O Time Out Market encontrou sua esquina em São Paulo: será no Conjunto Nacional
Com abertura prevista para o primeiro trimestre de 2027, projeto ocupará 3.250 metros quadrados na Avenida Paulista, reunindo 19 operações gastronômicas, três bares e cerca de 750 lugares
Durante meses, uma pergunta circulou nos bastidores da gastronomia paulistana: afinal, onde seria instalado o primeiro Time Out Market da América Latina? O endereço agora está revelado e dificilmente poderia ser mais paulistano. O projeto vai ocupar o primeiro andar do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, praticamente na esquina com a Rua Augusta, transformando uma área que permaneceu vazia por cerca de dez anos em um mercado gastronômico de 3.250 metros quadrados. A abertura está prevista para o primeiro trimestre de 2027.
Serão 19 operações gastronômicas, distribuídas em boxes de 13 a 37 metros quadrados, três bares e aproximadamente 750 lugares. A ideia é montar uma espécie de retrato comestível de São Paulo, reunindo cozinhas brasileira, italiana, árabe e japonesa, entre outras vertentes que ajudam a contar a história gastronômica da capital. Os restaurantes e chefs escolhidos ainda não foram anunciados, mantendo em aberto justamente a parte que deve provocar maior curiosidade entre os paulistanos.

A escolha do endereço aproxima duas histórias essencialmente urbanas. De um lado está o Time Out, criado em Londres em 1968 para ajudar seus leitores a descobrir o que havia de mais interessante para fazer, ver, comer e beber na cidade. Do outro, o Conjunto Nacional, um dos edifícios que melhor traduzem a vocação de São Paulo para misturar gente, comércio, cultura e vida cotidiana. Projetado na década de 1950 pelo arquiteto David Libeskind, o complexo foi pioneiro ao reunir apartamentos, escritórios e lojas em um mesmo endereço, muito antes de o conceito de uso misto ganhar espaço no mercado imobiliário.
A arquitetura será, aliás, uma das atrações. O projeto do Levisky Arquitetos Estratégia Urbana não pretende simplesmente colocar uma grande praça gastronômica dentro do Conjunto Nacional. Parte da proposta é fazer com que o novo espaço continue pertencendo ao edifício e à cidade. Vigas, pilares de concreto, dutos e outros elementos originais serão recuperados e permanecerão aparentes, resultado de um trabalho que o escritório define como uma espécie de arqueologia urbana.
Outra curiosidade está na disposição das cozinhas. São Paulo terá o primeiro Time Out Market do mundo a colocá las no centro do salão. A inversão da lógica tradicional das praças de alimentação libera as extremidades do espaço e preserva a relação visual com a cidade. Em vez de cozinhas escondidas nas paredes e mesas concentradas no miolo, quem prepara a comida passa a ocupar o coração do mercado, enquanto o público ganha vistas para a Paulista, a Rua Augusta e a Alameda Santos.
Até os corredores foram pensados para lembrar São Paulo. O desenho dos percursos internos se inspira no traçado urbano da Praça da República e de seu entorno, reproduzindo a ideia de praças, largos e bulevares. Haverá grandes mesas coletivas, cantos mais reservados, ambientes festivos, espaços corporativos e áreas contemplativas próximas à Augusta ou voltadas para as copas das árvores da Alameda Santos. A intenção é que circular pelo mercado seja parte do programa, e não apenas o caminho entre uma mesa e outra.
Na gastronomia, a seleção será feita por um comitê de especialistas liderado por Mauricio Schuartz, ao lado de representantes do Time Out e profissionais convidados do mercado brasileiro. Há uma característica interessante no modelo: os restaurantes selecionados receberão praticamente toda a infraestrutura necessária para funcionar. Aos operadores caberá principalmente levar suas equipes de cozinha, matérias primas e insumos. O formato reduz o investimento inicial e pode abrir uma janela especialmente interessante para jovens cozinheiros e novos projetos dividirem espaço com nomes já conhecidos da cidade.

E não será apenas comida. O mercado terá três bares, sendo o principal ligado à Ambev, com Stella Pure Gold, além de cozinha estúdio e uma área multiuso preparada para receber eventos, workshops, feiras e encontros entre chefs. A proposta é funcionar como uma plataforma gastronômica e cultural, e não como uma simples reunião de restaurantes.
Um dos 19 boxes terá ainda vocação internacional e endereço mutante. Com curadoria rotativa da Nomad, receberá periodicamente chefs estrangeiros, criando pequenas temporadas de cozinhas de diferentes partes do mundo em plena Avenida Paulista. Os primeiros convidados ainda serão anunciados. A empresa também terá um lounge na área central do mercado, enquanto seus clientes contarão com benefícios como acesso preferencial e prioridade nas reservas da cozinha gourmet.
A participação da Nomad é maior do que a presença física no mercado. A chegada do projeto marca seu primeiro contrato de “Experience Rights” no Brasil, válido por dez anos, com investimento superior a R$ 100 milhões. O acordo também garante à empresa preferência para ativações em eventuais novas unidades do Time Out Market na América Latina, inclusive possíveis operações em outras cidades brasileiras. São Paulo, portanto, pode funcionar como porta de entrada para uma expansão mais ampla pelo continente.
A própria origem do Time Out Market guarda uma boa história. O conceito não nasceu como uma rede convencional de mercados gastronômicos, mas como uma extensão física do trabalho editorial da Time Out. O primeiro abriu em Lisboa, em 2014, dentro do Mercado da Ribeira, partindo de uma ideia bastante simples: se os jornalistas da publicação selecionavam havia décadas os melhores lugares de uma cidade, por que não reunir alguns deles debaixo do mesmo teto? Surgia ali um mercado gastronômico baseado em curadoria editorial.
A fórmula rapidamente ganhou passaporte. Atualmente há Time Out Markets no Bahrein, Barcelona, Boston, Budapeste, Cidade do Cabo, Dubai, Lisboa, Montreal, Nova York, Osaka, Porto e Vancouver. Outros projetos estão em desenvolvimento em Abu Dhabi, Nova Délhi, Praga e Riade. São Paulo entra nesse mapa com outra particularidade: será apenas a segunda operação do grupo desenvolvida no modelo de franquia, depois da estreia desse formato na Índia, em 2025.
No fim das contas, porém, a grande sacada talvez esteja no endereço. O Conjunto Nacional sempre funcionou como uma pequena cidade dentro da cidade, um lugar onde comércio, escritórios, apartamentos e pessoas simplesmente atravessando seus corredores convivem desde os anos 1950. Colocar ali um mercado cujo princípio é reunir aquilo que melhor representa a vida urbana parece quase uma extensão natural dessa história.
Quando as portas abrirem em 2027, a curiosidade não estará apenas em descobrir quem conquistou um dos cobiçados 19 boxes. A pergunta será outra: qual São Paulo o Time Out decidiu colocar no prato? Em uma cidade onde botecos, pizzarias, balcões japoneses, cozinhas árabes, restaurantes italianos, mesas autorais e alta gastronomia convivem a poucos quilômetros de distância, escolher somente 19 nomes talvez seja justamente a parte mais difícil da história.



