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Verticalização sem controle

Obra vizinha paralisa La Cura e reacende debate sobre segurança e descaracterização urbana

O restaurante La Cura Gastronomia, comandado pelo chef Ivan Santinho na Vila Madalena, suspendeu parte de suas operações após ter sido surpreendido, na manhã de 24 de novembro, pela demolição irregular do muro do imóvel vizinho. A obra, vinculada à construção de um novo empreendimento residencial pela construtora Toca 55, foi iniciada sem tapume, sem contenção e sem qualquer medida de segurança, contrariando determinações expressas da decisão judicial que autorizava a continuidade dos trabalhos.

Imagens divulgadas nas redes sociais do restaurante mostram pedaços de concreto e poeira caindo diretamente sobre áreas internas da casa, onde funcionários já circulavam. Não havia isolamento, equipamentos de proteção individual ou acompanhamento técnico. Segundo o restaurante, o impacto foi imediato: risco às pessoas, danos ao mobiliário e a necessidade de interromper parte das atividades num dos períodos mais importantes do ano para o setor gastronômico.

O conflito está formalmente registrado no Processo nº 4006130-31.2025.8.26.0011, que tramita na 1ª Vara Cível do Foro Regional de Pinheiros. A situação também já foi levada ao Tribunal de Justiça, que marcou uma audiência de conciliação para esta semana, em esforço para tentar um acordo entre as partes.

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O chef Ivan Santinho afirma que o restaurante foi informado da existência da liminar apenas no final da tarde de 19 de novembro, véspera de feriado, sem detalhamento sobre quando ou como a demolição ocorreria. Desde então, La Cura — por meio de sua equipe jurídica — passou a pedir o cronograma da obra, medidas de mitigação e protocolos de segurança. Nada disso foi enviado.

“A gente recebeu a liminar e, a partir desse momento, pediu informações básicas: quando seria a demolição, como seria feita, quais eram as medidas de segurança. Não tivemos resposta nenhuma. Zero”, diz Santinho.

Segundo ele, a expectativa era de que, diante da audiência de conciliação marcada para esta semana, a construtora aguardaria antes de iniciar qualquer ação mais invasiva. “Fiquei até aliviado quando soube da audiência. Pensei: ‘Ok, eles devem esperar para discutir um acordo’. Mas não. Na segunda-feira, simplesmente apareceram três funcionários, sem EPI, sem técnica, e começaram a subir no muro”, relata.

O chef descreve que, no momento da demolição, funcionários do restaurante ainda tentavam retirar objetos e mobiliário das áreas expostas.

Danos estruturais, risco e prejuízos

Além do risco imediato, o restaurante relata danos materiais importantes. Lustres antigos e peças de mobiliário das décadas de 60, 70 e 80 — restaurados especialmente para compor a identidade visual da casa — ficaram impregnados de pó e resíduos. Parte do acervo pode ter perda definitiva.

“Os lustres ficaram manchados. São materiais porosos, peças que a gente garimpou, restaurou, investiu. Tudo ficou coberto por entulho. Não tem como recuperar algumas delas”, afirma Santinho.

A interrupção das atividades atinge em cheio o calendário mais rentável para bares e restaurantes. O mês de dezembro suporta a queda natural de movimento em janeiro e fevereiro e para cumprir seus compromissos financeiros, incluindo salários e 13º de cerca de 30 famílias empregadas pela casa.

Narrativas divergentes

A incorporadora responsável pela obra afirma que houve negociação e comunicação prévia. O restaurante rebate com veemência. Segundo documentos preparados pela defesa do La Cura, não houve “meses de negociação”, mas apenas tentativas unilaterais de diálogo entre 17 de setembro e 8 de outubro — e que nunca houve retorno sobre pontos essenciais como cronograma, projetos técnicos e prazos de interdição.

Quanto à suposta comunicação antecipada sobre a demolição, o restaurante afirma que ela nunca ocorreu. A única informação recebida teria sido a própria liminar, enviada sem instruções práticas, na véspera de feriado.

“Se você vai demolir um muro dentro de um restaurante repleto de equipamentos, mesas, decoração, você precisa avisar. Precisa dar prazo para que se retire tudo, para que se suspenda o atendimento com segurança. É o mínimo. Mas não houve nada disso”, afirma Santinho.

A situação mobilizou vizinhos, clientes e moradores do bairro, que se manifestaram em solidariedade ao restaurante. O caso reacendeu críticas à forma como a verticalização tem avançado na Vila Madalena, muitas vezes sem diálogo com a comunidade e com impactos diretos sobre negócios locais, trânsito e infraestrutura.

O La Cura reforça que não é contrário à obra, e sim à forma como ela foi conduzida, e afirma que seguirá tomando todas as medidas legais para assegurar a retomada segura das operações. Enquanto isso, trabalha para reorganizar o espaço e minimizar os prejuízos.

O episódio reforça a urgência de rever práticas e fiscalizações no processo de verticalização paulistana. Para quem vive e trabalha na Vila Madalena, o caso do La Cura não é um fato isolado, mas o sintoma de uma cidade que cresce sem assegurar condições mínimas de convivência entre novos empreendimentos e a dinâmica já instalada nos bairros. A expectativa agora é de que o desfecho judicial e a mobilização pública ajudem a consolidar protocolos mais rígidos de responsabilidade, transparência e planejamento — evitando que outros negócios, trabalhadores e moradores enfrentem riscos semelhantes no futuro.

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Luiza Pires

Instagram: @luizarpires

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