Vinhos

Vinícola Hermann aposta em versão laranja do Alvarinho

Novo rótulo de produção limitada explora a maceração com as cascas e reforça uma relação da vinícola gaúcha com a variedade que passa pela consultoria do português Anselmo Mendes

A Vinícola Hermann abre um novo capítulo de sua relação com a Alvarinho ao apresentar a variedade sob uma perspectiva bem menos comportada. O Alvarinho Laranja 2024 nasce em Pinheiro Machado, na Serra do Sudeste do Rio Grande do Sul, e troca a elaboração clássica dos brancos pela fermentação em contato com as cascas. Depois, passa um ano em barricas de carvalho francês. A estreia é pequena, com apenas 1.200 garrafas, quase uma edição de colecionador.

Apesar do nome, o que muda é a maneira de vinificar. Enquanto na elaboração convencional de um branco as cascas são normalmente separadas do mosto antes da fermentação, aqui as uvas brancas seguem um caminho semelhante ao dos tintos e fermentam em contato com as películas. É justamente delas que vêm parte da cor, dos taninos, da textura e de uma dimensão aromática diferente. Dependendo da uva, do tempo de maceração e do recipiente utilizado, a paleta pode ir do dourado intenso ao âmbar e ao cobre.

A técnica está longe de ser uma invenção contemporânea. Sua referência histórica mais célebre está na Geórgia, onde vinhos brancos macerados com as cascas são elaborados há milênios, tradicionalmente em qvevri, grandes recipientes de barro enterrados no solo. A prática georgiana de vinificação em qvevri integra, inclusive, o patrimônio cultural imaterial reconhecido pela Unesco. O curioso é que uma maneira ancestral de fazer vinho tenha retornado ao centro das conversas justamente nas últimas décadas, impulsionada pelo interesse por vinificações menos convencionais e pela redescoberta da textura como parte importante da experiência de um branco.

Continua após o anúncio

No caso da Hermann, há ainda um personagem que torna essa história especialmente coerente. A relação da vinícola com o enólogo português Anselmo Mendes vem desde o início do projeto. Os vinhedos de Pinheiro Machado, implantados em 2002 por empresários portugueses interessados justamente em cultivar variedades lusitanas no Brasil, foram adquiridos pela família Hermann em 2009 com assessoria enológica de Mendes.

E falar em Anselmo Mendes é quase inevitavelmente falar em Alvarinho. Natural de Monção, no norte de Portugal, ele trabalha com a variedade há mais de três décadas e ganhou por lá o apelido de “Senhor Alvarinho”. Em vez de tratar a uva apenas como matéria prima para brancos jovens, frescos e aromáticos, fez dela uma espécie de laboratório ao longo da carreira, estudando fermentação e estágio em madeira, diferentes parcelas, potencial de envelhecimento e também a antiga técnica portuguesa da curtimenta, justamente a vinificação de uvas brancas com contato com as películas.

Há uma razão para a Alvarinho responder bem a esse tipo de experiência. A variedade tem cachos pequenos e película relativamente grossa, característica particularmente interessante quando o enólogo decide trabalhar com maceração. Em sua terra de origem, Monção e Melgaço, também é reconhecida pela acidez elevada e pela capacidade de produzir vinhos longevos, atributos que ajudam a sustentar estilos mais estruturados.

Na Hermann, a uva já aparece no Alvarinho Jovem, elaborado com consultoria de Mendes. O novo laranja leva essa relação alguns passos adiante. Na taça, surgem aromas que remetem a mel, casca de laranja confitada e especiarias, acompanhados por uma boca de maior estrutura. Não é exatamente aquele branco para beber distraidamente à beira da piscina. A presença das cascas e o estágio em madeira aproximam o vinho da mesa e permitem combinações normalmente difíceis para brancos mais leves.

É aí que o laranja mostra uma de suas graças. A acidez de uma uva branca continua presente, mas passa a dividir espaço com textura e taninos, combinação que amplia bastante o repertório gastronômico. O Hermann Alvarinho Laranja 2024 pode acompanhar ensopados de frutos do mar, bobó de camarão e moquecas, além de cogumelos e pratos com molhos cremosos. Também é um estilo que convida a abandonar o hábito de servir todo branco excessivamente gelado, já que temperaturas um pouco mais altas ajudam a revelar aromas, textura e complexidade.

Fundada em 2009 por Adolar Hermann com os filhos Mara, Heloisa e Edson, a Hermann nasce da experiência da família no mercado de vinhos, já que Adolar também está à frente da importadora Decanter. Em Pinheiro Machado, o projeto encontra vinhedos que haviam sido plantados alguns anos antes com forte presença de variedades portuguesas e passa a construir um portfólio no qual convivem diferentes maneiras de interpretar o vinho.

O vinho pode ser encontrado no site da importadora por 220 reais.

@vinicolahermann
@decanter_vinhos

Mostrar mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo