Vexame na Itália

Por Jorge Lucki
O que era para ser uma grande festa do vinho italiano acabou virando enredo de ópera trágica. O cenário era o da 42a edição da Vinitaly, feira de vinhos que se realiza todos os anos na cidade italiana de Verona, e que, ao lado da de Bordeaux, na França, são as mais importantes do setor. Neste ano, foram 4.300 expositores, que ocuparam uma área de 87.000 metros quadrados. Cada pavilhão, dessa vez foram 14, concentra vinhos e produtores de uma mesma região. Quase 90% dos produtores presentes eram da Itália. Mas a divulgação de uma série de fraudes nos vinhos italianos, e em outros dois ícones da gastronomia do País da Bota – o azeite e o aceto balsâmico –, foi como uma ducha de água fria. As denúncias, publicadas pelos jornais L’Espresso e Corriere della Sera, abalaram a estrutura da agricultura italiana, obrigando a Confederazione Italiana degli Agricoltori (CIA) a agilizar as investigações para dar uma resposta à sociedade e à União Européia, que cobra punição rigorosa aos culpados.
O azeite, por exemplo, a maioria feita na Puglia, região responsável por 40% da produção do país, estava adulterado, contendo outros óleos, de baixa qualidade, vindos de Tunísia e Grécia. Já o aceto balsâmico, tradicional de Modena, era feito, na verdade, em Nápoles. Mas o que abalou mesmo os alicerces da gastronomia italiana foi a constatação de que uma leva de vinhos baratos, com preços abaixo de 3 euros, continha na verdade 70% de água e quilos e mais quilos de açúcar – sem contar as suspeitas de uso de ácidos nocivos à saúde, como o clorídrico e o sulfídrico –, com a finalidade de afinar um pouco o produto e enganar o consumidor; e o uso de uvas não autorizadas na composição dos famosos Brunello di Montalcino.
No caso dos Brunello, o assunto é muito sério, por envolver produtores de prestígio do país. Para entender o caso, vale lembrar que a produção mundial de vinhos do Velho Mundo é quase toda controlada por legislações antigas e rigorosas que, quando seguidas, emprestam aos rótulos as expressões de Denominação de Origem Controlada e Garantida (DOCG). Os produtores, quando não querem segui-las, precisam explicitar nos rótulos que seus vinhos estão classificados em outra categoria – seriam de Indicazione Geografica Típica (IGT), e perdem o direito à denominação –, não podem mencionar, por exemplo, Brunello di Montalcino – mesmo estando situados nos limites da região demarcada. Nesse caso, o que aconteceu é que alguns dos Brunello, supostamente, utilizaram uvas não permitidas pela legislação, que obrigatoriamente deve ser elaborado com 100% de uva Sangiovese Grosso, também conhecida como Brunello.
Teoricamente, para o consumidor, esse não é um problema monstruoso, já que o uso de outras uvas, no caso das francesas Merlot, Syrah e Cabernet Sauvignon, tem o objetivo de deixar os vinhos mais ao gosto do consumidor, principalmente os do mercado americano – Brunello é uma casta difícil, e com o aumento desmedido da área plantada nos últimos anos, muitas das parreiras estão ainda demasiado jovens para fornecer cachos maduros. Mas, uma outra vertente das investigações aponta que a mistura de outras uvas visa exclusivamente ao aumento de volume de produção, já que a quantidade de uvas Brunello plantada não é suficiente para atender o aumento do consumo.
Apesar da fama, os Brunello di Montalcino sempre foram vinhos bastante irregulares, com a qualidade oscilando muito a cada safra, e poucos produtores se destacando. São justamente alguns deles, como Antinori, Frescobaldi e Argiano, que estão na mira da legislação italiana. Todo esse imbróglio tende a se generalizar e a prejudicar a imagem dos produtos italianos no mercado internacional. Como sempre, pode acabar sobrando para os honestos – que não têm nada a ver com o peixe – pagar a conta.

Jorge Lucki é um dos maiores conhecedores de vinho do país e colunista do jornal Valor Econômico



