Tennessee além da música: um lugar para descobrir à mesa
Entre restaurantes recomendados pelo Michelin, barbecue defumado lentamente, hot chicken, Tennessee revela uma interessante cena gastronômica

No Tennessee, a gastronomia deixou de ser apenas coadjuvante da música e passou a ocupar lugar de destaque. O estado que transformou Nashville em referência mundial da country music também construiu uma cena culinária que mistura tradição sulista, técnicas contemporâneas e um senso de hospitalidade muito particular. Entre restaurantes recomendados pelo Guia Michelin, festivais gastronômicos, destilarias, smokehouses e pequenas cidades históricas onde o jantar ainda é servido na mesa da anfitriã, o Tennessee revela um cenário único do sul dos Estados Unidos.
Em Nashville, a música continua sendo o coração da cidade: os próprios moradores se orgulham em levar consigo algum tipo de talento relacionado aos acordes, sejam em instrumentos ou com suas próprias vozes. Mas basta circular por bairros como Germantown, The Gulch ou East Nashville para perceber que os chefs também ganharam espaço. A cidade hoje soma dezenas de restaurantes recomendados pelo Guia Michelin e abriga três casas com uma estrela: The Catbird Seat, Bastion e Locust. Em outubro de 2026, Nashville será, inclusive, sede da cerimônia do Michelin Guide American South, consolidando o espaço que a cidade conquistou na gastronomia americana.
Receitas lendárias
Mas é claro que a força da culinária local não está apenas na alta gastronomia. E por lá, nenhum exemplo é mais evidente do que o Nashville Hot Chicken. A receita, criada há quase um século, nasceu de uma história de vingança doméstica: segundo a narrativa mais repetida da cidade, uma mulher irritada com as escapadas amorosas do parceiro decidiu exagerar na pimenta do frango frito servido a ele. O resultado saiu pela culatra. O prato fez sucesso e acabou dando origem ao lendário Prince’s Hot Chicken.
Hoje, o hot chicken está espalhado por toda Nashville, em versões que vão do suave ao praticamente impraticável para quem não está acostumado com pimenta extrema. O frango chega coberto por uma mistura intensa de especiarias, servido sobre pão branco e acompanhado de picles. A combinação parece simples, mas se tornou um dos sabores mais associados ao Tennessee. Uma das maneiras mais práticas de provar a receita original é visitar o Assembly Food Hall, espaço que reúne diferentes cozinhas sob o mesmo teto e funciona como um retrato contemporâneo da cidade: ao lado dos clássicos locais convivem culinárias internacionais, cafés, bares e cozinhas experimentais.

Outro grande destaque em Nashville é o churrasco defumado local. O Tennessee leva o “barbacue” americano a sério, especialmente no preparo lento das carnes defumadas. Entre costelas, pulled pork e brisket, o peito bovino defumado é também uma obsessão regional. O processo exige horas de fogo baixo, controle rigoroso de temperatura e paciência.
É justamente essa filosofia que move a casa de carnes Edley’s, uma das mais populares da cidade. A unidade de Donelson mantém o clima informal típico do sul americano, mas com muita atenção à técnica e ingredientes. As carnes passam horas sendo defumadas com madeira de carvalho branco do sul dos Estados Unidos, os acompanhamentos são preparados diariamente e há um esforço perceptível em manter a experiência distante de qualquer aspecto industrial. O brisket aparece entre os favoritos da casa, ao lado do macaroni and cheese, do banana pudding e do Bushwacker, milk-shake alcoólico que virou assinatura do restaurante.
Rugby: uma vila inglesa perdida

Mas o Tennessee não se resume às grandes cidades. Parte importante da experiência está justamente nas pequenas localidades espalhadas pelas estradas do estado. E poucas sintetizam isso tão bem quanto Rugby, uma minúscula vila histórica instalada no Cumberland Plateau, no leste do Tennessee.
Chegar a Rugby é entrar em outra época. Fundada em 1880 por Thomas Hughes e um grupo de intelectuais ingleses que buscavam construir uma comunidade utópica longe das tensões industriais da Inglaterra, a vila preserva até hoje suas construções vitorianas, telhados inclinados, janelas em estilo gable e uma atmosfera que parece suspensa no tempo. Em 1972, Rugby entrou para o Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos e hoje é considerada uma das vilas históricas mais bem preservadas do país.
É ali que fica o Grey Gables Bed and Breakfast, hospedagem que sozinha já justificaria a viagem. A proprietária, Linda, de 88 anos, recebe pessoalmente cada hóspede na porta da casa ao lado do gato Buttermilk, responsável informal pela recepção. Tudo funciona como uma extensão da vida doméstica da anfitriã. Cada quarto possui decoração própria, o jantar é preparado pela própria Linda e servido à mesa, como um encontro familiar com seu acervo de louça pessoal muito bem apresentado.

A sensação é de visitar a casa de uma avó americana do interior. Uma das memórias mais marcantes da hospedagem é justamente a canja preparada por Linda, servida sem qualquer pretensão de fine dining, mas carregada de conforto. Daqueles pratos que deixam lembranças. As receitas podem, inclusive, ser encontradas no livro publicado pela anfitriã. Pela manhã, o café pode ser tomado na própria hospedagem ou na cafeteria que pertenceu ao avô de Linda e atualmente é administrada por sua filha, Tiffany, que também cozinha por lá.
Knoxville: arte, natureza e gastronomia

Seguindo para Knoxville, terceira maior cidade do estado, o cenário muda novamente. Ali, montanhas, vida universitária, arte urbana e gastronomia se integram. O centro da cidade é facilmente percorrido a pé e mistura murais coloridos, música ao vivo, pequenos cafés, museus e restaurantes que ajudam a explicar por que Knoxville passou a figurar também no circuito gastronômico americano.
Um dos exemplos mais comentados é o Potchke, restaurante recomendado pelo Guia Michelin que transformou um delicatessen judaico contemporâneo em uma das mesas mais disputadas da cidade. O sanduíche de pastrami com queijo gruyère praticamente virou cartão-postal local e nos dá vontade de retornar à cidade apenas para degusta-lo novamente. As filas frequentemente ocupam a calçada, embora avancem rápido.
No fim, um lugar onde a hospitalidade ainda funciona de maneira bastante literal, seja no balcão de um barbecue em Nashville, na conversa descontraída em uma cafeteria de Rugby ou na fila de um sanduíche em Knoxville.



