, fica a expectativa para os próximos capítulos: a promessa é de que três tintos cheguem pouco antes do fim do ano, ampliando a leitura desse mesmo terroir em outras direções.

 

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Horst Kissmann

Editor de Vinhos e Bebidas || @kissmann

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