Xinomavro Muito Além do Barolo da Grécia
A uva emblemática da Macedônia Grega afirma identidade própria e reposiciona a Grécia no mapa dos grandes tintos do mundo
Por Etienne Carvalho / @vinhosporetienne
Jornalista especialista em vinhos, sócia fundadora da ABS DF
Durante muito tempo, a expressão “Barolo da Grécia” circulou de forma quase clandestina entre sommeliers e críticos europeus. O apelido, meio carinhoso, meio provocador, surgiu nas décadas de 1980 e 1990, quando alguns produtores da Macedônia Grega, especialmente de Naoussa e Amyndeon, começaram a apresentar tintos de taninos firmes, acidez elétrica e uma longevidade surpreendente. Na época, era quase inevitável que o mundo comparasse esses vinhos a alguns ícones piemonteses.
Mas a verdade é que essa história tem raízes ainda mais profundas. A Xinomavro, pronunciada ksi nô mavro, sempre foi uma uva de personalidade indomável, capaz de contar histórias longas na taça. Seu nome une “xino”, ácido, e “mavro”, negro, referência não apenas à casca escura da uva, mas sobretudo à sua acidez elevada. Na taça, essa combinação se traduz em tintos de cor rubi translúcida, taninos firmes, frescor vibrante e uma capacidade de envelhecimento que impressiona.

Quem prova um bom Xinomavro reconhece suas marcas quase de imediato. Notas de tomate seco, ervas mediterrâneas, ameixa fresca, especiarias e uma acidez brilhante que acentua o paladar. Os taninos podem parecer austeros na juventude, mas evoluem com o tempo para uma textura envolvente. Muito desse caráter vem da altitude dos planaltos da Macedônia Grega, dos solos pedregosos, da grande amplitude térmica e de uma cultura vitivinícola que aprendeu a equilibrar tradição e modernidade. Em Amyndeon, um detalhe geográfico muitas vezes esquecido desempenha um papel mais importante do que se imagina: a presença dos lagos, que oferecem luminosidade e frescor ao vinhedo, conferindo aos vinhos uma acidez viva e aromas complexos.
A comparação com o Barolo ajudou o mundo a olhar para a Grécia, mas hoje o consenso entre críticos e produtores é outro. A Xinomavro não é substituta de ninguém. É protagonista. Tem voz própria, estrutura própria e uma narrativa própria. E amadureceu o suficiente, tanto na viticultura quanto na adega, para deixar para trás a sombra das comparações com o Piemonte.
Essa virada de percepção é nítida quando se conversa com quem está diariamente entre as vinhas. Em Amyndeon, o enólogo e coproprietário da Alpha Estate, Angelos Iatridis, resume a relação com a uva com uma clareza impossível de ser aprendida em livros. “A Xinomavro não se deixa domar. Ela exige paciência, precisão e, sobretudo, respeito. Meu parceiro e viticultor Makis Mavridis e eu frequentemente chegamos à mesma conclusão por caminhos diferentes: a videira escreve o primeiro rascunho. Nosso papel é refiná lo, não reescrevê lo. Quando tudo se alinha, o vinho carrega uma emoção muito particular, uma austeridade inicial que lentamente se abre em graça, uma intensidade silenciosa que se aprofunda com o tempo.” Segundo ele, trabalhar com Xinomavro é aceitar uma conversa longa, cheia de nuances e tempos próprios, e é justamente isso que a aproxima dos grandes clássicos do mundo.
Trazer vinhos gregos ao Brasil também carrega uma dimensão cultural. Para Georges Karakaxis, importador especializado em vinhos gregos, a presença dos rótulos helênicos no mercado brasileiro é um projeto de longo prazo, voltado à construção de repertório e à conexão do consumidor com uma das origens mais antigas do vinho no mundo. Ao apresentar uvas como a Xinomavro, a proposta vai além dos rótulos e aposta na curiosidade do público e na capacidade de reconhecer autenticidade, tradição e identidade em uma cena gastronômica cada vez mais madura e diversa. O desafio, segundo ele, é mostrar uma Grécia moderna que vai muito além da imagem simplificada de brancos leves ou vinhos de apelo turístico.
Esse movimento também se reflete na diplomacia. Durante a Noite Enogastronômica Grega, realizada na Embaixada da Grécia em Brasília no final de novembro, evento em que a Xinomavro escoltou um dos pratos principais do menu, o embaixador Ioannis Tzovas descreveu a uva de maneira que sintetiza sua profundidade cultural. Em entrevista, afirmou que a Xinomavro é “uma expressão da alma grega, resistente, vibrante e feita para atravessar o tempo”. Segundo o diplomata, quando o mundo descobre esse vinho, não aprende apenas sobre uma variedade, descobre algo essencial sobre a própria Grécia, sua história e sua forma particular de dialogar com o tempo.
Rótulo destaque
Entre os rótulos que consolidaram a reputação internacional da uva, poucos são tão respeitados quanto o Alpha Estate Xinomavro Vieilles Vignes Barba Yannis, de vinhedo único, produzido em Amyndeon. Elaborado a partir de vinhas antigas, algumas com mais de setenta anos, o vinho é elegante e potente ao mesmo tempo, reunindo aromas de cereja negra, tomate seco e funcho, taninos polidos, mas presentes, acidez vibrante e uma capacidade de guarda que facilmente ultrapassa quinze ou vinte anos. Trata se de um tinto que comprova como a Grécia se reposicionou no mapa mundial do vinho com ousadia, técnica e profundo respeito ao terroir. No Brasil, o rótulo é trazido pela Montedictis Importadora. Preço médio R$ 754.
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