Vinho híbrido: você sabe o que é?
Conheça mais sobre essa novidade no mundo dos vinhos
Por Marina Giuberti*
Há quem diga que as uvas Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot ou Malbec estão com os dias contados. Isso por conta de novas experiências que viticultores têm feito, especialmente aqui na França, misturando diferentes tipos de uvas. São as chamadas uvas híbridas, novas espécies de uvas que estão em pleno teste (e debate) no mundo do vinho. Elas têm ganhado força por terem se mostrado mais resistentes. Caso as experiências sejam bem-sucedidas, imagine a dimensão dessa novidade a longo prazo.
As doenças nas plantações sempre foram uma realidade nas vinícolas, situação que gerou inúmeras crises desde a Antiguidade e estimulou o uso de pesticidas ao longo dos séculos. O problema é que o feitiço virou contra o feiticeiro com o uso em excesso de agrotóxicos. A publicação francesa “Pesticides en viticulture” (Pesticidas na viticultura), do pesquisador Francis Macary, primeira pesquisa focada no impacto dos agrotóxicos nas vinícolas, trouxe uma revelação assustadora. A quantidade de químicos injetados em 110 mil hectares de vinícolas da região de Marcillac, em Bordeaux, entre os anos de 2014 e 2019, representou 10% do uso de pesticidas em toda a França. Não à toa os vinhos biodinâmicos e naturais são uma resposta a esses abusos e, por isso, têm tido cada vez mais adeptos.

O desafio ficou ainda mais complexo para os produtores que, nos últimos anos, têm lidado com as consequências de perdas nas vinhas em razão das mudanças climáticas, com períodos de intenso frio ou calor fora de época. A safra de 2021 da região da Borgonha, por exemplo, foi duramente impactada por uma geada tardia, que provocou prejuízo de 70 milhões de garrafas. Para completar, a própria agricultura biológica tem sido criticada pela utilização do cobre, produto autorizado para combater um fungo chamado míldio, que assola as uvas nas primaveras muito úmidas.
Para driblar essas perdas, alguns produtores começaram a abordar o problema de uma outra perspectiva. Em vez de pensar num remédio para curar as videiras, eles resolveram focar na prevenção. E se as vinhas não adoecessem? Assim não seria preciso utilizar pesticidas nem tampouco cobre. Foi assim que o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica na França (Inra), o Instituto Francês do Vinho e da Vinha (IFV) e vários viticultores entraram de cabeça nessa experiência de desenvolver novas espécies. As uvas híbridas são originárias de uma combinação entre vinha tradicional e vinha selvagem, cientificamente conhecida como Vitis Vinifera. Oriunda da Europa e da Ásia, a Vitis Vinifera representa o antepassado selvagem da maioria das videiras cultivadas atualmente e reagrupa centenas de variedades. Ela já traz uma aura de resistência por ter sobrevivido a várias eras glaciais.
Mais de 30 variedades estão em fase de testes. Há, por exemplo, uma casta nova batizada de Cabernet Jura, um cruzamento entre Cabernet Sauvignon e vinha selvagem. Outra chamada Reselle, uma variedade de uva que é fruto da combinação de Sauvignon Blanc, Riesling e vinha selvagem. São nomes ainda pouco conhecidos, mas que podem ser determinantes para um novo capítulo na história do vinho.
Tenho acompanhado o trabalho de Geoffrey Estienne, produtor francês de mirtilos em Creuse, uma região até então não apropriada para o cultivo de uvas. Apaixonado por vinhos e percebendo os efeitos da mudança climática nas suas terras, Geoffrey começou a plantar uvas híbridas em 2017. Ao lado de um grupo de viticultores, ele fundou, inclusive, uma associação para defender as castas híbridas. O produtor apostou no cruzamento de dois tipos diferentes de vinhas selvagens e o resultado das primeiras colheitas me chamou atenção. Tanto que seus vinhos estão à venda nas minhas duas caves em Paris.

A hibridação, inclusive, já foi testada no final do século XIX, com o objetivo de combater a filoxera, uma infestação que assolou as vinhas de toda a Europa. Acabou sendo proibida depois de não apresentar resultados consistentes, até recentemente voltar a ser experimentada de forma mais inovadora e com novas tecnologias.
Mas a pergunta que fica é: os vinhos de uvas híbridas são bons? Eu já tive oportunidade de provar alguns, ainda acho difícil dar um veredito porque são vinhas muito jovens. De toda a forma, há referências boas e ruins também nas uvas tradicionais. Uma das minhas preferidas, por exemplo, é Pinot Noir, mas alguns vinhos entregam muito, outros não. Há quem até hoje não acredite ou desaprove os vinhos naturais, uma categoria em enorme ascensão. Então, ainda que se leve um bom tempo para a introdução das uvas híbridas no mercado, eu acredito no seu potencial. Não sei se elas vão representar apenas novas espécies, ou se vão dominar o jogo pela sua capacidade de resistência. Será que estamos diante do início do vinho do futuro? Uma coisa é certa, o poder da adaptação é válido para tudo e todos.
*Marina Giuberti é sommelière, mestre-cavista e fundadora da loja de vinhos Divvino, em Paris



