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VIK: vinho, arte e paisagem

No Chile, vinícola transforma experiência enológica em percurso sensorial que ecoa a lógica de Inhotim

Quando pisei na Viña VIK, no Chile, a primeira imagem que me veio à cabeça foi a de Inhotim. Não foi por acaso. Em Minas Gerais, o museu consolidou uma forma particular de apresentar arte ao ar livre, integrando arquitetura, paisagismo e percurso de visitação. Na VIK, essa mesma sensação reaparece, não como cópia, mas como linguagem. A vinícola se organiza como um espaço onde o vinho é apenas uma das camadas de um projeto maior, que envolve estética, território e uma curadoria cuidadosa em cada detalhe.

Barricas de carvalho em repouso, etapa essencial da maturação do vinho / Foto: Luiza Portela

A comparação se sustenta naturalmente porque, assim como em Inhotim, a experiência não se limita a um ponto específico. Ela acontece no deslocamento, no olhar que percorre os vinhedos, nas intervenções arquitetônicas e nos elementos que surgem quase sem aviso ao longo do caminho. A arte está nas paredes, nos edifícios, na forma como a paisagem é desenhada e até nos objetos mais discretos. Há uma intenção clara de construir uma narrativa contínua, em que tudo conversa entre si e o visitante deixa de ser apenas espectador para se tornar parte desse percurso.

Um dos momentos mais reveladores da visita está na estrutura de produção. A VIK mantém uma tonelaria própria dentro da propriedade, algo raro mesmo entre vinícolas de grande porte. Acompanhar o processo de fabricação das barricas, desde o aquecimento das aduelas até a curvatura da madeira e o controle da tosta, ajuda a entender o nível de precisão buscado pela casa. As madeiras vêm de florestas francesas tradicionais, e o domínio desse processo permite ajustar com exatidão a influência da madeira no vinho, sem excessos e sem interferências desnecessárias.

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Próprio lugar

Essa busca por identidade aparece também na filosofia de elaboração. A vinícola trabalha com conceitos próprios que tentam aprofundar a leitura do terroir. Entre eles, o fleuroir chama atenção pelo uso de leveduras selvagens presentes no ambiente, especialmente nas flores da região. A fermentação acontece de forma espontânea, guiada por essas leveduras indígenas que atuam em camadas, começando pelas mais delicadas e evoluindo para as mais resistentes, criando vinhos que ganham complexidade de forma gradual e orgânica.

Na prática, isso significa abrir mão de atalhos industriais para permitir que o vinho se construa a partir do próprio lugar. As ânforas de argila e as barricas exclusivas entram como ferramentas discretas, que interferem pouco e deixam o líquido evoluir com naturalidade. A micro oxigenação acontece de maneira sutil e o resultado chega à taça com uma sensação de continuidade entre solo, clima e técnica. Não é apenas um vinho bem feito, mas um vinho que carrega discurso e coerência.

A experiência gastronômica reforça essa lógica. No restaurante Pavilion, dentro da propriedade, o almoço segue o mesmo cuidado estético e sensorial da vinícola. O percurso é longo, dividido em etapas, mas flui com precisão. Logo na abertura, um gesto que sintetiza o nível de atenção da casa: um champagne próprio, o La Piu Belle, elaborado na França e envelhecido por mais de uma década, que já estabelece o tom do que virá. A sequência de pratos percorre ingredientes locais e combinações inesperadas, sempre acompanhadas por harmonizações pensadas para dialogar com cada preparação.

O roteiro passa por tapas, frutos do mar, preparações com influência chilena mais evidente e chega a pratos mais estruturados, como o cervo na brasa, antes de encerrar com sobremesas que brincam com texturas e contrastes. Não há excesso nem exibição gratuita. O que se percebe é uma construção cuidadosa de ritmo, em que cada etapa prepara o terreno para a próxima.

Descanso integrado

Fora da vinícola, a experiência se estende ao hotel que ocupa o topo de uma colina no Vale de Millahue. Cercado por vinhedos e por uma reserva natural extensa, o VIK Chile Hotel mantém a mesma linguagem visual e conceitual. A arquitetura se impõe sem romper com a paisagem e o pátio central funciona como um espaço de contemplação silenciosa, quase meditativa.

Degustação dos rótulos ícones e vinhos base da Viña VIK / Foto: Luiza Portela

Os quartos seguem essa lógica com poucas unidades e propostas individuais. Cada suíte foi concebida em parceria com artistas contemporâneos, criando ambientes que se aproximam de instalações habitáveis. Há ainda bangalôs de vidro espalhados pela propriedade, que ampliam essa sensação de integração com o entorno, com vistas abertas e elementos que dissolvem a fronteira entre interior e exterior.

No dia da visita, um detalhe reforçava ainda mais essa conexão com o universo da arte e da arquitetura. A equipe celebrava o reconhecimento internacional de Smiljan Radić, responsável por uma das obras mais emblemáticas da propriedade, o espelho d’água que conduz o visitante até a vinícola. A premiação com o Pritzker Prize, considerado o mais importante da arquitetura mundial, parecia coroar uma proposta que já nasce com ambição estética clara.

Serviço de espumante no almoço harmonizado do restaurante / Foto: Luiza Portela

O vinho está presente e sustenta a experiência com qualidade, mas é o conjunto que define o lugar. Arte, arquitetura, paisagem e gastronomia se articulam de forma coerente e criam uma visita que ultrapassa a degustação. É um percurso que se constrói aos poucos e permanece na memória muito depois da última taça.

Por Luiza Portela (@winesure)

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